As Guerras das Bergamotas - O elo eterno dos Sindarin

Edu Kawasashi04/10/2026
As Guerras das Bergamotas - O elo eterno dos Sindarin

Capítulo 09: O lírio branco.

Roberta e Isaac entraram no pátio do castelo Drakenhart, os soldados ali presentes prestaram reverência enquanto eles passavam, o menino ficou surpreso com tudo aquilo, ele ainda estava tentando absorver o que havia escutado, ele era um herdeiro de uma das famílias mais poderosas de Auravéria, seu pai era um grande lorde e nunca havia ouvido falar nada sobre isso.

- Mamãe…? - chamou ele, tímido.

- Agora não, meu amor, mas eu prometo que lhe direi tudo o que há para saber. - respondeu Roberta, lançando um rápido sorriso para o filho.

O interior do castelo dos Drakenhart era tão imponente quanto suas muralhas. Construído em pedra escura, com detalhes em mármore negro e veios avermelhados, o lugar transmitia uma sensação de força e antiguidade. Os corredores eram largos e altos, sustentados por enormes colunas de pedra que se erguiam até os tetos abobadados. Candelabros de ferro forjado pendiam acima das passagens, iluminando o ambiente com a luz trêmula de dezenas de velas.

As paredes eram decoradas com estandartes negros e vermelhos, todos marcados pelo brasão da família: um dragão de asas abertas envolto por uma lua prateada. Entre os estandartes, grandes tapeçarias retratavam batalhas, casamentos, coroações e antigos membros da linhagem Drakenhart montados sobre dragões. Armaduras completas permaneciam dispostas em nichos ao longo dos corredores, algumas acompanhadas por espadas, lanças e escudos que pareciam ter pertencido a guerreiros de outras eras.

O piso de pedra polida refletia suavemente a luz das tochas, enquanto tapetes espessos em tons de vermelho escuro percorriam os principais corredores. O ar carregava o cheiro de cera, madeira antiga, couro e, ocasionalmente, da fumaça das grandes lareiras espalhadas pelo castelo.

Quanto mais se avançava para os aposentos nobres, mais refinada se tornava a decoração. Portas de madeira escura eram adornadas com maçanetas e detalhes de bronze, enquanto pequenas estátuas de dragões repousavam sobre pedestais entre as janelas. Grandes vitrais coloridos filtravam a luz do exterior, projetando sobre o chão imagens de dragões, luas e símbolos ancestrais da família.

Os aposentos do lorde Raedusk ficavam em uma das partes mais altas e reservadas do castelo. O ambiente combinava a imponência de uma sala de comando com a austeridade de um escritório particular. As paredes eram revestidas por madeira escura e pedra, cobertas por mapas antigos, pinturas de antepassados e estantes carregadas de livros, pergaminhos e documentos cuidadosamente organizados.

Uma enorme mesa de madeira maciça ocupava o centro do cômodo, sobreposta por mapas de Bergânia, cartas, documentos selados e pequenos marcadores utilizados para representar territórios e posições militares. Atrás dela, uma grande janela arqueada oferecia uma visão privilegiada da cidade e das terras pertencentes aos Drakenhart.

Ao lado da mesa havia uma lareira de pedra negra, cercada por poltronas de couro envelhecido. Sobre a lareira repousavam objetos antigos da família, entre eles pequenas esculturas de dragões, medalhões, armas cerimoniais e um relógio de bronze.

O quarto propriamente dito ficava separado do escritório por uma passagem lateral. A cama era grande, feita de madeira escura e coberta por tecidos pesados em vermelho e preto. Cortinas espessas protegiam as janelas, mantendo o ambiente parcialmente mergulhado em sombras mesmo durante o dia.

Todo o espaço carregava a mesma característica presente no restante do castelo: riqueza sem ostentação, poder sem necessidade de demonstração e uma constante sensação de que cada pedra, cada arma e cada retrato pertenciam a uma história muito mais antiga do que aqueles que atualmente habitavam o lugar.

Roberta se aproximou da cama olhando para o homem velho deitado nela, lorde Raedusk Drakenhart, o líder da família Drakenhart, os dois trocaram olhares preocupados, ela temia pelo filho e Raedusk temia que sua vida estivesse chegando ao fim.

- Finalmente retornou para casa, menina. - disse ele.

- Na verdade, vim apenas acompanhar meu filho, pois seus homens desejavam levá-lo de mim à força se fosse necessário. - ela era como uma leoa em frente a um dragão moribundo e velho.

- Me desculpe, meus homens estão nervosos com o meu estado atual. - ele tossiu um pouco antes de continuar. - Tenho estado à beira do meu destino final, menina. Preciso ver meu neto antes de morrer.

Ele se sentou com dificuldade na cama e olhou para o menino. Isaac agora colocava seus olhos pela primeira vez em um homem velho, com olheiras e poucos fios de cabelo em sua cabeça, faltavam-lhe alguns dentes e sua face era quase cadavérica, ele não se assustou, Arkhavel já havia cumprido sua missão em retirar do menino o medo de figuras estranhas como aquela.

