A guerra das Bergamotas - O elo eterno dos Sindarin.

Edu Kawasashi10/08/2026
A guerra das Bergamotas - O elo eterno dos Sindarin.

Capítulo 07: Luarado.

Roberta e seus ajudantes colocaram todos nas carroças com cuidado. Antes de partirem, ela cuidou das feridas de Rafai e Lemos; em seguida, deixou Edu deitado sobre uma maca improvisada em uma terceira carroça, e Marcos foi à frente de um dos veículos, auxiliando os brutamontes.

— Foi por pouco, hein, amigo. — disse Roberta, trocando as faixas dos ferimentos de Edu.

— Nem me fale. — ele disse, ainda sentindo o corpo pesado e dolorido.

— Quando chegarmos, vocês vão me contar tudo direitinho, com detalhes. — a clériga apontou sua mão para um balde com água e fez com que o elemento viesse até suas mãos para limpar os ferimentos do amigo.

Marcos olhou para trás e suspirou aliviado. Havia acabado, pelo menos por enquanto, já que Max havia fugido.

— Me diga, Beta, o que faziam por aqui? — perguntou o tiefling.

— Respondi ao pedido de socorro do Edu. — ela pegou uma pequena joia violeta da sua bolsa. — Ele deu isso para mim na última vez que nos vimos, acho que foi no aniversário de quatro anos do Isaac...

Marcos olhava para aquela joia violeta e mal podia acreditar. Quando o amigo havia acionado aquele pedido de socorro? A última vez que ele estava consciente foi na luta contra a juíza de Ramo.

— Seu espertinho, quando foi que usou seu pedido de socorro? — Marcos olhou para o amigo deitado na carroça.

— Quando senti minhas forças se esvaindo, usei toda a mana que eu ainda tinha para mandar um sinal a longa distância, pedindo socorro. — Edu respirou fundo. — As habilidades do Rafai poderiam me estabilizar, mas jamais poderiam me curar completamente. Sendo assim, Roberta saiu de Luarado assim que recebeu meu pedido e nos encontraria no meio do caminho, impedindo que meu corpo ficasse mais fraco e permitindo que minha magia pudesse voltar para mim.

— Está dizendo que não consegue usar seus poderes? — perguntou a clériga.

— No momento, não da forma que eu fazia. Devo ter cerca de cinco por cento do meu poder original. — Edu parecia preocupado. — Estamos todos completamente feridos e machucados, ficaremos de molho por um bom tempo... Acredito que, com o tratamento certo e descanso, amanhã meus poderes já estarão aumentando devagar.

— Não se preocupem, eu fiz uma obra lá em casa recentemente, aumentei o tamanho e vai ter espaço para todo mundo. Podem ficar o quanto desejarem. Vai ser legal ter uma mão a mais na taverna também.

— Opa, conta comigo! — disse o tiefling.

Roberta sorriu e voltou a tratar dos ferimentos do amigo.

🍊🍊🍊

Luarado era uma das maiores cidades do interior, “a maior das menores”, dizia Roberta. As ruas eram pavimentadas por tijolos brancos, as casas eram alinhadas e, na sua maioria, quase todas iguais, em estilo sobrado. As lojas se destacavam entre todas aquelas casas de pessoas, e a feira era viva e dinâmica, cheia de produtos da região e alguns poucos que vinham de locais mais distantes ou até mesmo de outros reinos, principalmente do reino dos mercadores, que ficava mais próximo.

Havia praças e jardins na cidade que davam inveja a outras da região. A administração de Luarado era rígida, mas muito funcional; os guardas cuidavam principalmente das infrações pequenas, para que as pessoas soubessem que seriam responsabilizadas pelas maiores. Os responsáveis pela cidade eram os nobres da casa Drakenhart, a famosa e milenar casa que possuía um montador de dragão a serviço do reino de Auravéria. Muito se falava sobre esse guerreiro lendário, capaz de fazer parceria com uma fera como um dragão. As pessoas diziam que ele era uma calamidade. Dragão nenhum servia aos humanos; eles cooperavam. Dragão e montador eram parceiros, e não um dono e sua posse.

Todo Drakenhart que nascia já tinha como destino ser enviado a uma das cidades que sua casa comandava. Era ensinado e treinado conforme o local onde sua cidade estivesse. Diziam os nobres que, de todas as sete casas de Auravéria, eles eram os mais preparados para comandar e administrar, pois, apesar de não ser necessário estar em todas as suas cidades, faziam questão de exercer esse domínio de perto, mostrando para as pessoas a sua capacidade.

Quando as carroças chegaram em frente à taverna Estrela Dourada, Roberta desceu primeiro, e outras três pessoas vieram ao seu encontro, saindo da taverna. Os três vestiam aventais com o nome da taverna e, com a ajuda dos homens que traziam as carroças, levaram os três amigos de Roberta para a casa que ficava sobre a taverna. Lá, cada um foi acomodado em um quarto grande, com uma ótima iluminação natural.

— E agora? — perguntou Marcos no corredor, em frente aos quartos.

— Esperamos. — disse ela, prendendo o cabelo. — Preciso dar uma olhada na taverna e depois ainda preciso fazer as compras para hoje à noite. Eu sugiro que você descanse bem, durma, coma, se recupere, amigo.

Os dois se abraçaram. Era uma demonstração de carinho e cuidado. Roberta jamais diria para algum deles sobre o medo que sentiu ao encontrá-los naquele estado. Ela não poderia dizer que reviveu Oakheaven, mesmo que por alguns segundos. A verdade era, como ela disse, que havia coisas a serem feitas, mas ela também usaria aquele tempo para tentar se acalmar da visão de encontrar seus amigos em meio a um inferno daqueles.

Marcos voltou para o seu quarto e viu uma enorme banheira em um canto. Caminhou devagar até lá; parecia que todas as dores dos ferimentos estavam retornando por saberem que ele estava prestes a descansar. Suas forças estavam por um fio. Ele tocou na água com as pontas dos dedos. Estava morna. Sem pressa, retirou sua roupa esfarrapada e entrou na banheira. Sentiu como se o mundo o abraçasse. Tudo estava em paz, seus ferimentos não latejavam mais tanto quanto antes e ele poderia relaxar.

