A guerra das Bergamotas - O elo eterno dos Sindarin.

Edu Kawasashi17/08/2026
A guerra das Bergamotas - O elo eterno dos Sindarin.

Capítulo 08: Drakenhart.

Quando Edu e Isaac passaram pela porta da taverna, a música e o cheiro de comida os encontraram antes mesmo de qualquer rosto conhecido. Os dois mal haviam dado dois passos para dentro quando as pessoas já começavam a chamar o menino e brincar com ele. Sem dúvidas, Edu percebeu que Isaac era muito popular por ali.

Quando seguiram para a cozinha da taverna, encontraram Marcos e Lemos completamente derrotados em um canto, enquanto o chef ainda gritava com eles como se fossem crianças que haviam levado umas boas palmadas.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou Edu, vendo os dois com aquelas caras de derrota.

— Ele é maluco, Edu — disse Marcos, com a voz trêmula.

— Quem? — perguntou Edu, levantando uma sobrancelha.

Lemos e Marcos apontaram para o canto da cozinha. O chef estava lá, com os olhos fixos em Edu. O bruxo apenas lançou um olhar dos pés à cabeça, analisando o chef.

Ignorou-o.

— TIO MARCOS!

Isaac correu até o tiefling, que só conseguiu abrir os braços e receber o menino a tempo de ele se lançar sobre o bardo.

— Sai da minha cozinha! — disse o chef para o bruxo, que continuava a ignorá-lo. — Anda logo!

— Olha, meu senhor... — Edu suspirou fundo. — Eu estou sendo razoável.

— Se esses dois começarem a se enfrentar nessa cozinha, o Edu vai ter o traseiro chutado daqui até Flavedo — disse Lemos, levantando-se rapidamente. — Chega, chega!

Lemos saiu correndo da cozinha, empurrando Edu, seguido por Marcos, que carregava Isaac no colo.

🍊🍊🍊

Lemos só parou quando já estavam longe da cozinha. Ainda assim, olhou para trás com certo cuidado e pavor nos olhos. Respirava rapidamente, enquanto Marcos apertava Isaac contra o peito, como se buscasse no menino alguma proteção ou uma rota de fuga daquele lugar pavoroso que havia se tornado a cozinha.

Edu não fazia ideia, naquele momento, do que os dois haviam passado nas mãos daquele chef maluco.

— Eu vou querer saber o que aconteceu lá, mas não agora. Acho que vocês não poderiam me dizer, nem que eu quisesse saber.

Edu olhou para as expressões nos rostos dos amigos e quase riu.

— Bom, agora o Isaac está com vocês. Avisem a Roberta, por favor. Eu preciso descansar um pouco mais e ver se o Rafai está bem.

Isaac e Marcos trocaram um olhar. De repente, o tiefling já estava jogando o menino para cima e pegando-o novamente nos braços.

— Você está enorme! O que anda comendo? Fermento?

Isaac ria, tentando responder entre as gargalhadas.

— Eu estava com saudades das suas músicas. Canta para nós, tio!

O menino levantou os braços, chamando a atenção das pessoas ao redor.

Marcos olhou para os lados, sentindo o rosto formigar. Se fosse possível ver, os presentes diriam que ele estava corado.

O Edu tem resposta para qualquer confusão,
Explica mais de dez minutos para fazer um pão!
Carrega um grimório e um café na mão,
Mas se perde nos próprios planos...
Que grande campeão!

A batida que acompanhava a música improvisada de Marcos era até atraente, mas ele sentia muita falta de seu alaúde de confiança. Aquele instrumento havia acompanhado o bardo por inúmeras aventuras. Juntos, já haviam viajado por todo canto e, inclusive, o instrumento carregava um autógrafo do grande bardo Zeca, sua fonte de inspiração para muitas das grandes músicas que compunha.

As pessoas ao redor aplaudiram e riram. Lemos, ao seu lado, também ria, cobrindo o rosto com uma das mãos enquanto imaginava o que Edu faria se escutasse aquela música boba.

Ele havia sido informado de que Edu estava fazendo o bardo comer o pão que o diabo amassou até que se sentisse compensado por ter ido para a cadeia em Ramo. Os amigos sabiam que Edu possuía um coração bom, mas também uma memória irritantemente boa. E ele não aceitava meias medidas para nada.

— Eu adorei! — disse Isaac, abraçando o tiefling, que retribuiu o carinho do menino.

— Só não conta para ele, pelo amor de Deus. Minha vida já está difícil o suficiente esses dias.

O bardo levantou o menino nos braços.

— Vamos lá, vou te entregar para a sua mãe. Ela estava ansiosa.

Roberta estava em seu escritório, nos fundos da taverna. Marcos e Lemos foram até lá e bateram à porta devagar, até receberem autorização para entrar.

O escritório era amplo sem ser extravagante, transmitindo a sensação de um lugar feito para trabalho e estudo, não para ostentação. As paredes de pedra eram cobertas por estantes de carvalho, repletas de livros de couro, pergaminhos cuidadosamente enrolados e pequenos compartimentos com frascos de tinta, penas de escrita e lacres de cera.

Próximo à janela, uma mesa robusta de madeira escura ocupava o centro do ambiente, marcada por discretos riscos deixados por anos de uso, mas sempre impecavelmente organizada.

A luz da lua atravessava uma alta janela arqueada, iluminando parte do cômodo. Cortinas de linho em tom bege suavizavam a claridade, enquanto uma pequena lareira de pedra mantinha o ambiente aquecido nos dias mais frios, espalhando o agradável aroma de lenha e ervas secas penduradas para perfumar o ambiente.

Sobre a mesa repousavam um mapa do reino, preso por um peso de bronze em forma de leão; um castiçal de ferro forjado, com velas parcialmente consumidas; um tinteiro; um selo de cera com o brasão da taverna; e um pequeno vaso de cerâmica contendo flores do campo recém-colhidas.

Ao lado, havia uma cadeira de encosto alto, estofada em couro marrom gasto pelo tempo, confortável o suficiente para longas horas de leitura.

Em um canto, um armário baixo guardava documentos importantes, enquanto uma prateleira exibia algumas relíquias discretas: uma bússola antiga, uma ampulheta de vidro, uma adaga cerimonial embainhada e uma pequena estátua de coruja, símbolo da sabedoria.

Um tapete de lã em tons terrosos cobria parte do piso de madeira, abafando os sons dos passos e tornando o ambiente ainda mais acolhedor.

Era um escritório simples para os padrões da nobreza, mas bonito em sua funcionalidade. Cada objeto parecia ter uma história, e o lugar transmitia a impressão de que ali trabalhava alguém dedicado, inteligente e paciente; alguém que passava mais tempo resolvendo problemas com livros-caixa do que vivendo aventuras.