- Olá, meu menino. - disse Raedusk com os olhos cheios de emoção. - Você é idêntico ao seu pai na sua idade, idêntico!

Roberta sentiu seu coração apertar, sabia do imenso amor de Raedusk por Elentar, seu único e amado filho, seu mundo inteiro depois da morte de sua esposa. Ela ajudou Isaac a subir na cama deixando o menino cara a cara com seu avô.

- Venha até mim para que eu lhe diga o quanto eu sempre te amei, filho. - o velho levantou uma de suas mãos e Isaac a pegou indo até o avô.

- Olá, vovô. - disse ele de forma simples e leve, de forma que só uma criança poderia dizer.

O velho lorde sorriu como não sorria desde a morte de seu filho, sorriu como só havia sorrido em sua infância setenta verões atrás e por um minuto seu coração lembrou o que era alegria de verdade, o que era amor de verdade e que seu sonho estava bem na sua frente sorrindo para ele de uma forma tão linda quanto ele jamais havia visto, Isaac era a personificação das orações de um dragão à beira da morte.

- Minha menina, me diga o motivo de ter me privado de uma companhia tão cara assim? - perguntou ele acariciando o rosto de Isaac.

- O senhor me fez escolher, eu jamais deixaria meu filho aqui e viraria as costas. - respondeu Roberta apreciando a cena que seus olhos gravaram para sempre. - Nenhum nome vale perder o meu filho.

- Do que está falando? Eu jamais pediria algo assim, você sempre foi bem-vinda aqui, estaria protegida aqui, acolhida.

- Não é hora para isso, lorde Raedusk. - Roberta disse em tom breve. - Gostaria de saber o motivo da sua solicitação.

Isaac começava a se aproximar do lorde devagar a cada brincadeira, a cada toque ele se sentia mais próximo daquele homem velho e cansado. Roberta reparava que para Isaac aquele homem deitado ali começava a ser uma figura reconhecida, começava a ser uma figura próxima.

- Tenho estado nos meus últimos dias e sei bem disso, pois já vi muitos finais diferentes durante minha vida toda e temo pela segurança da minha família, incluindo vocês dois, menina. - ele respirou fundo e fez sinal para que Roberta sentasse ao lado da cama, sem objeção ela sentou-se. - Desde que meu menino se foi eu tenho investigado uma conspiração que antes imaginava ser apenas algo na minha cabeça, mas a cada resultado que obtinha eram noites em claro. Sei que quem matou meu filho foram os elfos da casa de Sylvaris, pois ele trazia consigo em uma das mãos o símbolo da casa élfica. - ele apontou para a pequena cômoda ao lado de sua cama.

Roberta abriu devagar a gaveta tirando lá de dentro o símbolo em um tecido verde envelhecido, ela bem conhecia aquele símbolo, havia feito uma roupa para um Sylvaris há pouco tempo e bordado o seu brasão real na roupa.

- A verdade é que a casa de Sylvaris assim como os elfos do reino de Sylvaris estão desvanecendo aos poucos nos últimos cem anos devido à perda de seu príncipe imortal, eles acreditam que esse príncipe está aqui em Auravéria, pois a canção disse que ele se colocou a morar com humanos e se tornou um de nós por amor a uma humana.

- O que o senhor quer dizer? Elentar morreu por causa de uma lenda antiga? - perguntou Roberta curiosa.

- Tenho motivos para acreditar que Elentar sabia onde o elfo e sua companheira estão sepultados, a canção diz que eles estão descansando juntos, mas acreditamos que o elfo se colocou em torpor quando sua esposa morreu, seus poderes estão adormecidos e aos poucos ele voltará a ser o príncipe onipotente que foi por milhares de anos.

- Por qual motivo meu marido estaria procurando a tumba de um príncipe elfo adormecido? - Roberta começava a sentir um aperto no coração.

- Porque, menina... acredito que meu filho descobriu que a canção não fala de um amor perdido. Ela fala de alguém que ainda está esperando para despertar e Sylvaris fará qualquer coisa para que isso aconteça. - ele tossiu mais forte.

- Não se esforce. - Roberta tocou na testa do velho liberando sua magia. - Eu tenho amigos que estão viajando com um Sylvaris, eles confiam nesse companheiro com a vida deles e um dos meus amigos é casado com uma elfa estelar de Solaris, nem todos os elfos trazem desgraça.

Raedusk olhou para Roberta.

- Eu acredito em você, mas tenho muitos motivos para suspeitar da casa Sylvaris do que para confiar neles. - ele suspirou. - Meus homens têm vasculhado Auravéria atrás do túmulo do príncipe elfo há anos, mas sem sucesso e agora sinto que estamos ficando sem tempo.

- Mas se Sylvaris encontrar o seu príncipe perdido pode significar que um reino inteiro está livre da extinção, meu lorde.