🍊🍊🍊

Quando Edu abriu os olhos, já haviam se passado mais de trinta horas. Seu corpo ainda doía um pouco, mas suas forças estavam se recuperando rapidamente, e isso era muito satisfatório. Ele virou o rosto para o lado, a luz da tarde entrava pela janela e inundava o quarto, sua visão estava turva e ele sentia um peso estranho em seu estômago. Com a mão direita, tateou a cabeceira da cama até achar seus óculos e os colocou. Quando olhou em direção aos seus pés, descobriu a origem do peso: Azrael dormia preguiçosamente sobre sua barriga, descansado, quase natural, se não fosse pela sua origem demoníaca.

— Ei, gato! Acorde imediatamente. — disse ele com autoridade.

Azrael apenas virou-se e deitou com a barriga para cima.

— AZRAEL!

Como se tivesse sido atingido por um raio, o gato se levantou.

— Me desculpe, mestre. — disse o gato. — Mas percebi que, se dormisse sobre o seu corpo, seus poderes poderiam ser restaurados mais rapidamente. Acabei absorvendo a sua fadiga e o seu cansaço no processo.

— Pelo lado bom, parece que agora estamos meio a meio com nossos poderes e condições. — Edu sentou-se ainda na cama. — Quanto tempo estima que levaremos para estarmos fortes novamente?

— Bem, o senhor usou meus poderes de forma deliberada sem estar forte o suficiente para isso. O senhor feriu o próprio espírito, de forma que a recuperação não será fácil. Não é um ferimento que se consiga curar com um tratamento comum.

— Pode demorar, então? — Edu suspirou. — Não tem problema, farei o que posso com o que temos em mãos.

— Meu senhor, a clériga deixou algo para o senhor.

O gato apontou com a cabeça para um manequim parado em um canto do quarto. Ele estava vestindo uma roupa bem diferente da que Edu usava quando veio de Kaer Meigor; era mais bonita.

Havia um sobretudo preto com forro vinho e bordados dourados com símbolos arcanos, uma camisa preta de tecido fino e um colete com detalhes vinho. Uma gravata vermelho-escura presa por uma corrente ao pingente arcano violeta que Edu havia ganhado de seu mestre em Arkhavel, o grande Vectórius, o mago das mil artes. Cintos pretos com fivelas de bronze para poções, adagas, pergaminhos ou para carregar seu grimório, como ele fazia em muitos momentos. Havia uma calça preta de tecido tão escuro quanto a noite, ajustada para a mobilidade, e botas de couro reforçado, adequadas para longas jornadas.

Roberta conhecia o amigo e seu estilo prático, elegante e imponente, refletindo sua personalidade e seu poder obscuro.

— Interessante. — ele disse, levantando-se.

🍊🍊🍊

Edu desceu as escadarias da taverna. Não havia muito movimento no salão, apenas algumas pessoas ocupavam mesas distantes umas das outras, enquanto duas garçonetes passavam para lá e para cá, anotando e entregando pedidos que o chef liberava da cozinha através de uma pequena janela próxima à porta. Era um salão enorme, com candelabros sobre todas as mesas, dando o ar de uma iluminação individual muito sofisticada. Bem ao centro da taverna havia espaço para uma grande fogueira, que agora estava apagada. Em um canto havia uma lareira com poltronas e sofás, um local interessante para as pessoas que queriam um conforto a mais, experimentando uma bebida ou aproveitando um clima romântico. As mesas e cadeiras eram de madeira escura, tão limpa que poderia ser visto o reflexo de quem a encarasse, típico estabelecimento de uma virginiana.

As paredes eram decoradas por quadros e pinturas incríveis de artistas renomados daquele lado do reino. Inclusive, havia uma parede onde os clientes mais famosos deixaram sua marca, para que todos pudessem saber que eles estiveram ali.

— Olha só quem resolveu acordar! — disse Roberta, vendo o amigo descer as escadas. — Como está se sentindo?

— Estou melhorando, obrigado por tudo e pela roupa também. — ele abriu os braços, enfatizando a roupa que estava vestindo. — Gostei muito do que fez com essa taverna.

— Obrigada. Quem disse que ser uma renegada da ordem não traz benefícios? — Roberta riu. — Ainda toma sem açúcar? — ela deslizou uma xícara de café para o amigo por cima do balcão.

Edu assentiu e bebeu um gole.

— Há algo nessas ordens de clérigos e paladinos que deve ser estudado. Rafai também deixou a ordem dele para trás depois de receber algumas ordens que iam contra sua ética como paladino.

— Sabe que, quando eles te mandaram escolher entre seu filho e seu lugar com Stellaris, eu virei as costas para aquelas hipócritas, mas Stellaris está sempre comigo.

— Muito legal a sua história de como deu as costas para aquelas crentes malucas. — Marcos abriu as portas da taverna e sorriu para os amigos.

Ele também estava usando uma roupa diferente das habituais. Uma camisa branca com babados estava aberta no seu peito, permitindo uma liberdade maior de movimento e exibindo seus colares, um casaco longo vinho bordado em dourado com gola alta, calça larga escura, confortável o suficiente para dançar a noite toda, correr e fugir das encrencas que ele mesmo causava. Uma faixa roxa linda, com padrões rúnicos, estava amarrada à sua cintura, um cinto de couro para várias bolsas, frascos e pequenos instrumentos, e botas de couro com fivelas de bronze. Seu visual misturava um ar de nobreza, teatro e desordem, tudo o que um artista do caos precisava.

— Tá bonitão, hein, Edu. — quando Marcos se preparou para sentar ao lado do amigo, Edu, usando magia, fez seu banco ir mais para trás do que precisava, e o bardo caiu de bunda no chão. — Ah, engraçadão, por quanto tempo eu vou ter que pagar essa dívida com você mesmo?

— Quanto tempo um tiefling vive? — Edu bebeu um gole de café.

🍊🍊🍊

Edu pousou a xícara de café sobre o pires e analisou os amigos por alguns segundos.

— Tem uma coisa que eu gostaria de perguntar sobre a sua chegada às ruínas. — disse Edu em tom sério. — Quando a torre caiu, sentimos como se algo a segurasse e a deixasse no chão com um certo cuidado. Em seguida, o som de vento e algo similar a asas batendo pôde ser ouvido de onde estávamos. Depois, vocês chegaram até nós. Me diga, vocês conseguiram ver alguma coisa?

Roberta deu de ombros, cruzando os braços.

