A guerra das Bergamotas - O elo eterno dos Sindarin.

Edu Kawasashi03/08/2026
A guerra das Bergamotas - O elo eterno dos Sindarin.

Capítulo 06: Então é guerra II.

Não poderia perder tempo se preocupando com os amigos agora; precisava apenas confiar que conseguiriam alcançar o local onde Edu estava precisando deles naquele momento. Assim, ganhou o corredor em ruínas com a capa ao vento e a armadura tilintando entre as pedras. 

O paladino já havia escutado histórias sobre ruínas cujas pedras guardavam fantasmas de outra época. Seus sentidos sobrenaturais até poderiam captar lamentos do passado, ecos de almas esquecidas que jamais encontraram descanso, mas, naquele momento, só sentia uma coisa: o frio que rondava seus tornozelos. Diante dele um elemental de gelo enorme surgiu das sombras, porém bastou um único golpe de sua espada brilhante para que o corpo da criatura fosse completamente aniquilado em uma explosão de cristais. Antes mesmo que os fragmentos tocassem o chão outro elemental despencou do teto tentando esmagá-lo. O escudo de Rafai subiu como uma muralha, absorveu o impacto e devolveu a criatura contra uma parede adjacente, arrebentando o que ainda permanecia de pé daquela antiga construção. 

O corredor voltou a mergulhar no silêncio por apenas alguns instantes. Então passos leves começaram a ecoar entre os escombros. Diferente dos elementais, aqueles passos eram ritmados, tranquilos, quase elegantes. Rafai apertou o cabo da espada enquanto via uma pequena silhueta surgir no outro extremo do corredor iluminado pelos feixes de luz que atravessavam o teto destruído. Minerva caminhava devagar, a capa escura escondendo quase todo o corpo, mas seus olhos permaneciam fixos nele como se estivessem analisando cada detalhe desde a luta da madrugada. 

— Achei que fosse encontrar o arqueiro primeiro. — disse ela sem alterar a expressão. — Você parece pior do que ontem. 

Rafai sorriu.

— E você continua parecendo uma criança. Continua sendo um erro subestimar você.

Ela retirou lentamente a capa dos ombros.

— Ainda bem que você aprendeu.

Os dois desapareceram praticamente ao mesmo tempo.

A colisão fez o corredor inteiro estremecer. A espada dourada encontrou o punho nu de Minerva e a explosão do impacto abriu uma onda de choque que arrancou blocos inteiros das paredes, lançou colunas centenárias para os lados e fez o teto desabar vários metros atrás dos dois. Rafai foi empurrado alguns passos para trás, deslizando sobre as pedras, enquanto Minerva apenas afundava os pés no chão, abrindo duas valas compridas no piso antigo.

O paladino avançou novamente sem lhe dar tempo para respirar. Sua espada descrevia arcos luminosos cada vez mais rápidos, golpeando de cima, pelos lados, em estocadas curtas e movimentos largos capazes de partir muralhas. Minerva respondia usando apenas os braços. Cada bloqueio produzia um estampido ensurdecedor, cada defesa fazia as pedras ao redor explodirem em milhares de fragmentos. Quando percebeu que permanecer parado favorecia a força bruta da adversária, Rafai mudou completamente o ritmo. Passou a alternar golpes pesados com investidas rápidas usando o escudo como arma. Um impacto acertou o estômago da garota e a lançou através de três pilares consecutivos antes que ela conseguisse recuperar o equilíbrio.

Ela cuspiu sangue.

Sorriu.

E correu.

O soco atingiu o escudo do paladino como se um gigante tivesse acertado uma montanha com um aríete. O metal deformou diante do impacto e Rafai foi lançado contra uma parede distante, atravessando a pedra e rolando por outro corredor completamente diferente. Antes mesmo de conseguir levantar, Minerva surgiu atravessando a abertura que ela mesma havia criado. O segundo golpe acertou sua armadura na altura das costelas.

O som do aço rachando ecoou por toda Kaer Meigor.

Uma grande fissura apareceu sobre a couraça dourada.

Rafai sentiu o gosto de sangue subir pela garganta.

— Agora estamos conversando... — murmurou enquanto limpava os lábios.

Ele segurou a espada com as duas mãos e sua aura explodiu. A luz dourada percorreu cada detalhe da armadura, fazendo as antigas inscrições sagradas brilharem intensamente. O chão abaixo de seus pés rachou conforme ele avançava como um verdadeiro carneiro de guerra.

Minerva recebeu o ataque de frente.

A espada atingiu seu antebraço.

Pela primeira vez ela gritou.

O corte atravessou a pele, abriu um sulco profundo e fez sangue respingar pelas pedras antigas.

Ela respondeu imediatamente com uma joelhada que atingiu o abdômen do paladino, levantando-o do chão. Antes que pudesse cair, outro soco acertou suas costas e o lançou através de uma janela destruída. Rafai atravessou o vazio entre duas alas do castelo e colidiu contra uma torre parcialmente destruída.