- Ou que os outros reinos terão que se curvar perante eles. - Raedusk lançou um olhar preocupado para ela. - Sylvaris está diferente, a casa dos Sylvaris não é mais a mesma de antes, há corrupção e desordem lá.

Roberta estava pensativa, se o príncipe imortal caísse nas mãos de Sylvaris poderia significar que eles estão salvos, mas também que os outros reinos estariam em perigo com um poder nas mãos de seres consumidos pela corrupção.

- Meu lorde, sei que não os conhece, mas eu confio nos meus amigos, confio nas habilidades deles, se o senhor der um voto de confiança acredito que eles podem ser as pessoas que ajudarão a casa Drakenhart a resolver essa questão, eles colaborarão para encontrar o túmulo do príncipe.

- Você me disse que há um Sylvaris entre eles, como posso confiar?

- O senhor confia em mim? - perguntou ela olhando o velho homem nos olhos.

🍊🍊🍊

De volta à taverna, Roberta reuniu os amigos em seu escritório e explicou o que estava havendo, falaram sobre a canção, Marcos leu a letra para todos e eles confirmaram que se tratava de Elo Eterno, a canção élfica que a mãe de Lemos também cantava para ele na infância, a lenda era verdadeira e decidiria o destino de um povo.

Lemos contou que havia virado as costas para sua terra natal justamente devido ao que o lorde sabia, a corrupção e a ganância haviam dominado a casa Sylvaris, não eram mais boas companhias e nem seguras, Wellen contou que, há pouco menos de um mês, na fronteira com Escarlantis, ela e seu pelotão haviam enfrentado um pequeno grupo de elfos desgarrados, infelizmente eles conseguiram fugir, deixando apenas dois de seus companheiros para trás, sem vida, pareciam ser de Sylvaris.

Edu comentou sobre ter escutado essa música na cadeia de Ramo depois que Dryadalis de Rivervale cantou apenas um pedaço dela, ele parecia louco, mas ainda assim Edu sentiu nele algo estranho e a figura dele ficou ainda mais estranha depois que Lemos comentou que ele havia desaparecido completamente de um momento para o outro. Suas teorias agora poderiam ser de que Dryadalis talvez fosse um desses elfos que Wellen poderia ter encontrado, eles trocaram descrições, mas nenhuma batia.

- Acho que não nos resta o que fazer, afinal de contas. - disse Marcos. - Temos dois elfos muito importantes aqui conosco.

- Mas não seriam somente os elfos de Sylvaris que iriam morrer? - perguntou Rafai.

- Todo elfo veio de Sylvaris, não importa onde tenha nascido, algum ancestral te liga àquela terra e te faz parte dela. - explicou Lemos. - Desculpe, Edu e Wellen.

 Está tudo bem, nós já imaginamos. - disse a elfa, sorrindo para o seu semelhante.

- Acho que não temos mais escolha, então. - Rafai levantou-se e olhou para os amigos.

- Vamos caçar um elfo dorminhoco! - disse Edu.

Roberta acertou a cabeça de Rafai e Edu com um castiçal que estava sobre sua mesa, os dois levaram as mãos imediatamente até o local onde ela havia batido.

- Vocês ainda nem recuperaram as forças completamente, idiotas! - ela bufou. - Se saírem agora, vão ser alvos fáceis por aí. Eu vou falar com o lorde Drakenhart mais uma vez, ajeitar tudo para essa missão enquanto vocês vão reunir forças.

- Sim, senhora! - responderam os quatro.

- Antes de qualquer coisa, o lorde Drakenhart perguntou se esse grupo tem um nome.

- Bergamota… - disse Edu.

- Prime. - completou Marcos.

Os dois se olharam, Marcos levantou o punho e Edu, pela primeira vez, tocou o punho dele com o seu.

- Bergamota Prime… É tão ridículo que vai com certeza fazer os inimigos subestimarem vocês, isso vai dar muito certo. - Roberta sorriu.

🍊🍊🍊

Algum tempo mais tarde, os amigos estavam todos reunidos no quarto de Rafai, conversando sobre seus próximos passos e questionando a música misteriosa que escondia mais do que só uma história de amor. O que estava se colocando na frente deles agora não era uma simples aventura, mas o destino de um reino, de um povo inteiro estava em jogo, um amigo e uma pessoa amada estavam no meio dessa cruzada onde nem o mínimo caminho se apresentava para eles.

- Vocês têm noção do que está acontecendo, do que teremos que fazer? - Marcos limpava seu alaúde sem olhar para os amigos.

- Parece que vamos partir em uma missão bastante perigosa, com chances de morrermos. - Lemos estava sentado na cama de Rafai e, em sua frente, Edu estava parado de braços cruzados, encostado em um armário.

- Nós quase morremos uma dezena de vezes nos últimos anos. - disse o bruxo. - Se lembram daquela vez em Vale da Oliveira, em Valdoren?

Por um instante, os quatro ficaram em silêncio e riram juntos, aquela havia sido uma confusão e tanto, tão mortal quanto engraçada.