— Mamãe!

Isaac pulou do colo de Marcos e correu até a mãe, que estava abaixada, guardando alguns documentos no armário.

— Meu bebê!

Roberta abraçou forte seu maior tesouro, beijando e acariciando sua cabeça com todo o amor que uma mãe zelosa poderia oferecer ao filho.

— Que bom que chegou bem. Como foi em Arkhavel?

Isaac desviou o olhar por um instante.

Para uma mãe, aquilo foi o suficiente.

Lemos foi a única outra pessoa que percebeu que o menino estava escondendo alguma coisa. O ar pareceu pesar e, antes que Roberta conseguisse dizer qualquer coisa, quem falou foi o elfo.

— Deixaremos vocês sozinhos agora. Esperaremos pela sua companhia mais tarde.

Ele sorriu e saiu, puxando Marcos pelo braço.

— Obrigada, amigos — disse Roberta, sorrindo enquanto se levantava com o menino nos braços.

🍊🍊🍊

Edu estava sentado ao lado da cama de Rafai, com as pernas e os braços cruzados. O bruxo e o paladino estavam tendo uma conversa em um tom que Marcos jamais entenderia. Algo os preocupava. Eles haviam sentido a mesma coisa ainda há pouco: uma “presença”. Essa foi a palavra que concordaram em utilizar para descrever aquilo. Algo diferente de tudo, um poder tão grande que poderia ser suficiente para destruir Luarado e reduzir a cidade a cinzas por completo.

— Um dragão pode emanar uma aura tão aterradora assim? — perguntou Edu, olhando para o amigo sentado na cama.

— Mas é claro que pode. Dragões são criaturas muito poderosas e a maioria é antiga. Existem boatos de que alguns até mesmo usam magia, como você e eu. — Rafai coçou a barba. — Se o Drakenhart que monta o dragão está aqui, as pessoas teriam visto ao menos que...

Os dois trocaram olhares na penumbra daquele quarto.

— O dragão pode utilizar magia, exatamente como você acabou de dizer. — Edu soltou o ar devagar pelo nariz. — Se ele está aqui com o dragão camuflado, qual o motivo de expandir uma aura tão poderosa assim?

— Edu, eu não acho que devemos nos preocupar com nada disso. Essa família não é nossa inimiga. O dragão está com seu montador, e é isso que importa.

— Não sei muito sobre dragões — disse Edu, recebendo um olhar inesperado do amigo. — O que foi? Eu devo saber tudo de tudo?

— Não é essa a pose que você sustenta? — Rafai sorriu.

— Idiota.

Edu não riu, mas queria.

— O que sei é que seres como esses não podem ser dominados por uma pessoa. Dragões não servem aos humanos. O que essa fera está fazendo é cooperar com seu montador.

Novamente, os dois trocaram olhares.

— E então, como estão seus ferimentos? — perguntou Edu, pegando do bolso um pequeno frasco com uma poção de coloração incrivelmente suspeita.

— Ah, não, Edu...

🍊🍊🍊

Roberta estava sentada com Isaac no colo. O menino parecia abalado e triste, e, do outro lado, seu coração estava em pedaços.

O menino havia contado à mãe que estava sofrendo perseguições dos colegas em Arkhavel. Eles faziam piadas sem graça sobre ele, sobre sua origem, sobre sua mãe e sobre a taverna. Seu pequeno coração estava sofrendo. Isaac era um bom aluno, mas suas notas começavam a sentir os reflexos de tanta perseguição.

— Não importa o que estejam dizendo, desde que você saiba quem é. — Roberta levantou o rostinho do filho e o beijou na testa. — Você é o melhor menino que eu conheço e um dia será um grande feiticeiro, o próximo prodígio de Arkhavel. Todos os grandes sofreram perseguições: Vectorius, Balthazar, Necro, Morana, Aredhel e Melken. Você conhece esses nomes e já escutou essas histórias. Um dia, ouvirão o seu nome também.

O menino limpou as lágrimas que estavam prestes a cair. Lembrou-se dos livros, da mãe e dos nomes daqueles magos, feiticeiras, bruxas e alquimistas que foram incríveis no passado e ainda eram. A maioria deles havia sofrido uma série de provações e tragédias antes de se tornarem quem foram.

— Eu preciso fazer uma coisa. — O menino abraçou a mãe. — Preciso estudar mais e aprender magia de defesa.

🍊🍊🍊

A noite fluiu sem nenhuma grande confusão. A taverna estava em seu clima habitual de festa. Marcos cantava entre as mesas enquanto os presentes o acompanhavam nos refrões, nas dancinhas e até mesmo nas letras que ele adaptava para ficarem ainda mais engraçadas.

Isaac foi dormir cedo, apesar de ter falado mais de uma vez durante o jantar que gostaria de festejar com o tio. Mas, apesar dos apelos de Marcos, o menino foi mandado para a cama assim que o jantar terminou.

Lemos ficou com Marcos no grande salão para ficar de olho no amigo bardo e impedir que ele começasse alguma nova confusão.

Rafai jantou em seu quarto na companhia de Roberta, que levou pessoalmente sua refeição. Os dois conversaram até altas horas da noite, e o paladino parecia se recuperar a cada minuto que passava — ou talvez fosse apenas por ter companhia para conversar.

Edu também jantou em seu quarto, mas sozinho, conforme seu pedido. Roberta tentou levá-lo até o quarto de Rafai, mas ele apenas indagou que “três era muito”.

Ninguém sabia a que horas o bruxo havia dormido, ou sequer se havia dormido, pois, na manhã seguinte, ele ainda vestia a mesma roupa.

Um acontecimento em especial havia feito a taverna explodir em uma festa na noite anterior, antes do jantar: o jovem Isaac havia desafiado Edu para um duelo de magia atrás da taverna ao nascer do sol.

Não havia dúvidas de que o menino precisaria ser acordado para comparecer ao compromisso que ele mesmo havia marcado.

Edu aceitou o duelo no ato e lançou um sorriso discreto, orgulhoso da atitude do menino. Roberta pediu ao amigo que pegasse leve. Como resposta, ele apenas olhou para ela nos olhos.

Nada fez. Nada disse.

Lemos falou depois que seria uma coisa incrível ver Edu tendo que se segurar para alguma coisa, pois, apesar de não gostar de lutar, o amigo fazia o possível para ser assombroso quando estava no campo de batalha.

O sol nascia na cidade de Luarado enquanto uma brisa fria corria pelas ruas e praças. Atrás da taverna Estrela Dourada, não era diferente.