— Nós sentimos o deslocamento de vento, mas foi só isso. Pela sua descrição, parece que foi algo bem grande, mas, cá entre nós, se acha que foi um dragão, pode descartar essa opção, pois um dragão jamais ajudaria de forma deliberada.

— Mas os nobres que comandam essa cidade não têm um dragão? — perguntou Marcos.

— A família não, apenas um membro é montador de dragão, Vaelor Drakenhart. Ele monta o dragão Ignivar... Não que eu já tenha visto algum deles, mas as pessoas comentam. Pelo que sei, Vaelor e Ignivar estão juntos há quase sessenta anos. Muitas guerras e conflitos foram resolvidos por esse homem e seu dragão.

— Que maluquice! Por mim, nós mudamos de assunto agora mesmo. Vamos falar de coisas boas, coisas felizes. — Marcos estava se abraçando, como quem tenta se livrar de um calafrio.

— Beleza. — disse Edu. — Me diga, onde o Isaac está? Ainda não o vi por aí.

— Ele está voltando de Arkhavel logo mais para as férias de inverno, vai ficar por aqui umas duas semanas. — Roberta falava do filho com saudade e carinho ao mesmo tempo.

— O que ele faz em Arkhavel? Ele não ia virar bardo? A Escola de Bardos fica em Auravéria. — Marcos parecia surpreso.

— E bardo lá tem escola? — disse Edu, tirando com a cara do amigo. — É só pegar um instrumento e sair por aí.

— Você tem um pensamento muito errado sobre nós, bardos. Eu pensei que o Isaac seria um bardo como o titio aqui.

— E para que ele desperdiçaria a vida dessa forma? Lidar com a magia arcana é um desafio muito maior e mais satisfatório do que aprender a tocar “Brilha, Brilha, Estrelinha”.

Marcos deu um soco de leve no braço do amigo.

— Você machuca o meu coração.

— Quem é Isaac? — a voz vinha da escada. Lemos descia devagar, com uma das mãos no corrimão. Suas roupas também eram bem diferentes das que ele usava anteriormente.

Ele vestia uma capa verde-escura com forro bege e bordados dourados com o símbolo da casa Verde-Estrela nas costas. Sua túnica de couro era verde, com detalhes dourados e folhas estilizadas que representavam Sylvaris. As proteções de couro marrom para os braços e ombros eram leves e flexíveis, para que não atrapalhassem seus movimentos. O cinto duplo tinha compartimentos para ferramentas, ervas e suprimentos. Sua calça escura, de tecido resistente, era reforçada nos joelhos. Suas botas eram longas e de couro macio, próprias para longas caminhadas, e, em sua capa, ele trazia um broche em forma de folha estrelada, símbolo da realeza Sindarin.

— O cara tá vestido igual a um príncipe. — disse Marcos, analisando o amigo dos pés à cabeça.

— Como a Roberta fez tudo isso tão rápido? — Edu apontou para a xícara, e uma garçonete surgiu rapidamente, preenchendo-a com mais café. — Serviço de primeira.

— Foi simples. Eu conheço uma costureira incrível que me deve alguns favores. Eu só precisei levar os trapos antigos de vocês com meus desenhos novos. Eu fico muito criativa no meio de uma crise. — ela parecia mais animada do que deveria.

— Eu sei. — disseram Edu e Marcos juntos.

— Essas roupas são muito leves, parece até que eu não estou vestindo nada. — Lemos terminou de descer as escadas e fez uma breve reverência para sua anfitriã. — Eu sou muito grato pela sua hospitalidade, dama Roberta.

— Que isso, cara. Para com isso, vai, eu estou ficando corada. — Roberta escondeu o rosto.

Lemos sentou-se ao lado de Edu e sorriu para ele.

— Bom te ver de pé.

— Obrigado, amigo. — Edu sorriu para ele de forma discreta.

— E o Rafai? — perguntou Marcos, olhando para o amigo do outro lado do balcão.

— O grandalhão? — ela corou um pouco. — Bom, ele ainda está de cama. Suas feridas são um pouco mais complicadas, mas nada que eu não vá resolver. Além do mais, a armadura dele não está pronta ainda. Vou fazer ele dormir mais um dia.

— Pobre Rafai. — disse Marcos.

— Tomara que ele se recupere logo. — desejou Lemos.

— Eu definitivamente não me importo. — Edu bebeu um pouco do café. — Ele é poderoso o bastante para sobreviver a esse tipo de coisa e ficar muito mais forte.

— Meu Deus, que coração de pedra. — Marcos, rindo, deu um tapa nas costas do bruxo, fazendo-o cuspir o café.

🍊🍊🍊

Luarado era uma cidade muito bonita, e Edu sabia disso. Quando saiu porta afora naquela tarde, sentiu o vento gelado contra suas roupas e seus cabelos. Colocou o grimório no cinto com fivelas de bronze e fechou o sobretudo, levantando a gola para se proteger do frio. Caminhou rua abaixo enquanto os raios dourados do final da tarde se projetavam quase atrás de uma montanha nem tão próxima assim da cidade. O olhar do bruxo não era simpático; era sério, duro e carregado. Aquela máscara que usava para evitar qualquer tipo de interação sempre funcionava. Era quase possível ver uma nuvem obscura sobre sua cabeça.

Por todas as ruas por onde andava, os estandartes da família Drakenhart eram visíveis: um coração prateado envolto pelas asas de um dragão, com uma chama azul no centro. Aquilo transmitia poder e tradição, coisas que o bruxo respeitava e admirava, mas não tinha a menor intenção de passar mais tempo ali do que fosse necessário. Ele havia adorado reencontrar uma amiga de épocas passadas e estava ainda mais feliz por estar recuperando seus poderes mais rápido do que imaginava ser possível, mas Luarado não era seu lugar. E, embora não admitisse, estava com um péssimo pressentimento desde que seus olhos se abriram.

Luarado era ainda mais bonita quando vista daquela perspectiva, enquanto Edu caminhava sozinho pelas ruas e o movimento da tarde começava lentamente a diminuir, com as pessoas retornando para suas casas depois de um dia inteiro de trabalho. Edu percebeu que havia uma organização quase irritante na cidade. As ruas eram largas o suficiente para que duas carroças passassem lado a lado sem precisar disputar espaço, as calçadas eram limpas e as pedras brancas que formavam o pavimento refletiam os últimos raios do sol, fazendo parecer que a própria cidade havia sido construída para receber aquela iluminação dourada todas as tardes.