- Mas agora é sério, é o povo do Lemos e da sua senhora que estão em jogo. - disse Rafai, preocupado, sentado ao lado do elfo na cama. - Sylvaris está morrendo e isso é difícil de acreditar.

- Tá, mas é Sylvaris ou o povo de Sylvaris que está morrendo? - Marcos parou e encarou os amigos.

- Não tem muita diferença, nós nos alimentamos da força vital de Sylvaris, se o reino morrer, nós somos os próximos. 

- Lemos explicou. - Não tenho sentido o poder da minha terra natal diminuir, pois estou há muito tempo fora, não é como se não me alcançasse, mas é que eu já não estou mais acostumado a escutar os batimentos da árvore sagrada.

- Wellen me disse algo assim uma vez, os elfos do clã dela já não escutavam mais as vozes nem os batimentos de Sylvaris, é uma ligação espiritual poderosa, mas alguns elfos acreditam que humanos e outras raças fazem com que eles percam isso, por isso muitos ainda vivem sobre a árvore sagrada.

- Exatamente, e vai muito além disso, elfos são mais poderosos em Sylvaris, nossa magia é mais densa, nossos sentidos são mais aguçados… É tudo diferente.

- Mas você ainda me parece bem forte. - Rafai comentou para o amigo.

- Treinamento ajuda, mas eu jamais serei tão forte quanto eu posso ser estando em Sylvaris, por isso acredito que os elfos que a dama de Elenarion enfrentou estavam em um nível diferente do que ela poderia enfrentar naquela hora. - Lemos parecia preocupado. - Nossos inimigos a partir de agora são muito mais poderosos que nós, não temos como ganhar somente com músculos, precisamos de Vontade.

- Mas nós temos vontade de vencer. - Marcos disse olhando o amigo.

- Não essa vontade, a Vontade que eu digo é um poder que existe em cada ser vivo, mas que só consegue ser despertado com treinamento, pois a Vontade é uma certeza profunda e uma convicção real naquilo que os nossos olhos físicos não podem enxergar.

- Vamos fazer acontecer, pois se falharmos, talvez elfos corruptos e mal-intencionados usem esse poder para fazer uma bagunça e tanto nesse mundo. - Rafai parecia preocupado, mas algo dentro dele sentia a vontade dos amigos.

🍊🍊🍊

O dia seguinte correu normalmente, os amigos ajudaram Roberta a cuidar da taverna, Lemos e Marcos ajudaram no salão, Rafai ficou no caixa da taverna, nunca aconteceu de ninguém reclamar dos preços, da comida e da bebida quando chegavam ao caixa, Rafai era uma muralha, mesmo cheio de ataduras e vestido com roupas comuns, ele ainda era uma muralha de músculos e força, Edu estava na cozinha lavando os pratos a pedido dele mesmo. Wellen confirmou depois que Edu se sentia muito bem quando estava lavando a louça, ele entrava no mundinho dele e parecia até tranquilo naquele momento, mas naquela cozinha ele tinha que lidar com os gritos do chef Ériko.

Wellen ficou na parte da estalagem, ela acompanhava os novos hóspedes, orientava os que já estavam saindo e ainda dava dicas de locais que eles deveriam conhecer em Luarado, mesmo ela nunca tendo estado nesses locais, mas seus ouvidos estavam atentos às conversas à sua volta.

Roberta estava dando atenção aos seus clientes, ela passava pelas mesas, perguntava como estava o serviço, a comida, a hospedagem e recebia ótimos comentários, o que a deixava muito feliz, Roberta vivia por aquele lugar e Isaac, estando tudo bem, ela estava bem, ficar tranquila era uma sensação que não experimentava nos últimos dias.

- Meu Deus, tem muita gente chegando! - disse Marcos correndo para lá e para cá com uma bandeja em suas mãos.

Do outro lado do salão estava Lemos, o príncipe de Sylvaris.

Vestindo um simples avental branco por cima das roupas, o elfo parecia estar completamente deslocado naquele ambiente. Não por falta de elegância, mas porque aquilo que ele fazia naquele momento era digno de um guerreiro élfico em pleno auge de suas habilidades.

Ele carregava três pratos em uma mão, duas canecas na outra e ainda equilibrava uma garrafa sobre o antebraço.

O problema era que o salão estava lotado.

Pessoas levantavam das mesas, outras caminhavam apressadas, crianças corriam entre as cadeiras e garçons atravessavam o caminho carregando bandejas. Para qualquer pessoa normal, aquilo seria um desastre anunciado.

Para Lemos, era apenas mais uma tarde de trabalho.

Um homem deu um passo para trás.

Lemos imediatamente recalculou sua rota.

Girou sobre o próprio eixo, passou por trás de uma cadeira, inclinou o corpo para a esquerda e atravessou o espaço entre duas pessoas com poucos centímetros de sobra. Uma caneca escorregou de sua bandeja, mas o elfo sequer olhou para ela.

Sua mão simplesmente apareceu no lugar certo.