Edu estava de braços cruzados do outro lado do pátio enquanto os amigos e o desafiante saíam pela porta dos fundos. Isaac olhou para o tio parado ali.

Talvez ele devesse correr?

Talvez.

Mas aquela era a oportunidade de ver algo diferente do âmbito escolar. Ver um bruxo usando seus poderes.

— Bom dia, desafiante — Edu sorriu para ele.

— Bom dia, vythar — disse o menino, já vestido com suas roupas habituais. O uniforme da escola estava guardado para outra ocasião.

Rafai estava sentado em sua cama, no andar superior, olhando a cena pela janela. Seu olhar de curiosidade sobre os duelistas no pátio não poderia ser descrito por ninguém que chegasse naquele momento e o pegasse observando.

O paladino estava lendo os movimentos deles. Ele percebeu quando a primeira fivela que prendia o grimório se soltou sozinha.

Lemos foi até o centro do pátio, entre os duelistas.

— Eu serei o juiz deste duelo entre Edu, o bruxo de Arkhavel, e Isaac, o futuro da magia.

Quando o elfo falou o título que, até aquele momento, Isaac nem fazia ideia de que possuía, o menino sorriu de forma sincera e livre.

— O título foi uma ideia nossa em conjunto ontem — disse Marcos, entre bocejos.

— Todo duelista deve ter um título — disse Edu. — Acredito que o meu foi o mais apropriado para Isaac escutar.

Marcos e Roberta riam perto da porta.

— Duelistas, o primeiro que receber três toques ou três golpes do outro será declarado derrotado. — Lemos olhava para um e depois para o outro. — Magias de quarto círculo estão permitidas. Invocações são permitidas. Voar está permitido. Os limites do duelo são os deste pátio.

O elfo se afastou com um pulo elegante para trás, parando sobre um barril sem tampa.

— Comecem!

Isaac, que estava prestando atenção no salto do elfo, não viu quando uma rajada mágica o acertou em cheio, arrastando-o para trás e fazendo com que batesse contra a parede da taverna.

Os amigos presentes ficaram assustados com a velocidade da conjuração daquele feitiço. Em um momento, o grimório estava preso e, no outro, passeava ao redor de Edu, flutuando sob o efeito de uma magia violeta.

Vythar, o duelo não tinha começado direito!

— O juiz disse para começar. Um feiticeiro sempre tem um feitiço pronto.

Edu andou na direção do menino.

Isaac não perdeu tempo e atacou com um míssil mágico, acertando em cheio seu tio e jogando-o para trás.

Quando o menino abriu um sorriso, percebeu que ninguém havia reagido ao seu golpe.

O que estava na sua frente era uma ilusão de luz e sombras de seu tio.

O verdadeiro bruxo de Arkhavel estava no mesmo lugar de antes. Não havia se movido um centímetro.

— Não pode ser!

O menino avançou, projetando uma das mãos para a frente e disparando uma bola de fogo diretamente contra o tio.

O fogo se dissipou antes de chegar ao bruxo.

Ele continuava parado.

— Para com isso! Luta comigo!

Outra bola de fogo voou de suas mãos. Dessa vez, ele havia lançado com as duas. O feitiço era maior que o anterior, mas bastou uma das mãos do bruxo para segurar a magia e jogá-la contra o chão, queimando o solo.

— Está gastando sua energia conjurando com as duas mãos.

Edu levantou uma das mãos, e duas correntes violetas voaram na direção de Isaac.

O menino rolou pelo chão e correu, sendo perseguido pelas correntes. Subiu em uma pilha de lenha e saltou, criando um escudo entre ele e o ataque do tio, mas isso só serviu para que fosse atingido e jogado em uma pilha de folhas no jardim.

— Fique tranquilo, isso não contou como ponto. Você estava usando um escudo mágico — disse Edu.

Isaac usou um impulso de vento e jogou as folhas na direção do bruxo. Elas caíram como chuva diante dele, e foi então que o futuro da magia avançou e tocou a manga do sobretudo do tio com a palma flamejante.

— Empate. Cada um tem um ponto — disse Lemos.

— Ele deixou? — perguntou Roberta.

— Sim, mas serviu para motivar o Isaac — respondeu Marcos, sério.

O bruxo tomou distância, e o menino avançou novamente com a palma flamejante.

Edu respondeu com uma explosão localizada, fazendo o menino rolar pelo chão até o outro lado do pátio.

Isaac abriu os olhos e se levantou o mais rápido que conseguiu, apenas para receber um feitiço de paralisia e perder o duelo.

— Três toques. O vencedor é o bruxo de Arkhavel — declarou Lemos.

Edu desfez o feitiço e estendeu a mão para o menino, em sinal de encerramento do duelo, mas recebeu um tapa nela como resposta.

Ninguém entendeu inicialmente, mas os olhos sinceros de Isaac encontraram as lentes dos óculos de Edu.

O menino estava zangado e triste.

— Você deixou eu encostar na sua manga! Você roubou! — gritou ele. — Não foi justo!

Edu apenas olhou para ele e endireitou a postura.

— Eu fiz isso porque achei que você se dedicaria mais depois disso, mas vejo que, na verdade, acabei ofendendo você com esse ponto.

Isaac olhava para o tio, furioso.

— Vamos lutar de novo, tio. Não precisa ter pena de mim. Não quero aquela sensação dos olhares de Arkhavel aqui!

— Lemos, por favor — disse Edu, indo para o canto oposto do pátio.

— Duelistas, em suas marcas. As regras ainda são as mesmas — disse o elfo, de onde estava.

— Eu vou te mostrar o poder de um bruxo, meu menino.

Edu pegou seu grimório.

— Podem começar! — disse Lemos.

Isaac se concentrou e não sentiu mais nada.

Não havia vento.

Não havia cheiro.

Não havia nada.

O mundo ao seu redor estava completamente parado.

Ele via Edu vindo em sua direção, caminhando devagar enquanto guardava o grimório. Seu sobretudo dançava ao sabor do vento que Isaac já não conseguia escutar.

Quando o bruxo passou por ele, tocou uma vez em sua testa, outra em sua cabeça e mais uma em suas costas, encerrando o duelo.

O menino sentiu seu corpo retornar aos poucos. Olhou para o tio, fascinado pelo feitiço de paralisia que ele havia lançado sem sequer precisar falar.

Isaac era uma criança, mas também era muito inteligente e sabia que jamais venceria Edu. Pelo menos, esperava ter a oportunidade de se defender.

— Fantástico, tio! — Os olhos do menino brilhavam. — Que feitiço poderoso!

Ele virou-se para onde sua mãe e os outros estavam. Viu Edu parar alguns passos antes de chegar até eles.