As casas possuíam praticamente o mesmo estilo: sobrados de dois ou três andares, com pequenas varandas, janelas largas e telhados inclinados. Mas nenhuma delas parecia exatamente igual à outra, pois seus moradores haviam encontrado pequenas maneiras de deixar suas residências diferentes, pendurando flores nas janelas, colocando placas de madeira com os nomes das famílias ou pintando as portas com cores discretas.

Algumas lojas ainda estavam abertas, e seus proprietários começavam a recolher as mercadorias expostas nas calçadas, enquanto os últimos vendedores da feira gritavam, oferecendo frutas, queijos, carnes defumadas, tecidos, ferramentas e pequenos objetos trazidos de regiões distantes. Edu passou por uma barraca onde uma senhora vendia pequenos frascos de ervas secas e sentiu o cheiro de alecrim, lavanda e outras plantas que não conseguiu reconhecer imediatamente. Depois, passou por um comerciante que havia trazido tecidos do reino dos mercadores e por uma loja que vendia armas fabricadas nas montanhas ao norte. Algumas delas eram tão bem trabalhadas que chegaram a chamar sua atenção por alguns segundos.

Era justamente isso que incomodava Edu, percebeu ele enquanto continuava caminhando. Luarado parecia funcionar bem demais. Não havia lixo acumulado pelas ruas, bêbados brigando nas esquinas ou confusões acontecendo sem motivo. Os guardas estavam presentes em praticamente todas as áreas movimentadas e, mesmo quando não estavam fazendo nada além de observar, era possível sentir que as pessoas sabiam que eles estavam ali.

Um guarda parou dois adolescentes que atravessavam uma praça correndo e aparentemente os repreendeu por alguma brincadeira que havia terminado em uma pequena confusão. Os dois baixaram a cabeça, pediram desculpas e seguiram caminho, enquanto o homem apenas voltou ao seu posto.

Edu observou a cena de longe e soltou um pequeno suspiro pelo nariz, quase um riso sem humor.

— Pelo menos eles sabem trabalhar — murmurou para si mesmo, continuando a andar.

Não era comum que ele elogiasse uma administração tão facilmente, principalmente uma administração comandada por nobres, mas os Drakenhart haviam conseguido transformar Luarado em algo que parecia muito maior do que realmente era. Não era uma capital, não possuía os grandes palácios de Auravéria nem o movimento absurdo das cidades portuárias, mas tinha uma estabilidade que muitas cidades maiores jamais conseguiriam alcançar.

Conforme avançava, Edu percebeu que os estandartes dos Drakenhart apareciam em praticamente todos os lugares importantes. O coração prateado envolvido pelas asas de dragão estava presente nas entradas dos prédios administrativos, nas torres de guarda, nas praças, nas fontes e até mesmo em algumas lojas que provavelmente haviam recebido autorização para utilizar o símbolo da família em suas fachadas.

A chama azul no centro parecia brilhar quando atingida pelos últimos raios do sol, criando uma aparência quase viva no brasão.

Edu parou diante de um dos maiores estandartes, preso a uma construção de pedra, e ficou alguns segundos observando o desenho. Havia algo naquele símbolo que ele não conseguia ignorar, não apenas pela beleza, mas pela mensagem que carregava.

Poder, proteção, tradição e, acima de tudo, a certeza de que aquela família queria que todos soubessem quem estava no comando.

— Vocês realmente gostam de lembrar as pessoas disso, não é? — disse baixo, olhando para o coração prateado. — Como se alguém pudesse esquecer.

Ele voltou a caminhar e chegou a uma das praças centrais de Luarado, onde uma grande fonte circular ocupava o centro de um jardim cuidadosamente mantido. Árvores baixas formavam pequenos corredores naturais ao redor dos bancos, flores cresciam em canteiros perfeitamente alinhados e algumas crianças brincavam enquanto seus pais conversavam próximos.

No centro da fonte havia uma estátua de um homem montado sobre uma criatura alada, mas Edu percebeu imediatamente que não era uma representação comum de um cavaleiro. O escultor havia feito questão de mostrar a criatura com as asas abertas, a cabeça ligeiramente inclinada e as garras próximas ao chão, enquanto o homem permanecia sentado sobre suas costas sem segurá-la por rédeas.

Não havia correntes, não havia uma sela exagerada e nem qualquer símbolo de submissão.

Era uma representação de parceria.

Edu parou diante da estátua por alguns segundos.

— Então é esse o famoso montador — disse.

— Um deles.

A voz veio de trás.

Edu não se virou imediatamente. Seus olhos permaneceram presos à estátua enquanto sua mão direita descia lentamente até o grimório preso ao cinto, não porque estivesse pensando em atacá-la, mas porque o gesto havia se tornado automático depois de tantos anos vivendo em situações nas quais uma voz desconhecida atrás dele quase sempre significava problemas.

Quando finalmente olhou por cima do ombro, encontrou uma senhora de cabelos grisalhos sentada em um dos bancos da praça, segurando uma pequena cesta de compras sobre o colo. Ela parecia tranquila demais para alguém que havia acabado de abordar um estranho daquela maneira.

— Existem outros? — perguntou Edu.

— Na família, sim. Montadores de verdade, não tantos — respondeu ela, sorrindo de leve. — A maioria dos Drakenhart passa a vida inteira treinando para isso e jamais consegue sequer chegar perto de um dragão adulto.

Edu voltou a olhar para a estátua.

— E os que conseguem?

— Não pertencem mais apenas à família. — A senhora ajeitou a cesta. — Quando um Drakenhart estabelece um vínculo com um dragão, dizem que ele passa a pertencer também ao reino.

Edu ficou em silêncio.

Aquilo era interessante.

— Pertencer é uma palavra estranha para alguém que diz que dragões não pertencem a ninguém.

A mulher sorriu.

— É por isso que chamam de vínculo.

Edu finalmente olhou para ela, mas a senhora já havia voltado sua atenção para a cesta, como se aquela conversa tivesse terminado.

O bruxo franziu levemente a testa e seguiu seu caminho. Porém, aquela frase continuou dentro de sua cabeça enquanto deixava a praça para trás.

Vínculo.