Pegou a caneca no ar. Continuou andando. Uma mulher colocou o braço para trás sem perceber.

Lemos abaixou-se.

Um sujeito passou na frente dele.

Lemos saltou sobre a cadeira.

Uma criança atravessou correndo.

Lemos girou no ar, aterrissou sobre uma mesa vazia, usou o próprio impulso para alcançar outra mesa e, ainda no movimento, deixou um prato exatamente diante do cliente que havia feito o pedido.

Tudo isso sem derrubar uma única gota.

Por alguns segundos, parecia menos um garçom e mais um ninja élfico em uma missão de vida ou morte.

Só que, em vez de assassinar alguém, ele estava entregando ensopado.

Roberta observava a cena de boca aberta.

Marcos havia parado de servir suas mesas.

Rafai simplesmente acompanhava os movimentos do elfo com os olhos, tentando entender como aquilo era fisicamente possível.

— Ele está... trabalhando? — perguntou Rafai.

— Tecnicamente — respondeu Marcos. — Mas eu acho que ele está se divertindo.

E estava.

Lemos sorria.

Quanto mais pessoas surgiam em seu caminho, mais rápido ele ficava.

Uma bandeja veio voando de uma cozinha.

Ele estendeu a mão e a pegou.

Um cliente deixou cair uma colher.

Lemos a agarrou antes que tocasse o chão.

Outro cliente pediu vinho enquanto ele passava.

Sem sequer parar, o elfo lançou a garrafa por cima de três pessoas.

A garrafa descreveu um arco perfeito pelo salão.

Lemos estalou os dedos.

A rolha saltou.

A garrafa caiu diretamente na mão do cliente.

Silêncio.

O homem olhou para a garrafa.

Depois olhou para Lemos.

— Obrigado…

Lemos apenas fez uma pequena reverência e continuou seu caminho.

— Eu acho que ele está levando isso a sério demais — disse Roberta.

— Não — Marcos respondeu, segurando o riso. — Acho que esse é o maior orgulho que ele já teve na vida.

Lemos passou por eles novamente carregando uma bandeja completamente cheia.

— Mais alguém pediu alguma coisa?

Os três se entreolharam.

— Não! — responderam ao mesmo tempo.

— Ótimo!

E o príncipe de Sylvaris voltou ao campo de batalha.

Apenas para entregar mais três pratos.

🍊🍊🍊

A tarde avançou e o movimento caiu, como era de costume. Até a noite, quando recomeçaria a correria, os funcionários da taverna teriam um bom descanso. Lemos foi para o pátio dos fundos praticar com seu arco; Marcos, Roberta e Isaac foram até o mercado; Rafai retornou para o seu quarto para descansar; e Edu e Wellen fizeram o mesmo. Aproveitaram o tempo para descansar, pois, à noite, eles iriam dar uma volta por Luarado em alguns locais que Roberta indicou, dizendo que eram conhecidos pontos românticos da cidade.

Wellen olhou para o marido, que deixava seu sobretudo no cabideiro, no canto do quarto. Ele estava mais velho ou era apenas sua percepção? Ele parecia mais sombrio, mas Azrael sempre lhe dera essa aura de enigma. O importante era o que ele carregava em seu coração, e ela via com facilidade a luz violeta de sua aura brilhando em torno do marido, aquele brilho que ele possuía desde criança. Existe uma lenda na Casa Elenarion que os pais contam para os filhos. Ela diz que você só enxergará a aura da pessoa que está ligada a você pela eternidade, e Wellen viu a aura de Edu assim que se conheceram em Alvorada, há vinte e cinco anos.

- Shae’nor vel’ka thyr na’wel en’kaivar shae, aros vel’nath. (Fico feliz de estar novamente com você depois de tanto tempo). - Ela se aproximou do marido, abraçando-o pelas costas e repousando as mãos sobre seu peito.

- Você ainda se lembra de como se fala essa língua antiga... - Edu sorriu, feliz por escutar aquelas palavras.

- Como poderia? É a nossa forma de falar um com o outro. - Ela encostou o rosto em suas costas.

Ele virou-se para ela, segurando seu rosto.

- Me desculpe, eu não fui um bom marido. Afinal de contas, exílio não combina com casamento. - Ele encostou a testa na dela.

- Não precisava ter sido assim. Poderíamos ter resolvido isso. As casas Elenarion e Sorrexion jamais deixariam você ser morto. - Ela acariciou seu rosto.

- E seriam duas grandes casas sendo colocadas à prova por causa de um homem. Eu saí com vida, e isso já é o bastante, pois estar preso aos meus pecados já é torturante o suficiente.

- Não falemos disso, naevor (marido).

- Vae, naevra. Kael’mor saen na’var vae thal’ryn, ar vae vel’kaar. (Sim, esposa. Falemos apenas de nosso futuro e de nossa missão).