O bruxo não se virou para trás para responder, pois a resposta veio de Lemos, que estava sentado sobre o barril.

— Ele não usou feitiço nenhum, menino... Ele apenas projetou em você a intenção assassina dele de vencer esse duelo a qualquer custo.

O elfo sorriu para o menino.

— Você acabou de sentir alguém desejando acabar com você pela primeira vez, mesmo que de mentirinha.

— Venha, aprendiz. Vamos tomar café da manhã — disse Edu, passando por Roberta e Marcos e entrando novamente na taverna.

Roberta olhou para Marcos, que ria baixinho.

— É... Tem umas coisas sobre o Edu que nós temos que conversar, Beta.

🍊🍊🍊

Lemos estava em pé sobre o telhado da Estrela Dourada. O vento vinha de encontro ao seu corpo, fazendo seu cabelo ser jogado em várias direções, enquanto suas roupas simples farfalhavam com o contato da brisa. Ele se sentia livre naquele lugar. Dali, conseguia ver boa parte da cidade ao seu redor, até quase alcançar as muralhas brancas da Lua Cheia.

Seus olhos apurados observavam as pessoas indo de um lado para o outro, cumprindo seus deveres e passeando, enquanto os guardas Drakenhart patrulhavam as ruas. Ele estava ali havia cerca de quarenta minutos e já tinha visto pelo menos duas dúzias de duplas passarem pela taverna. Sua intuição dizia que aquilo era, no mínimo, estranho, pois não via aquele tipo de “cuidado” nas ruas ao redor.

O céu acima dele estava azul e limpo por quilômetros, apenas um grande tapete azul cobrindo todas as quatro regiões. O elfo nunca havia dito nada sobre isso aos seus amigos, mas amava olhar o céu durante o dia. Mesmo com nuvens, adorava a ideia de uma vastidão além de sua compreensão.

Lemos era, sim, o príncipe de Sylvaris, mas jamais havia conhecido nada além do continente de Bergânia. Sabia que o mundo era vasto e que, uma hora, os amigos sairiam daquele continente, e ele estaria com eles. Mas ver novamente outro continente ao lado deles seria como enxergar o mundo pela primeira vez.

Sem pensar muito, ele pulou para trás em um salto mortal e caiu sobre uma telha tão macio quanto uma pluma. Em seguida, deixou o corpo deslizar até chegar à janela do quarto de Rafai, quase matando o amigo de susto.

O paladino abriu a janela, e o elfo saltou para dentro como um gato.

— Por Bergamora, Lemos! Use a porta.

Rafai jogou um travesseiro no amigo.

— Eu não poderia deixar de admirar a vista do telhado desse lugar. — Ele riu, segurando o travesseiro do amigo. — E devo dizer uma coisa: há neste local uma forte presença militar dos lordes da cidade.

— Mas é claro. Estamos quase na fronteira com Solaris. É normal que cidades como Luarado sejam mais vigiadas pelos lordes que as protegem.

— Não digo isso. Mas, nessa rua, estive lá no telhado esquadrinhando as ruas próximas e vi que os guardas passam muito mais por aqui do que por qualquer outra rua. — O elfo coçou o queixo. — Será que estamos sendo vigiados por alguém de Ramo que possa ter entrado em contato com os lordes locais?

Rafai pensou por um minuto e suspirou.

— A juíza era uma cretina, mas ainda assim justa. Ela perdeu, então Edu libertou todos que estavam sob sua responsabilidade naquela arena... Deve haver outra coisa, mas não pensemos nisso agora.

— Acho que tem razão.

O elfo sentou-se ao lado da cama do amigo.

— Eu espero que tenha razão.

🍊🍊🍊

Marcos saiu da taverna decidido a comprar um novo alaúde, um tão legal e bonito quanto o anterior. Estava inclinado a retornar apenas quando já tivesse o instrumento em mãos. Já podia imaginar as cordas, a madeira, o cheiro de instrumento novo, pronto para ser dedilhado e soltar uma de suas famosas baladas para encantar a todos na taverna, até mesmo aquele chef demoníaco que já havia tentado acabar com ele logo no café da manhã.

Tieflings normalmente não eram uma visão muito comum à luz do dia, pois a maioria preferia trabalhar longe dos olhares preconceituosos e estranhos das outras pessoas. Eram uma comunidade pequena em comparação às outras, mas não aquele tiefling.

Marcos jamais se incomodava com os olhares. Pelo contrário, ele os amava! Sentia-se mais vivo, mais brilhante, mais famoso quando as pessoas olhavam para ele. Os amigos achavam engraçado que, quando captava um olhar torto ou de medo, fazia questão de dar o maior e mais lindo sorriso que conseguisse. Às vezes, fazia uma mesura; outras, apenas acenava e dizia:

Recomendações à família.

Aquilo fazia Lemos sorrir. Rafai se sentia bem vendo o amigo tirar o melhor daquilo, e Edu tinha muito orgulho dele por superar o preconceito daquela forma.

Nenhum dos três deixaria algo assim passar se Marcos se sentisse ofendido, mas quem poderia correr de flechas certeiras, enfrentar um paladino que mais parecia uma montanha ou sobreviver a um feitiço que poderia transformá-lo em sapo ou lesma?

Talvez Marcos soubesse disso e, por isso, também preferisse tratar tudo de forma leve e tranquila.

Luarado era o tipo de cidadezinha de que ele gostava, mas a presença de tantos guardas o deixava um tanto inquieto. Não era incomum que tieflings fossem parados e revistados, mas algo ali estava realmente estranho.

Nenhum guarda dava atenção a ele. Nem mesmo um único olhar.

Sua cauda balançava para lá e para cá enquanto caminhava, mas Marcos não sentia nenhuma intenção estranha. A cauda de um tiefling era quase como um sistema integrado de perigo e outras emoções fortes, mas não havia nada ali.

Como Roberta havia dito, assim foi. Ele desceu a rua da taverna até a praça, contornou-a e entrou na primeira rua à sua direita.

E ali estavam elas.

Inúmeras lojas com símbolos musicais espalhados por quase todos os lados.

Os olhos de Marcos brilharam, e o tiefling logo entrou na rua.

— Pela minha santa Vinária... Eu morri e estou no céu dos tieflings!

Ele ficou grudado em uma vitrine, olhando os instrumentos.

— E tiefling tem céu? — perguntou um rapaz jovem, varrendo a frente da loja.

Marcos pensou um pouco.

— Algo deve acontecer quando nós morremos, mas não vim aqui filosofar com um moleque. Anda, me diga se há nesta loja um alaúde à altura de um grande bardo.

— Tem sim, mas estamos esperando esse bardo chegar.