A palavra parecia simples, mas havia alguma coisa nela que fazia sentido demais quando comparada ao que ele próprio carregava consigo.

Edu tocou discretamente o grimório preso ao cinto e sentiu uma pequena vibração atravessar seus dedos. O livro parecia responder ao toque, como se reconhecesse a presença dele.

O bruxo retirou a mão imediatamente.

— Não começa — murmurou.

Continuou andando por uma rua mais estreita que levava para uma região menos movimentada da cidade. Ali, as casas eram um pouco maiores e havia pequenos jardins privados protegidos por cercas de ferro.

Algumas carruagens passavam lentamente, conduzidas por cocheiros vestidos com uniformes escuros que carregavam discretamente o brasão dos Drakenhart no peito.

Edu percebeu que os guardas naquela região eram diferentes dos que havia encontrado no centro. Eram mais bem armados, carregavam espadas maiores e alguns possuíam armaduras completas, com o coração prateado gravado sobre o peito.

Ele não gostou daquilo.

Não porque fossem perigosos.

Porque estavam preparados.

E pessoas preparadas demais geralmente significavam que havia alguma coisa acontecendo que não estava sendo contada aos outros.

O céu começava a escurecer quando Edu finalmente percebeu que havia caminhado muito mais do que pretendia. As primeiras estrelas surgiam acima das montanhas distantes, e os lampiões mágicos começavam a acender um por um pelas ruas, espalhando uma luz azulada sobre as pedras brancas.

Luarado mudava completamente durante a noite.

A cidade que durante o dia parecia movimentada e comercial assumia uma aparência quase nobre quando o sol desaparecia. As fontes continuavam funcionando, os jardins eram iluminados por pequenas pedras mágicas enterradas próximas às árvores e os estandartes dos Drakenhart balançavam lentamente com o vento frio que descia das montanhas.

Edu percebeu então que havia algo diferente no ar.

Parou.

O vento passou por ele.

Seu cabelo se moveu.

Ele fechou os olhos.

Por alguns segundos, não ouviu nada além dos sons normais da cidade: pessoas conversando, portas sendo fechadas, cavalos puxando carroças, sinos distantes anunciando o início da noite.

Então percebeu uma coisa que quase ninguém ali seria capaz de notar.

Um som.

Muito distante.

Grave.

Tão baixo que poderia ser confundido com um trovão distante.

Edu abriu os olhos.

As pessoas continuavam andando normalmente.

Ninguém havia percebido.

Ele olhou para o céu.

Nada.

— Deve ser impressão minha.

Deu dois passos.

O som veio novamente.

Dessa vez, mais forte.

Um rugido.

Edu ficou imóvel no meio da rua.

As pessoas ao redor continuaram seus caminhos. Algumas sequer levantaram a cabeça, mas os guardas próximos à praça olharam imediatamente para o horizonte. Um deles levou a mão ao cabo da espada. Outro simplesmente ergueu os olhos para o céu.

E então Edu viu.

Muito distante, além das montanhas, uma pequena sombra atravessava as nuvens.

Por um instante, ele pensou ser apenas uma ave enorme.

Então duas asas se abriram.

O tamanho da criatura fez o bruxo esquecer completamente o frio.

A silhueta desapareceu atrás das montanhas antes que ele pudesse enxergar qualquer detalhe, mas aquilo havia sido suficiente.

Edu conhecia monstros.

Conhecia demônios.

Conhecia criaturas mágicas.

Conhecia coisas que não deveriam existir.

Mas aquela coisa não era apenas uma criatura.

Era poder.

Um dos guardas ao lado da praça sorriu ao perceber o movimento no céu.

— Ele voltou.

Edu ouviu a frase.

Virou lentamente o rosto.

— Quem?

O guarda percebeu que havia falado alto demais e imediatamente fechou a expressão.

— Ninguém.

Edu estreitou os olhos.

— Eu perguntei quem.

O homem não respondeu.

Outro guarda se aproximou e tocou seu ombro, fazendo um sinal discreto para que não dissesse mais nada. Os dois começaram a se afastar, mas Edu permaneceu parado, observando-os desaparecer pela rua.

Seu mau pressentimento havia acabado de se transformar em certeza.

Alguma coisa estava acontecendo em Luarado.

E, pela primeira vez desde que havia acordado naquela cidade, Edu desejou sinceramente que Marcos, Rafai e Lemos ainda estivessem dormindo.

Porque, se aquele rugido realmente significava o que ele imaginava, talvez Luarado não fosse apenas uma cidade bonita governada por uma família poderosa.

Talvez fosse o território de uma criatura que poderia transformar uma cidade inteira em cinzas.

E Edu não tinha a menor intenção de descobrir isso da pior maneira possível.

🍊🍊🍊

Quando Rafai abriu os olhos no início daquela noite, encontrou alguém ao seu lado na penumbra daquele quarto. Seus cabelos escuros estavam quase sobre ele, e seus olhos, atrás das lentes de um óculos, eram iluminados pelas luzes que vinham da magia que saía de suas mãos sobre o peito dele. Seu coração disparou, e sua boca ficou seca com aquela visão quase etérea.

Roberta sorriu para ele de forma gentil e carinhosa, seus olhos brilhando ao encontrar os do paladino.

— Bem-vindo de volta à vida, paladino — disse ela, sentando-se em um banquinho ao lado da cama de Rafai.

— Onde eu estou? Quem é você? — perguntou ele, limpando os olhos.

— Calma aí, camarada — ela tocou a testa dele; não havia febre. — Me chamo Roberta. Sou amiga do Marcos e do Edu.

Rafai estreitou os olhos.

— É mentira!

Roberta levantou uma das sobrancelhas e cruzou os braços, esperando uma boa explicação.

— O Edu não é amigo de ninguém e nem gosta de ninguém — o paladino riu, contagiando Roberta.

— Você se surpreenderia se soubesse o quanto nos damos bem, amigo — ela sorriu novamente para ele. — Como está se sentindo? Alguma dor?

— Dores múltiplas pelo corpo todo, principalmente nos locais onde Minerva acertou. Não me sinto pronto para levantar ainda… Aliás, como estão os outros? Me diga que eles estão bem!

Roberta se levantou e andou pelo quarto, abrindo as cortinas e deixando o paladino ver a cidade e o anoitecer do lado de fora. Ela pegou um copo de água que estava sobre uma mesa perto da porta e o trouxe para o recém-desperto.