🍊🍊🍊

Mais tarde, ainda naquele dia, Eriko ficou sabendo sobre a conversa de Roberta com o lorde Drakenhart. Ela não escondeu nada do chef. A cada palavra, Eriko ficava ainda mais chocado ao saber sobre a busca pelo príncipe elfo adormecido, a cruzada de corrupção de Sylvaris e o assassinato do seu senhor, possivelmente cometido pelos elfos.

- Madame, se esses elfos corruptos acharem o príncipe perdido, isso poderá significar o fim de todos os reinos como os conhecemos... Temos um problema aqui.

- Eriko, temo que estejamos mais metidos nisso do que imaginamos. Lemos, sendo o príncipe de Sylvaris, acredito que tenha um papel fundamental nisso, pois esse príncipe elfo é um antepassado dele. Meus amigos estão correndo perigo.  Roberta estava sentada atrás de sua mesa, com uma expressão séria.

- Dê a ordem, madame. - disse o homem gordinho e velho. Naquele momento, Eriko Jackin não era mais o cozinheiro da Estrela Dourada.

- Sir Eriko, cavaleiro das panelas e talheres, eu ordeno que proteja a Estrela Dourada e todos que estiverem aqui.

- Oui, madame! - disse ele, curvando-se.

- E mais uma coisa, Sir Eriko.

- Oui?

- Não faça prisioneiros.

🍊🍊🍊

A noite caiu, e Luarado transformou-se em uma cidade mais lenta, mas, ainda assim, muito bonita. As luzes que iluminavam as ruas davam um ar etéreo à cidade, como se tivesse saído de um conto de fadas. Edu não se cansaria de Luarado jamais. A cidade era linda e, ao mesmo tempo, pequena o suficiente para não sentir a pressão do movimento incessante de uma grande cidade. Havia locais para visitar, praças para onde ir quando estivesse com vontade de ler ao ar livre, bibliotecas pequenas, mas muito aconchegantes, e a Fonte dos Apaixonados, que ficava no meio de uma praça rodeada por restaurantes românticos, onde os apaixonados poderiam desfrutar de um local para seus encontros. Era para lá que o casal estava se dirigindo naquela noite.

Edu surgiu primeiro.

O sobretudo negro que costumava usar nos dias de batalha havia desaparecido. Em seu lugar, vestia um longo casaco de alfaiataria em veludo preto, ajustado ao corpo, cuja gola alta era bordada com discretos fios dourados, formando pequenos círculos arcanos quase invisíveis à distância. O tecido absorvia a luz da cidade, mas os detalhes em vinho profundo revelavam-se sempre que ele caminhava.

Sob o casaco, uma camisa branca de tecido fino contrastava com um colete preto de corte impecável, fechado por delicados botões de bronze envelhecido. A gravata estreita, em tom vinho escuro, era presa por um discreto broche de ametista lapidada, refletindo a luz dos lampiões de Luarado.

As calças, igualmente negras, eram elegantes sem perder a praticidade. Ajustavam-se às pernas e desapareciam dentro de botas altas de couro polido, sem qualquer exagero. Nenhuma corrente, nenhuma fivela excessiva. Apenas linhas limpas, refinadas e precisas. Era a roupa de um bruxo que não precisava provar seu poder; sua presença já fazia isso.

Na cintura, apenas um fino cinto de couro sustentava uma pequena bolsa de couro escuro e uma adaga cerimonial. O grimório permanecia em casa naquela noite.

Quando levantava a taça ou ajeitava os óculos, os bordados dourados das mangas capturavam a luz por um instante, lembrando constelações gravadas no tecido.

Então Wellen apareceu.

O vestido preservava a identidade da aventureira que ela era, mas revelava uma elegância que poucos imaginavam existir sob a armadura.

A base era formada por uma blusa de mangas longas em marfim, confeccionada em tecido leve, com delicadas rendas próximas aos punhos e uma gola alta suavemente franzida. Sobre ela repousava um corpete negro de couro fino e tecido brocado, perfeitamente ajustado à cintura, ornamentado apenas por discretos bordados dourados que desenhavam ramos e pequenas estrelas.

A saia era dividida em camadas. A parte frontal terminava pouco acima dos joelhos, permitindo liberdade para caminhar, enquanto painéis assimétricos em preto e marfim caíam até as panturrilhas, acompanhando cada movimento com leveza. A barra era adornada por finos bordados dourados inspirados nas flores e nas vinhas de Luarado.

No lugar dos antigos cintos que envolviam suas pernas, Roberta criou uma peça única: uma elegante proteção metálica para o quadril. As placas de aço escovado, moldadas em curvas suaves, lembravam pétalas sobrepostas. Pequenos detalhes dourados percorriam suas bordas, transformando uma armadura funcional em uma verdadeira obra de arte. Dela pendia apenas uma faixa curta de tecido escuro, suficiente para equilibrar o conjunto sem esconder sua silhueta.

As coxas permaneciam livres, cobertas apenas por meias negras de tecido resistente que desapareciam dentro de botas altas de couro, trabalhadas com discretos relevos dourados. Eram botas feitas para longas caminhadas, mas refinadas o bastante para um jantar à luz de velas.