O que se seguiu foi o menino entrando na loja correndo e aos berros, com Marcos atrás dele, vassoura em mãos. O dono da loja, um anão de barba colorida, sobressaltou-se atrás do balcão com a cena inusitada, mas, em vez de repreendê-los, começou a rir.

— Isso sim, confusão logo antes do almoço.

— Seu funcionário tem um senso de humor similar ao de um amigo meu. De um amigo, eu até tolero, mas de um estranho fedendo a leite materno?

Os dois corriam em volta de uma estante.

— Frederico, se desculpe com nosso amigo, agora! — disse o anão.

O jovem rapaz parou no meio da loja, ainda temendo levar uma vassourada.

— Que seja! — disse ele, com a rebeldia de um adolescente. — Me desculpe, mestre bardo.

E a vassourada veio, mais leve e mais fraca do que ele merecia, mas ainda certeira no traseiro do menino.

— Vai lá varrer!

O bardo jogou a vassoura para ele.

O anão passou a mão pela barba e colocou um enorme livro de capa de couro sobre a bancada enquanto o bardo se aproximava. Empurrou-o devagar na direção de Marcos, já esperando ouvir o que ele havia vindo procurar.

— Mestre anão, preciso de um novo alaúde. — Ele coçou a cabeça. — Me sinto pelado sem um instrumento.

— Eu posso imaginar. Fique à vontade. Neste livro estão todas as mercadorias da loja, desde acessórios até instrumentos. Mas fique livre para ver com seus próprios olhos. Encontrará o número das estantes em cada item.

Marcos só conseguia pensar que aquele era talvez um dos lojistas mais organizados que já havia visto em muito tempo.

Sem demora, o tiefling começou a consultar o livro. Olhava os itens e ia até as prateleiras verificar por conta própria. O que desejava comprar, já separava no balcão, enquanto o anão trabalhava em algo em uma bancada próxima.

🍊🍊🍊

Edu estava em frente à taverna, encostado na parede, de braços cruzados, enquanto o jovem Isaac varria a calçada.

Eles conversavam sobre a época em que Edu estudou em Arkhavel e comparavam com o que o rapaz estava vivendo nos dias atuais. Talvez algumas coisas tivessem mudado, mas outras permaneciam iguais.

Edu disse que enviaria uma carta para casa, pedindo que separassem seus antigos materiais para que Isaac os estudasse. Mas o menino teria que decifrar algumas partes escritas em sindarin sozinho.

A graça de estudar estava justamente aí.

— Como você sabe tão bem sindarin? — perguntou o menino, varrendo a calçada.

— Eu converso muito com o Lemos, e ele me ensina. Mas, na escola, eu sabia o suficiente para seguir em frente. O básico abre caminho para a curiosidade. Eu tinha ajuda também naquela época.

Isaac parou de varrer por um instante e olhou para a vassoura. Depois, para Edu.

— E no que isso acrescentará ao meu treinamento, tio?

O menino não conseguia entender. Cerca de dez minutos atrás, Edu havia lhe entregado a vassoura e dito que eles iriam treinar. Isaac achou que aprenderia a enfeitiçar a vassoura para que ela servisse de montaria, mas o tio o havia feito varrer o salão menor e, agora, a calçada.

— Disciplina.

Foi tudo o que ele disse.

— E o chão estava sujo também. Você deve ajudar sua mãe sempre que precisar, sem que ela precise pedir. Um bruxo deve antecipar o feitiço do inimigo, então comece antecipando um pedido.

— Eu acho que essa é a maior charlatanice que eu já escutei — disse ele, encarando o tio com os olhos semicerrados.

— Você só tem seis anos. Talvez esteja certo.

Enquanto os dois estavam por ali, Edu viu várias duplas de guardas dos Drakenhart passarem olhando para eles. Alguns até cumprimentaram os dois com acenos de cabeça. De Isaac, receberam sorrisos; de Edu, desconfiança.

Os dois conversaram sobre os guardas. Edu demonstrou curiosidade sobre tantas patrulhas, e Isaac disse que aquilo era normal. A cidade era bem protegida, pois os lordes Drakenhart residiam ali e estavam perto de Solaris.

— Eu sou de Solaris — disse Edu.

— Sério?

O menino ficou surpreso. Jamais suspeitaria. As pessoas de Solaris eram tão acolhedoras e brilhantes, com seus sorrisos e seus olhares caridosos. O tio mais parecia ter saído de uma caverna escura.

— Em caso de confronto, você lutaria por quem?

— Solaris — disse Edu, sem pensar duas vezes.

— E se eu estivesse lutando por Auravéria? — perguntou o menino, curioso, enquanto voltava a varrer.

— Nós teríamos o maior duelo que Bergânia já viu, e você voltaria para sua mãe com o traseiro doendo depois que eu te chutasse para casa.

Os dois se olharam.

Alguns segundos se passaram.

Então, riram.

🍊🍊🍊

Roberta estava na cozinha, organizando tudo com a ajuda do chef Ériko. Os dois trabalhavam como se fossem um só: de um lado, a organização cirúrgica da clériga; do outro, o senso crítico apurado do chef.

Ela era a única pessoa naquele lugar com quem ele não gritava. Era um respeito mútuo muito bonito de se ver. Eles repassaram cardápios, remanejaram algumas demandas da cozinha e criaram pratos e especialidades para atrair mais clientes, como se fossem conhecidos havia séculos.

— Seus amigos são mui incompetentes — disse Ériko. — Eu non contrataria eles nem para levar um prato de comida no mesa.

— Pega leve. Eles são meus melhores amigos. O Marcos e o Edu, pelo menos. Os outros estou conhecendo ainda, mas digo que, se meus amigos gostam deles, eu também sei que vou gostar.

Ériko lançou um olhar para ela e suspirou.

— Seu corason é mui grande, mas tem que se concentrar no que é seu trabaio e seu filho — disse o chef, sem rodeios.

— Eu sei, Ériko, mas às vezes parece que sustentar tudo isso é tão difícil quanto estar de volta na Ordem. — Ela suspirou. — Mas eu tenho uma equipe maravilhosa aqui e sou muito grata por tudo, principalmente pelos que desistiram de uma cozinha no castelo para vir para a minha humilde e pequena cozinha de taverna.

Um sorriu para o outro.

— Por você, tudo, minha menina.

A voz dele era carregada de sinceridade. Ériko era um chef famoso, mas só ia onde seu coração o enviasse e só cozinhava onde sentisse que deveria cozinhar.

— E pelo jovem mestre, quem um dia será um grã-arquimago.

— Que Fragália te escute, amigo. Isaac tem um caminho longo pela frente, mas, desde que os meninos chegaram... Pode parecer pouco tempo, mas eu notei uma diferença nele.