— Marcos e Lemos estão lá na taverna, que fica aqui no andar inferior. Eles estão fazendo basgorn com alho para assarmos e vendermos esta noite. O Edu saiu para buscar o meu filho na estação aerostática, no centro.

— Você confiou uma criança ao Edu? — Rafai arregalou os olhos.

— Mas é claro. Ele é bom com crianças. Ele tem uma afilhada de uns nove anos, não sabia disso? — Roberta entregou o copo ao paladino, que, devagar, sentou-se sobre a cama e bebeu um gole.

— Eu não sei nem quantos anos o Edu tem — Rafai sorriu cansado.

— Trinta — disse ela.

— Meu Deus — Rafai suspirou.

Roberta segurou uma risada ao perceber a expressão de espanto no rosto do paladino, como se ele tivesse acabado de descobrir uma informação muito mais preocupante do que o fato de ter sido espancado por uma mulher superforte algumas horas antes. Rafai permaneceu alguns segundos olhando para ela, depois para o copo em suas mãos e novamente para ela, tentando encaixar aquela informação em tudo o que sabia sobre o bruxo.

— Trinta? — repetiu ele. — Eu jurava que ele tinha uns cinquenta.

Roberta soltou uma gargalhada curta e cobriu a boca com a mão, tentando não fazer muito barulho.

— Não fala isso perto dele, pelo amor de Deus. Ele vai passar três horas explicando que aparenta ter a idade que tem e que você é simplesmente incapaz de reconhecer a beleza de uma pessoa que não sorri.

Rafai começou a rir também, mas imediatamente levou uma das mãos às costelas e fez uma careta de dor. Roberta percebeu na mesma hora e voltou a assumir uma expressão séria, aproximando-se da cama.

— Devagar, grandão. Você ainda não está em condições de rir.

— Eu percebi — respondeu Rafai, respirando fundo. — Meu corpo acabou de me informar que não gostou da piada.

— Seu corpo está tentando sobreviver, na verdade — ela respondeu enquanto voltava a tocar o peito dele com as mãos, fazendo a energia mágica retornar em pequenas ondas luminosas. — Você teve sorte. Mais alguns golpes daquele jeito e eu estaria tendo uma conversa bem diferente com você agora.

Rafai observou as mãos dela trabalhando sobre seus ferimentos, acompanhando o movimento dos dedos enquanto a magia percorria sua pele. Havia algo estranhamente tranquilo naquela situação, principalmente porque poucas horas antes ele estava lutando pela própria vida em meio às ruínas de Kaer Meigor e agora estava deitado em uma cama confortável, enquanto uma mulher que ele havia conhecido naquela mesma tarde cuidava de seus ferimentos como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

— Você faz isso com todo mundo? — perguntou ele, tentando parecer casual.

Roberta levantou os olhos para ele.

— Curar paladinos que apanharam de meninas?

— Exatamente.

— Não. Você é o primeiro — ela respondeu com um pequeno sorriso.

— Então estou recebendo um tratamento especial? — perguntou Rafai e, só depois de terminar a frase, percebeu como aquilo havia soado.

Roberta ficou em silêncio por um instante, encarando-o através das lentes dos óculos, e então um sorriso divertido surgiu lentamente em seu rosto.

— Talvez — respondeu simplesmente, voltando a concentrar-se na magia.

Rafai ficou quieto. Muito quieto. Tão quieto que parecia ter acabado de esquecer como funcionava a própria língua.

— Isso foi… — ele começou.

— Foi uma piada — ela o interrompeu.

Por alguns segundos, os dois permaneceram em silêncio, ouvindo apenas os sons distantes da cidade através da janela aberta. Luarado estava completamente diferente naquela noite. As pedras brancas das ruas refletiam a iluminação mágica dos postes e das casas, pequenas luzes flutuavam próximas às praças e o movimento dos comerciantes começava a diminuir, enquanto as tavernas assumiam o lugar das lojas. De algum ponto distante veio o som de uma música sendo tocada por algum artista de rua, acompanhado pelo barulho de pessoas conversando e rindo.

Rafai olhou para fora e depois voltou a atenção para Roberta.

— Você sempre mora aqui? — perguntou.

— Já tem alguns anos — ela respondeu, sentando-se novamente no banquinho. — Luarado é uma cidade boa para criar uma família. É organizada, segura, bonita e os Drakenhart levam a administração daqui a sério.

— Dá para perceber — Rafai olhou novamente para a janela. — Nunca vi tantas bandeiras de uma família em um único lugar.

— Eles gostam de lembrar quem manda — Roberta deu de ombros. — Mas, para ser justa, eles fazem um bom trabalho.

— Você gosta deles?

— Gosto de algumas pessoas — respondeu ela. — Não confunda isso com gostar de nobres.

Rafai riu.

— Justo.

Roberta terminou de tratar um dos ferimentos mais profundos e se levantou para pegar algumas ataduras que estavam sobre uma pequena mesa. Quando voltou, percebeu que Rafai ainda estava olhando para ela.

— O quê? — perguntou.

— Nada.

— Você está olhando.

— Eu sei.

— Então alguma coisa tem.

Rafai coçou a barba curta, claramente procurando uma resposta que não o fizesse parecer estranho.

— É que… você parece diferente do que eu esperava.

Roberta parou por um instante.

— Diferente como?

— Não sei explicar — ele respirou fundo. — Quando eu acordei, achei que estava morrendo e que algum anjo tinha vindo me buscar.

Roberta ficou completamente imóvel durante dois segundos antes de começar a rir.

— Um anjo?

— É — Rafai respondeu, agora completamente sem jeito. — A luz, os cabelos, os óculos… Eu estava meio tonto.

— Ah, então foi isso — Roberta aproximou-se e ajeitou uma das ataduras no ombro dele. — E agora que você está menos tonto?

Rafai olhou para ela.

— Agora eu acho que você é uma mulher que fala demais.

Roberta sorriu.

— Melhorou bastante. Já estava começando a achar que você tinha quebrado a cabeça junto com o resto da armadura.

Nesse momento, uma voz veio do corredor.

— EU ESCUTEI ISSO! — gritou Marcos do lado de fora.

Roberta fechou os olhos e respirou fundo. Rafai olhou para a porta.