As luvas, sem dedos, eram confeccionadas em couro macio e terminavam pouco antes dos cotovelos, mantendo o visual aventureiro que jamais abandonaria.

O único adorno era um pingente de cristal violeta preso por uma delicada corrente prateada, repousando logo abaixo da clavícula. Seus brincos eram pequenos e discretos, permitindo que o brilho dos longos cabelos dourados fosse o verdadeiro destaque.

Não havia excesso.

Nenhuma corrente balançando, nenhuma fivela chamando atenção. Apenas linhas elegantes, tecidos nobres e detalhes cuidadosamente escolhidos.

Ela parecia exatamente aquilo que era.

Uma guerreira.

Mas, naquela noite, uma guerreira que aprendera que a elegância também podia ser uma forma de força.

Os dois roubaram olhares um do outro quando caminharam praça adentro até um restaurante que estava um pouco cheio. O garçom, um orc simpático e de ótima aparência, os levou até uma mesa do lado de fora. A noite estava espetacular para ser admirada. Os dois se sentaram e começaram a escolher os pratos, olhando o cardápio do local..

🍊🍊🍊

Marcos tocava seu alaúde entre as mesas, agitando o pessoal. Ele cantava uma música da barda Marília, uma barda que estava fazendo o maior sucesso em Solaris nos últimos tempos e que já estava planejando uma turnê entre os reinos, terminando em Auravéria, na Praça dos Reis. Aquele era o assunto da feira de Luarado nos últimos dias. As pessoas em volta davam dinheiro para o gnomo que vinha logo atrás, com o chapeuzinho, recolhendo tudo. Aquela figura era conhecida na Estrela Dourada; todos o chamavam de Tristeza, pois ele era justamente o oposto disso.

- Opa, que hoje a noite tá para a grana, chefe. - dizia Tristeza, indo atrás de Marcos, pulando e dançando com o chapéu cheio de moedas.

- Vai juntando tudo, amiguinho. - Marcos pulou e girou, parando sobre o encosto de uma cadeira, em seguida pisando em uma mesa e pulando para o chão. - Depois dividiremos tudo com aquela porcentagem de setenta para trinta.

Os dois riram enquanto avançavam pelo salão.

Lemos pulou sobre a cabeça de Tristeza e deslizou até uma mesa, deixando duas canecas de cerveja e um pernil assado. Em seguida, o elfo desviou de dois brutamontes que estavam gritando um com o outro e praticamente voou até uma mesa a metros de distância, deixando para o casal uma porção de batatas fritas do chef.

Em seguida, ele fechou a conta de duas mesas e, como um vento verde, deixou o troco para os clientes. Quando eles conseguiram perceber, o elfo já havia sumido cozinha adentro, do outro lado do salão.

Rafai, no caixa, contava algumas moedas e retornava o troco para um aventureiro, que depositava as moedas na caixinha dos funcionários.

- Opa, muito obrigado, moço. Que a bênção da Bergamota Dourada te leve em segurança. - Rafai sacudiu a caixinha de leve. Estava cheia; havia sido um ótimo dia de movimento.

Em seguida, a fila andou, e ele começou a atender um novo cliente.

- Como foi o jantar, senhor? - perguntou ele, somando a comanda. - Espero que tenhamos conseguido lhe atender bem.

- Foi tudo ótimo, inclusive o bardo. - o homem riu.

- Ah, sim, a nossa estrela da casa.

Rafai fechou a comanda e recebeu o pagamento. Marcos parou próximo ao amigo, bebendo um gole da sua cerveja, que estava sendo guardada por Rafai.

- Que noite. - disse ele, ofegante. - Meus pés vão me matar amanhã.

Rafai riu e disse ao amigo que ele deveria pegar leve, embora soubesse que isso seria impossível, uma vez que ele já havia começado a cantar e tocar.

Quando Lemos retornou para o salão, ele parecia um raio verde. Movimentou-se de forma ágil entre as mesas e serviu os clientes em tempo recorde. Os clientes lhe davam gorjetas e elogios pelo atendimento em velocidade altíssima. Nada chegava frio às mesas, nenhuma cerveja foi servida quente durante o turno do elfo de Sylvaris. As pessoas já estavam chamando-o de Lemos dos Pés Rápidos, e ele se divertia muito com aquilo, pois, na sua cabeça, tudo não passava de um tipo de jogo.

Quando estava concluindo o atendimento da última mesa próxima da porta, levou os olhos para o fundo do salão, onde uma pessoa estava sentada. Sua capa era de couro grosso e seu capuz caía sobre o rosto. À sua frente estava apenas uma xícara de chá. Lemos aproximou-se dele devagar. Pela primeira vez naquela noite, havia decidido andar com calma. Quando parou perto da mesa, sacou seu melhor sorriso.

- Boa noite, deseja comer algo? Se quiser, posso lhe fazer ótimas indicações.