A porta da cozinha se abriu, e os dois olharam na mesma direção ao mesmo tempo.

Rafai estava parado ali, encostado na parede, sorrindo para eles. Estava em pé com dificuldades, mas já começava a apresentar melhora em seu quadro.

— Caramba.

Roberta correu para ampará-lo por reflexo. Passou a mão direita pelas costas do paladino e, com a esquerda, tocou em seu corpo, vestido apenas com uma camisa de linho branca.

— Ficou doido?

Eles caminharam até uma cadeira, e o paladino sentou-se, rindo baixinho.

— Eu estou me recuperando graças à comida, ao tratamento e... O Edu me deu uma poção estranha. Ele não disse o que era nem do que era feita. Apenas disse que eu melhoraria, mas colocou um “talvez” na frase original.

Roberta riu, e Ériko torceu a boca. Ele e Edu não haviam começado bem, e duvidava que terminariam melhor do que começaram.

— Minha comida cura, pois é feita com amour — disse o chef.

— Perfeito, meu senhor. Eu pude sentir a sua dedicação — elogiou o paladino.

— Ériko, já que sua comida fez esse rapaz se levantar da cama, entupa ele com o seu melhor! — Roberta sorriu, cruzando os braços. — Manda ver!

— C'est vous la patronne, Madame. (A senhora que manda, madame.)

Os olhos do chef brilharam como chamas de dragão. Rafai ficou um pouco intimidado e se sentiu muito pequeno na presença daquele ser gorducho e cheio de determinação.

— Atención, seus ratos de cozina! Nossa madame está solicitando nosso melhor!

Naquele momento, na cozinha, havia mais duas cozinheiras, uma ajudante e o confeiteiro, e todos responderam de uma única vez:

— Sim, chef!

🍊🍊🍊

Pouco depois do meio-dia, a cidade parecia mais ativa do que estivera pela manhã. O portal da Lua Cheia, o principal de Luarado, estava sendo guardado por cerca de vinte soldados, alguns no chão e outros nas ameias.

Nenhum deles, porém, deu muita atenção para a elfa que passava montada em um cavalo negro de olhos violeta. Os soldados estavam mais preocupados em fiscalizar algumas carroças e falar com comerciantes que os procuravam para declarar cargas de entrada e saída da cidade.

A elfa avançou cidade adentro, vestindo seu manto estelar, um tecido leve, branco e azul profundo, bordado com fios dourados e símbolos arcanos.

Também utilizava uma armadura de couro élfico, leve, flexível e resistente, perfeita para movimentos ágeis e proteção sem perder sua elegância. Suas botas eram de salto alto, feitas de couro azul-escuro com detalhes dourados, confortáveis e resistentes para batalhas, caminhadas e lutas em alta velocidade.

O alazão negro se destacava naquelas ruas de pedra branca. Algumas pessoas paravam para olhar, mas a elfa não devolvia os olhares. Ela estava ali em uma missão importante e não poderia perder tempo.

Quando chegou ao estábulo mais próximo, desmontou rapidamente do cavalo e foi em direção ao cocheiro, estendendo a mão com as rédeas do alazão. O homem, de mais ou menos cinquenta anos, pegou-as sem dizer nada.

— Dê água e comida para ele. Seu nome é Elenwing.

Ela sacou da bolsa transversal uma moeda dourada.

— Trate-o bem e, quando eu retornar, serei caridosa.

— Sim, minha senhora.

O homem sorriu ao pegar a moeda.

— Tratarei como se fosse meu.

Ela não deu muita atenção. De sua bolsa, tirou uma safira estelar e a acoplou ao peitoral de sua armadura.

Instantaneamente, a joia começou a brilhar.

Ela sabia que seu destino estava próximo.

O cocheiro viu quando aquela elfa desapareceu de sua frente como se fosse uma ventania, deixando apenas um rastro fino de mana azul-ciano.

Segundos depois, ela estava pulando de um telhado para outro com uma velocidade sobre-humana e a graciosidade que somente um elfo possuía.

O vento vinha contra ela e só conseguia fazer seu manto voar, mas, contra o corpo ágil de um elfo estelar, era quase como um carinho feito pela natureza.

E assim foi.

Por entre os telhados, em direção ao seu alvo.

🍊🍊🍊

Estavam todos reunidos em uma mesa no salão da taverna após o almoço. Rafai contava como começava a se sentir melhor depois de comer a maravilhosa comida do chef. Marcos tocava seu novo alaúde, sentado em uma poltrona próxima. Lemos estava sentado em frente a Rafai e aproveitava a companhia de todos ali. Roberta segurava Isaac no colo, sentada ao lado de Rafai e condenando-o por ter se levantado da cama tão cedo. Na opinião dela, ele deveria descansar mais.

Edu estava sentado próximo à lareira, observando a cena a poucos metros de distância, enquanto trocava alguns olhares com o chef Ériko, que, por sua vez, servia um vinho muito gostoso aos presentes.

— Alguém tem algum pedido? — perguntou Marcos, terminando de afinar o alaúde.

— Silêncio — disse Ériko, terminando de servir o vinho e arrancando risadas dos amigos.

— Estamos em uma cidade governada por nobres que usam uma figura dracônica em seu brasão. Quem sabe uma música sobre isso? — pediu Rafai, entusiasmado.

— Sabe, meu amigo careca, eu comprei algumas músicas novas. Acho que deve ter algo sobre isso. Me dê um instante.

Marcos pegou sua bolsa e começou a vasculhar os pergaminhos que estavam dentro de um livro amassado, de capa de couro mole.

— Existe alguma música sobre dragões, mamãe? — perguntou Isaac.

— Mas é claro. Existem algumas, sim, e tenho certeza de que o tio Marcos vai nos brindar com uma.

Ela sorriu para o menino.

— Gostei desse alaúde novo — disse Edu, com a taça de vinho na mão esquerda.

Marcos sorriu amarelo.

— Fica longe dele — disse o tiefling.

Edu deu de ombros.

— Seria o mesmo que te dar meu grimório.

Marcos pegou um pergaminho de dentro da bolsa e o levantou, orgulhoso, em sua mão.

— Aqui está!

Todos voltaram sua atenção para o tiefling, que estava prestes a começar.

Fogo que respira
Asas sobre a noite
Escamas sob a lua
Olhos que veem além

Do fogo nascemos
Da terra despertamos
Pelo sangue chamamos
Pelo céu retornamos

Chama antiga
Coração desperto
Abra tuas asas
E escute minha voz

Um céu, uma chama
Um coração, uma alma
Quando o dragão despertar
Os antigos voltarão

Voe, filho do fogo
Voe além das montanhas
Voe onde os homens não alcançam
Voe até o fim do mundo.