— Ele estava escutando?

— Provavelmente — respondeu ela. — Marcos consegue escutar coisas que não foram ditas.

A porta se abriu de repente, e o tiefling colocou apenas a cabeça para dentro.

— Eu vim verificar se o nosso querido paladino estava vivo e também trazer uma informação extremamente importante.

Rafai cruzou os braços.

— O que foi?

— O Lemos queimou o primeiro basgorn — Marcos fez uma pausa dramática. — E culpou o alho.

Roberta levou a mão ao rosto.

— Como alguém consegue queimar pão com alho?

Marcos entrou completamente no quarto.

— É o Lemos. Ele conseguiu.

— E você está fazendo o quê? — perguntou Rafai.

— Eu? Estou supervisionando — Marcos respondeu com a maior dignidade possível.

— Então você não está fazendo nada — Roberta concluiu.

— Exatamente — respondeu ele.

Marcos caminhou até a cama e analisou Rafai dos pés à cabeça, fazendo uma expressão exageradamente preocupada.

— Você está horrível.

— Você também não está muito melhor — Rafai respondeu.

— Eu estou lindo. Meu cabelo está maravilhoso.

— Seu alaúde foi destruído — disse Roberta.

Marcos perdeu o sorriso imediatamente.

— Não precisava tocar nesse assunto.

Rafai começou a rir novamente e, dessa vez, tentou conter a dor antes que ela viesse. Marcos apontou para ele.

— Está vendo? Você está rindo porque é engraçado, mas daqui a pouco vai estar chorando porque dói.

Ele olhou para Roberta.

— E você está deixando ele rir?

— Não — respondeu ela. — Ele está fazendo isso sozinho.

— Mulher inteligente — Marcos sorriu.

Rafai olhou para Roberta e percebeu que ela também estava olhando para ele, ambos segurando uma risada. Por algum motivo, aquilo pareceu estranhamente familiar, como se aquela pequena conversa já tivesse acontecido muitas vezes antes, embora os dois tivessem se conhecido apenas naquele dia.

— Bom, vocês dois podem continuar conversando — Marcos apontou para os dois e começou a andar em direção à porta. — Eu vou voltar para o meu trabalho de verdade.

— Qual trabalho? — perguntou Rafai.

— Evitar que o Lemos mate o jantar — respondeu Marcos.

Rafai ficou olhando para a porta por alguns segundos antes de voltar a atenção para Roberta.

— Eles são sempre assim?

— Sempre — ela respondeu.

— E você?

— O quê?

— Você sempre se mete em confusão desse jeito?

Ela lançou um olhar desconfiado sobre ele.

Rafai sorriu.

— Normalmente eu tento evitar.

— Mentiroso — disse Roberta, terminando de ajustar a atadura. — Você entrou numa fortaleza em ruínas, enfrentou uma mulher que provavelmente conseguiria levantar essa taverna sozinha e ainda tentou atravessar uma porta congelada com a cabeça.

— Eu estava tentando salvar meu amigo.

— Eu sei — Roberta respondeu, e dessa vez sua voz ficou um pouco mais baixa. — Foi por isso que eu gostei de você.

Rafai ficou em silêncio.

Roberta percebeu o que havia dito e pareceu notar também que aquela frase poderia significar mais do que pretendia. Ela pigarreou, levantou-se e começou a guardar os instrumentos de cura.

— Quer dizer… gostei da sua determinação. Como paladino. Pela missão. Essas coisas.

— Claro — Rafai respondeu, tentando esconder um sorriso. — Pela missão.

— Exatamente — Roberta respondeu rápido demais.

Do lado de fora do quarto, ouviu-se a voz de Marcos novamente.

— EU TAMBÉM GOSTEI!

Roberta fechou os olhos.

— Eu vou matar esse desgraçado.

Rafai começou a rir.

— Não ria! — ela apontou para ele. — Você ainda está machucado.

— Desculpa.

— Não parece.

— Não estou.

Roberta tentou manter a expressão séria, mas acabou sorrindo também.

E, por alguns instantes, os dois permaneceram ali, rindo baixo enquanto a noite tomava Luarado, sem perceber que talvez aquela conversa aparentemente insignificante fosse apenas o começo de alguma coisa que nenhum dos dois ainda tinha motivos para compreender.

🍊🍊🍊

Marcos desceu as escadas pensando que aquela noite era a primeira em bastante tempo em que eles não precisavam se preocupar com onde dormir ou o que comeriam no jantar. Tudo estava perfeito. Ele agora voltaria para a cozinha e veria no que poderia ajudar o amigo. A taverna abriria em breve, e a ideia de venderem pão élfico com alho seria um verdadeiro sucesso para angariar mais clientes e transformar aquele prato em uma especialidade da taverna da amiga.

Mas, quando estava no meio da escadaria, um grito percorreu o local e fez seu sangue gelar. Era um grito furioso e vinha da cozinha.

O tiefling pulou diretamente para o salão e correu até a cozinha, parando na porta, ofegante por causa dos ferimentos que ainda estavam se recuperando em seu corpo.

Lemos estava parado em frente à bancada da cozinha, de cabeça baixa. Diante dele, um homem baixinho, de bigode alinhado, cabelos grisalhos e barriga proeminente o encarava como se estivesse sugando a alma de dentro do corpo do elfo.

— Non! Non! Non! Non! Non! Non! — gritava o homem.

Lemos estava diante de uma dezena de pedaços de basgorn enquanto segurava uma pequena faca nas mãos. Ele passava uma quantidade de manteiga temperada sobre os pães élficos quando o homem chegou e o interrompeu aos gritos.

— O que você está fazendo?

— Passando manteiga nos...

— Isso aqui é manteiga?

— Isso mesmo, a manteiga temperada que eu...

— Isso é manteiga?!

— É. É literalmente manteiga.

— NON! Isso é uma tragédia em forma pastosa!

Lemos olhou para o homem, e Marcos percebeu que o amigo estava completamente encurralado. Então olhou para o recém-chegado, que ainda estava perto da porta.

— E esse quem é? — perguntou o chef.

— Eu? Ah, eu sou Marcos...

— O outro!

Marcos não entendeu absolutamente nada. Quando deu por si, já estava ao lado de Lemos.

— Eu vou mostrar como eu gosto das coisas na minha cozinha. Vocês farão um pão de aio que até uma criança consegue fazer, d'accord?