O homem se manteve em silêncio, como se analisasse o elfo garçom à sua frente. Passados alguns segundos, respondeu em élfico perfeito.

- I thond naid cened dîn i eneth i têlui aran. (As raízes ainda sussurram o nome do último príncipe).

O coração de Lemos pareceu parar por um instante ao ouvir aquela frase, já que ela não deveria ser de conhecimento de nenhum aventureiro ou viajante, pois tais palavras eram de um juramento antigo da família real de Sylvaris, sua família.

Ainda imóvel, Lemos só conseguiu abrir a boca.

- Senhor...?

- Pensei que você se lembraria. - ele esboçou um pequeno sorriso por debaixo do capuz.

Da bandeja que Lemos trazia consigo, uma caneca caiu, mas ninguém deu bola, pois a taverna estava mergulhada em vozes, risos e cantoria. Lemos estava paralisado. Só conseguia assistir ao homem levantar a xícara e levá-la aos lábios. Após beber um gole, ele levantou a cabeça com um movimento lento, como se quisesse fazer suspense, e, por fim, retirou o capuz.

Longos cabelos brancos, brilhando como prata sob a luz da lua, caíram sobre seus ombros. A pele pálida contrastava com os fios claros como a lua. Os olhos dourados pareciam antigos demais para pertencerem a alguém vivo. A marca de lua crescente em sua testa completava a imagem.

O príncipe de Sylvaris deu um passo para trás.

- Kael Vaerion... O Lírio Branco.

Um discreto sorriso surgiu nos lábios de Kael.

- Já fazem alguns séculos que alguém pronunciou meu nome dessa maneira.

Os dois trocaram algumas palavras em élfico quando uma garçonete passou. Quem estava ao redor não conseguia compreender o que eles falavam, mas a tensão foi notada por quem estava em volta, até mesmo por Marcos e Rafai, no caixa.

- Quem é aquele com o Lemos? - perguntou Rafai.

- Não sei, mas tô sentindo algo estranho vindo dele. É quase como se fosse... medo?

A metros dos amigos, o príncipe de Sylvaris viu Kael levar a xícara novamente aos lábios e beber um gole do chá, fazendo uma leve expressão positiva pelo sabor. Lemos não conseguia sequer mover um dedo na presença daquele homem, quanto mais captar expressões tão mínimas assim. Era como se toda a sua habilidade tivesse desaparecido. Talvez ele tenha esquecido, mesmo que por um instante, como se anda.

- Não olhe para trás. - disse Kael em tom baixo e, dessa vez, na língua comum.

Lemos hesitou, e Kael percebeu.

- Então, se faz questão, veja por si próprio. - disse o elfo lunar.

Lemos virou o suficiente para olhar pela janela, e então seu sangue gelou, pois, no telhado da padaria logo em frente, um elfo lunar observava a taverna. No alto da torre do sino, outro observava. Lá fora, entre as pessoas na rua, mais um estava imóvel, como se não estivesse lá. Outros dois estavam no muro que dava para o jardim da taverna. Todos de cabelos brancos como a lua, pele morena, armaduras ou roupas negras adornadas por detalhes prateados, capas brancas e, gravado sobre o peito, o símbolo do Lírio Branco. Todos estavam completamente imóveis.

- Enquanto conversamos... há homens meus observando cada um de seus amigos. - sua voz era calma, e não havia nela nenhum grau de ameaça, por menor que fosse. - O bruxo e a guerreira que estão tendo um jantar romântico, a curandeira dona da taverna e seu filho, o bardo que não sabe se calar e o brutamontes no caixa da taverna.

- O que você quer aqui, Kael?

- Vim atrás da sua cooperação. - um breve silêncio. - Pois, se eu fizer o mínimo movimento, nenhum dos seus preciosos amigos verá o amanhecer.

O salão continuava cheio. Pessoas riam, comiam e conversavam, sem saber o perigo que estavam correndo naquele momento.

🍊🍊🍊

A praça da Fonte dos Apaixonados ardia em chamas violetas em alguns pontos. Em outros, marcas de batalha eram visíveis através dos cortes no chão e nas paredes. Tudo ao redor estava virado do avesso, como se um furacão desgovernado houvesse passado por ali. Pessoas se abrigavam dentro dos restaurantes, com os olhos fixos lá fora, onde um bruxo estava sentado no Chafariz dos Apaixonados, pisando sobre o rosto de um elfo lunar, enquanto sua esposa empalava outro em uma coluna de pedra. Ao redor deles, cerca de sete inimigos haviam sido derrotados, mas haviam deixado sua marca. As roupas de Edu e Wellen haviam sofrido pequenas avarias, nada que estragasse tudo, mas demonstravam que, como casal, eram imbatíveis.

- Eu tirarei meu pé do seu rosto, mas quero saber quem vocês são. Caso não tenha notado, essa é a maneira fácil, pois a difícil você não vai querer saber como é. - Edu lançou um olhar de desprezo, de cima para baixo, direto nos olhos do elfo.

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