Todos permaneciam em silêncio, apreciando a música que o amigo cantava. Ele colocava emoção na letra; sempre fazia isso. Dava o coração para que as pessoas sentissem aquilo que cantava.

Mas alguém ali estava mais concentrada do que os outros na música: Roberta.

Por um instante, ela se perdeu em pensamentos que pareciam ter pertencido a outra vida, a uma outra Roberta.

Isaac, em seu colo, batia palmas junto com os outros. Foi isso que a tirou do transe, fazendo-a aplaudir também.

Lemos estava bem à sua frente. Ele havia notado que algo diferente havia passado pela mente de sua anfitriã, mas não se sentia íntimo o suficiente para perguntar se ela havia se lembrado de alguma coisa.

Edu levantou sua taça e pediu mais uma música, em apoio ao amigo.

— Tem uma da minha terra natal que acho que vocês nunca escutaram antes — disse Lemos.

— Ué, vai cantar também, majestade? — disse Marcos, sacudindo o amigo pelos ombros.

— Majestade? — Roberta levantou uma sobrancelha.

— Esse puto aqui é nada mais, nada menos do que um elfo da casa Sylvaris. O príncipe de Sylvaris, na verdade.

— Eu não me surpreendo com mais nada.

Edu bebeu mais um gole do vinho.

Todos riram.

Azrael esgueirou-se do grimório como fumaça preta até assumir a forma de um gato preto. Edu apenas lhe lançou um olhar gelado, e o gato tratou de ficar ao seu lado, perto do fogo.

— Gatinho!

Isaac correu até ele e o agarrou tão rápido quanto um relâmpago.

— Que fofo! Não sabia que você tinha um gato, tio.

— Pega leve, que esse gato é sinistro — disse Marcos, afastando-se um pouco.

— Me solta, humano! — disse o gato, tentando se desvencilhar de Isaac, que o segurava com firmeza.

— Ele fala! — disseram Roberta e Isaac ao mesmo tempo.

— A história é longa e triste, mas sua majestade Sylvaris ia cantar o quê mesmo? — Edu pigarreou.

Os olhares se voltaram para Lemos novamente, o que fez com que ele ficasse tímido.

— Bora — disse Rafai.

Lemos limpou a garganta e se levantou.

Nos salões de prata onde o tempo não corre,
Ele contava as eras pelo brilho das estrelas.
Um príncipe de luz que nunca adoece ou morre,
Cercado por canções que os homens não podem tê-las.
Mas o tédio da eternidade pesava em seu olhar,
Até que o riso dela o fez despertar.

Ela cruzou a fronteira da floresta proibida,
Com passos pesados e o perfume do chão.
Uma centelha breve, uma chama de vida,
Carregando o inverno no bater do coração.
Ele viu o destino escrito em suas mãos mortais,
E soube que o silêncio não bastava mais.

Ele lhe deu versos em línguas esquecidas,
Ela lhe deu o calor de um toque febril.
Duas almas opostas, em pontes erguidas,
No meio do caminho, num campo de abril.
“Meus anos são ventos”, ela disse com dor,
“E os teus são montanhas, meu doce senhor.”

Edu parou de beber.

Ele já havia escutado aquela música antes, em Ramo, na cadeia. O velho por quem havia lutado estava cantando aquela mesma música.

Pensou em interromper Lemos, mas havia algo que o impedia.

Foi então que a porta da taverna se abriu, e todos voltaram sua atenção para quem estava entrando.

Ela era linda.

Seus cabelos dourados dançavam com o vento que entrava junto com ela. Seu manto balançava no ar com seus movimentos, e seus olhos eram duas safiras brilhantes. Suas orelhas logo captaram o som da respiração que procurava, mas, antes disso, seu olhar percorreu a sala inteira até pousar sobre seu alvo.

O bruxo.

Edu saiu da poltrona onde estava e caminhou na direção da elfa. No caminho, deixou sua taça com Marcos, sem sequer olhar para o amigo.

Ela caminhou em sua direção com passos firmes.

Por um minuto, os amigos prenderam a respiração.

O que estava acontecendo diante deles?

Nenhum dos presentes captava intenção assassina em nenhum dos dois.

Seriam conhecidos?

Amigos?

Colegas?

Poderia Edu ter alguma dessas coisas?

Eles pararam frente a frente.

Ela tocou o rosto dele com suas mãos pequenas e perfeitas. Ele segurou suas mãos com gentileza e pendeu o rosto para a esquerda, tal qual um gato que recebe carinho de uma pessoa querida.

Ninguém entendeu nada.

Eles sequer acreditavam no que estavam vendo.

— Aphadol len, naethon lín; ú-aníron te mín ad-athon. A-úvethon te ad, meleth nín. (Eu estive te procurando, estava tão preocupada com você; cheguei a pensar que não te veria mais, meu amor.) — disse a elfa, com um olhar carinhoso para ele.

— Anno nin, hiril nín. Im maer ú-vân, anor nin; anno nin an agor len. Mal glæron i ëlven-sileth dant len nin sí, ir hiria i ú-vân nín. (Me desculpe, princesa. Eu sou mesmo um péssimo marido; perdoe-me por ter te preocupado. Mas fico feliz que a safira estelar tenha te trazido até mim agora, quando percebeu que estou enfraquecido.) — disse Edu, beijando sua mão.

— Ninguém se mexe.

Lemos falou, atraindo os olhares de todos os amigos. Ele se levantou sem tirar os olhos de Edu e da elfa recém-chegada.

— Vocês são casados?

Os olhares foram imediatamente para o bruxo e a recém-chegada.

— Essa é minha esposa, Wellen da casa Elenarion — disse Edu da forma mais tranquila possível.

— Nós não sabemos nada MESMO.

Rafai passou as mãos no rosto.

— Não olhe para mim. Fui pega de surpresa também.

Roberta se levantou.

— Seja bem-vinda à Estrela Dourada, dama de Elenarion.

— Só Wellen, por favor. Sou capitã dos Cavaleiros da Alvorada. Aos seus serviços.

Ela fez uma mesura digna de alguém que havia frequentado locais de grande poder.

— Você deve ser a Roberta, não é? E o Lemos, o Marcos, Rafai e o pequeno Isaac.

— Como ela conhece todos nós e ninguém aqui nunca ouviu falar dela? — Marcos estava extremamente curioso sobre a esposa de Edu.

— Edu me falou muito de vocês nas cartas dele.

Wellen sorriu para eles.

— Quanto tempo vocês estão casados? — Rafai levantou uma sobrancelha.