Os dois apenas conseguiram balançar a cabeça rapidamente, como se suas vidas dependessem daquela resposta.

— Primeiro: vão pegar a basgorn, cortar em até quatro pedaços, ok? — disse o chef, demonstrando enquanto cortava o pão sobre a bancada. — Segundo: com a pá de pain (pão em francês), vocês vão passar uma lâmina de manteiga em cada lado. Com isso, o pain ficará suculento e sem exagerro.

Marcos e Lemos tocaram as facas nos pães e foram imediatamente interrompidos por um grito, seguido de uma poderosa batida da mão do chef diretamente contra a bancada.

— NON! É isso! Tá errado!

Uma veia na testa do chef ficou tão aparente que chegou a intimidar os dois rapazes.

— Mas nós mal encostamos as facas nos pães... — disse Lemos, olhando para o pão, para a faca e novamente para o pão.

— Estavam cortando errado! — gritou o chef.

— E tem como cortar pão errado? — Marcos parecia prestes a chorar a qualquer momento.

— Aparentemente, sim. — Lemos se encolheu.

— DE NOVO! DO INÍCIO!

Os dois voltaram a cortar os pães e, quando se preparavam para passar a manteiga, a colher de pau do chef acertou as mãos dos dois quase ao mesmo tempo.

Era uma agilidade sobrenatural. Como um homem velho como ele poderia ser tão rápido?

A única resposta possível era que ele estava com tanto ódio que havia transcendido suas próprias capacidades humanas. O que estava diante de Marcos e Lemos naquele momento era algo entre o humano e o sobrenatural: um chef baixinho e irado.

Naquele instante, os dois sentiram saudades de Max, Minerva e Otto.

— VERGONHA! — gritava o chef.

🍊🍊🍊

Quando Edu chegou à praça onde os navios aerostáticos pousavam, não precisou nem procurar o transporte que traria Isaac, pois, bem à sua frente, estava um enorme navio com as bandeiras de Arkhavel ao vento da noite. Aquilo trouxe uma sensação de nostalgia ao peito do bruxo. Ele sorriu de forma discreta enquanto caminhava sob a sombra daquele grande navio e seguia até um pequeno posto na praça, de onde uma enorme multidão entrava e saía, acompanhando crianças e funcionários de Arkhavel.

No meio da multidão, ele abriu caminho até onde as crianças estavam. Olhou duas vezes para as últimas doze crianças que permaneciam ali e não viu Isaac. Suspirou e levou a mão até onde estava o grimório, segurando uma pequena mão próxima ao livro de feitiços. Sentiu o calor daquela pequena mão e, quando os olhos dos dois se cruzaram, teve certeza de quem estava ali.

— Não se deve mexer no grimório de outras pessoas — disse Edu, olhando para a criança, que ainda vestia a túnica azul-marinho com símbolos mágicos semelhantes aos que Roberta havia colocado em sua roupa.

— Seu livro parece muito interessante — disse o menino, sorrindo de forma sapeca.

— Como foi sua viagem, Isaac? — Edu bagunçou o cabelo dele.

— Ainda bem que acabou, vythar (tio) — disse Isaac, que não parecia nem um pouco confortável naquele momento. Ele baixou a cabeça e, de forma discreta, olhou para um lado específico.

Edu percebeu, mas não seguiu seu olhar. Não saberia o que procurar.

Os dois saíram juntos do meio da multidão, caminhando devagar na direção da taverna.

— Não pense muito nisso — disse Edu, tocando nas costas do menino em sinal de apoio enquanto caminhavam. — Seja o que for, vai se resolver. Mas o que eu quero saber é: como você sabe falar "tio" em dracônico?

Isaac sorriu, e seu rosto se iluminou.

— Na aula de Geografia, estamos estudando o reino de Escarlantis, o Deserto dos Dragões.

— Entendi. Estão lendo os estudos do grande biólogo elfo Vulre Verona?

— Sim. Ele escreve muito na língua antiga dos dragões, pois existem palavras que não têm uma tradução conhecida.

— Verona escreveu todos os seus doze livros em Sindarin. Você tem que saber a língua dos elfos — Edu levantou uma sobrancelha, olhando para o menino, que às vezes caminhava mais à frente, correndo um pouco, como se estivesse dando as boas-vindas à própria cidade.

— Existem feitiços para tradução. Sindarin é muito difícil — disse ele, cruzando os braços e parando na frente de Edu.

— Ávo dartho, ion! (Não seja preguiçoso, menino) — disse Edu, passando por ele. — Vamos indo. Sua mãe está esperando.

— Tio, o que você faz em Luarado? — perguntou Isaac, curioso, dividindo sua atenção entre o rosto e o grimório de Edu.

— Estávamos em viagem. Acabamos gravemente feridos e precisamos da ajuda de sua mãe. Agora estamos nos recuperando por aqui. Ainda vamos ficar mais alguns dias — Edu suspirou. — Vi um pouco sobre essa sua cidade e digo que há algo aqui que se diferencia de tudo o que tenho visto nos últimos meses.

— Está falando de quê? Sabia que os Drakenhart têm dragões? Sabia que eles são muito fortes e inteligentes?

— Dragão, não dragões — Edu corrigiu. — Eu não preciso te dizer que nunca, na história, um dragão se submeteu à vontade de outra coisa que não fosse um dragão maior. Mantenha isso na sua mente, jovem... Dragões e humanos não servem uns aos outros. Eles podem apenas cooperar.

— O cavaleiro de dragão, Valor Drakenhart, é uma figura histórica e misteriosa por aqui, tio — Isaac se aproximou, pegando Edu pela mão, causando estranheza no bruxo. — Sabia que dizem que ele consegue lutar sobre a cauda do dragão?

Edu riu de forma sincera.

— Acho bem difícil que algo assim seja verdade. Não por desacreditar da história, mas por saber que ninguém seria maluco o suficiente para chegar tão perto assim.

Isaac e Edu continuaram subindo a rua, saindo do centro. Os dois conversaram sobre Luarado, sobre Arkhavel, sobre o que o menino estava estudando e sobre as poções que Edu estava pensando em testar. Os dois combinaram que Edu o ajudaria com algumas lições, principalmente com feitiços, matéria na qual Isaac ainda precisava de um certo reforço.

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