Os dois se olharam e depois olharam para o paladino.

— Cinco anos — responderam ao mesmo tempo.

— Edu, amigo...

Marcos respirava devagar.

— Nós dois nos conhecemos há quanto tempo?

— Oito anos — respondeu o bruxo, sem pestanejar.

— Meu velho, na maior parte desse tempo você esteve casado e nem mencionou...

— Ninguém nunca perguntou.

— É a sua cara — disse Wellen, abraçando o bruxo e recebendo um abraço de volta.

🍊🍊🍊

A tarde girou em torno do que Edu havia escondido deles. O casal foi submetido a um interrogatório que apenas amigos de verdade poderiam fazer, mas Edu não respondeu nem a um terço das perguntas.

Roberta estava amando a ideia de ter mais uma menina no meio daquele grupo disfuncional de pessoas estranhas. Mostrou a taverna e a estalagem para Wellen como se fossem melhores amigas. Mostrou o jardim dos fundos e o quarto onde o bruxo estava, explicando que ela também poderia ficar ali.

Wellen mencionou que seu cavalo estava em um estábulo próximo, e Roberta fez questão de mandar seu garoto de recados até lá pessoalmente para buscá-lo e deixá-lo junto aos demais animais.

— Obrigada pela sua hospitalidade. Será muito bem recompensada.

A elfa pegou as mãos de Roberta e as apertou gentilmente.

— Imagina, não se preocupe com isso. Você é da família agora — a clériga sorriu com sinceridade.

— De forma alguma. Você cuidou do meu desastrado e silencioso marido — ela riu. — O que deve ter sido um trabalho bem complicado. Notei que ele ainda não recuperou as forças e que você tem mantido este local seguro para eles. Pode contar comigo.

— Obrigada. Uma mãozinha não vai fazer mal.

Lemos bateu à porta do quarto. Ela estava aberta, então as meninas apenas precisaram voltar o olhar para o elfo, que estava com uma expressão um pouco preocupada no rosto.

— Melhor você descer, dama Roberta. Temos problemas.

🍊🍊🍊

Quando Roberta, Wellen e Lemos desceram a escadaria, a cena que viram era tão densa quanto a noite e tão fina quanto gelo.

Perigo real e iminente.

Qualquer coisa ali poderia sair do controle e gerar uma confusão muito pior do que qualquer briguinha de taverna.

Havia pelo menos sete guardas Drakenhart e um capitão no meio da taverna. Dois guardas estavam mais adiantados do que os outros: um deles estava à frente de Edu, que segurava Isaac atrás de si, enquanto o outro estava próximo à mesa onde Rafai estava. Os demais mantinham as mãos nos punhos das espadas.

— Pela autoridade do lorde Raedusk Drakenhart, o jovem deve ir até a casa principal, pois já possui idade para fazer parte da família.

O capitão deu um passo à frente, e os soldados restantes deram dois.

— Não queremos confusão. Expliquem direito o que está acontecendo.

Marcos soltou o alaúde devagar na poltrona em que estava sentado antes.

— Não devemos nenhuma explicação a vocês, mercenários. A mãe do menino sabe do que estamos falando.

O capitão olhou nos olhos de Roberta quando percebeu que ela estava se aproximando.

— Diga.

— Eu estou com medo — disse Isaac.

Edu o afastou para longe de si e mais para perto de Marcos.

— Azrael, não deixe ninguém se aproximar do menino.

O pequeno gato preto se colocou ao lado do menino em silêncio.

— Beta, o que está acontecendo aqui? — perguntou Marcos.

Ele começava a sentir um aperto muito grande no peito, e as coisas pareciam mais lentas.

Sabia que, se qualquer guarda avançasse um passo, Edu os colocaria no chão.

Não seria bonito.

— Edu...

— Eu sei. Estou sentindo também.

— Meninos, chega! — Roberta bradou. — O que eles querem dizer é que Isaac é um Drakenhart, assim como eu.

— O dia hoje tá que tá — Rafai suspirou. — O que vem agora? Vamos descobrir que o Marcos tem um filho perdido por aí.

— Não fala isso nem de brincadeira.

O tiefling se benzeu.

— Eu fui casada com o filho do lorde Raedusk, o lorde Elentar Drakenhart... Nós éramos jovens e apaixonados. Foi tudo muito rápido. Quando a Ordem descobriu, eu tive que me retirar. Em seguida, nos casamos em segredo e eu fui levada para a casa Drakenhart, uma comunidade em meio ao coração do Dragão.

Roberta respirou fundo.

— Elentar era um homem incrível, inteligente e bondoso, mas, pouco depois que Isaac nasceu, ele foi até Auravéria. De lá, recebeu uma missão do rei para defender Vale Verde de alguns piratas que haviam criado confusão em Porto Rubro. Mas ele não retornou dessa missão.

Roberta começava a hiperventilar, mas rapidamente foi amparada por Wellen e Lemos.

— Elentar me deixou sozinha com um filho.

Ela suspirou, e seus olhos se encheram de lágrimas.

— Quando meu marido foi enterrado, tive que escolher... Ou eu deixava meu filho com eles, ou sairia da família. Eu jamais deixaria Isaac para trás, mas Elentar era o único filho homem. Sendo assim, a casa Drakenhart é a herança e o destino de Isaac...

— Tá de sacanagem.

Marcos escondeu o menino atrás de si.

Edu não tirava os olhos dos soldados, mas, quando ouviu o que Roberta havia acabado de dizer, lançou sobre ela um olhar que nem ele saberia explicar.

Rafai tentou se levantar, mas um dos guardas o impediu.

— Não vou deixar meu filho ir até o lorde Raedusk sozinho. Eu irei com ele.

O peito dela estava partido, mas sabia que aquele dia chegaria em algum momento. Também sabia que não poderia lutar contra eles. Mesmo agora, não poderia arriscar seus amigos nessa luta.

Eles tinham acabado de sair de uma situação dessas.

Seria pedir o impossível.

— Madame — chamou Ériko.

Roberta olhou para trás.

— Se me permitir, eu gostaria de ir também.

— Não. Você já me acompanhou uma vez. Agora é hora de cuidar das coisas aqui até eu retornar.

Os soldados começaram a abrir caminho.

Isaac correu para a mãe, sem entender o que estava acontecendo, e então apenas a acompanhou.

Os dois saíram pela porta sem olhar para trás, e, um a um, os soldados os seguiram, até o capitão sair por último.

Todos que estavam naquele salão trocaram olhares.

Eles não sabiam se Roberta e Isaac voltariam.

Não sabiam o que estava acontecendo.

Só sabiam que algo grande ainda estava por vir.

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