A construção inteira desabou sobre ele.

Uma nuvem de poeira tomou conta da fortaleza.

Minerva caminhou calmamente entre os destroços.

Então uma luz dourada atravessou os escombros.

As pedras explodiram em todas as direções.

Rafai saiu do monte de ruínas coberto de sangue, respirando com dificuldade. Parte do elmo havia sido arrancada, uma das ombreiras estava completamente destruída e a couraça agora apresentava várias rachaduras profundas, mas seus olhos continuavam carregando a mesma determinação.

— Você bate mais forte do que qualquer pessoa que já enfrentei. - disse Minerva..

— Você também. - Rafai sorriu.

Ela desapareceu novamente.

Dessa vez os dois colidiram no centro do antigo salão principal de Kaer Meigor. Espada contra punhos. Escudo contra cotovelos. Chutes, joelhadas, encontrões e impactos sucessivos fizeram o piso de pedra ceder completamente. Ambos despencaram para o nível inferior da fortaleza junto com toneladas de entulho.

Nem mesmo a queda interrompeu a luta.

Ainda no ar Rafai girou o corpo e golpeou Minerva no ombro com o escudo. Ela respondeu agarrando o braço dele e o arremessando contra uma coluna gigantesca. A coluna rachou de cima a baixo antes de desmoronar sobre os dois.

Quando reapareceram entre a poeira, estavam muito diferentes.

A armadura do paladino já havia perdido quase toda a proteção do lado esquerdo. Seu ombro estava completamente exposto e um corte profundo atravessava suas costelas. Minerva também respirava com dificuldade. O braço direito pendia parcialmente sem força e vários cortes cobriam seu corpo, enquanto hematomas escureciam sua pele.

Ao longe Rafai ouviu um estrondo tão poderoso que até mesmo as ruínas vibraram.

Sorriu.

— Lemos ainda está vivo…

Minerva ouviu outro impacto vindo de uma direção diferente.

— Otto também.

Os dois voltaram a se encarar.

Nenhum deles tinha forças para desperdiçar.

Minerva foi a primeira a correr.

Seu punho atravessou duas paredes antes de alcançar Rafai. O paladino desviou por centímetros, mas o deslocamento de ar foi suficiente para lançar seu corpo contra uma muralha. Antes que ela preparasse o segundo golpe, Rafai girou sobre o próprio eixo e acertou um corte horizontal em sua cintura.

Sangue.

Muito sangue.

Ela cambaleou.

Mesmo assim segurou a espada com as duas mãos.

Os músculos de Rafai saltaram imediatamente.

Ela estava tentando arrancar sua arma.

Os dois permaneceram imóveis durante alguns segundos, disputando pura força física.

As pedras sob seus pés começaram a afundar.

Rachaduras se espalharam em todas as direções.

Até que Rafai sorriu.

Soltou a espada.

Minerva perdeu completamente o equilíbrio.

Era exatamente o que ele queria.

O paladino deu um passo à frente e acertou uma cabeçada devastadora em seu rosto. O impacto quebrou parte do piso e lançou a garota vários metros para trás. Antes que ela conseguisse se levantar, Rafai recuperou a espada ainda no ar e reuniu toda a energia sagrada restante em um único golpe.

A lâmina desceu como um raio dourado.

O impacto abriu uma cratera gigantesca no centro das ruínas. O chão afundou vários metros, muralhas inteiras ruíram para dentro da depressão e uma nuvem de poeira subiu acima das torres destruídas de Kaer Meigor.

Quando tudo voltou a ficar silencioso, Rafai permanecia ajoelhado no centro da cratera, apoiado sobre a espada para não cair. Sua armadura estava praticamente destruída; a couraça havia se partido em diversos pontos, uma das manoplas desaparecera sob os escombros e sangue escorria por quase todo o seu corpo.

Do outro lado da cratera, Minerva tentou mover o braço.

Depois tentou apoiar um joelho.

Seu corpo não respondeu.

Ela sorriu fracamente.

— Você... realmente... é forte…

Rafai respirava com tanta dificuldade que demorou alguns segundos para responder.

— Você também... mas hoje... hoje eu precisava vencer.

Minerva fechou os olhos e tombou sobre as pedras destruídas.

Rafai permaneceu parado por mais alguns instantes, ouvindo ao longe os ecos das outras batalhas que ainda sacudiam Kaer Meigor. Cada músculo do seu corpo implorava para que ele caísse ali mesmo, mas ele apenas respirou fundo, puxou a espada para fora da cratera e começou a caminhar mancando pelos corredores destruídos do castelo.

Edu ainda estava esperando por eles. E enquanto pudesse dar mais um passo, a batalha ainda não havia terminado.

🍊🍊🍊

Marcos sentia o castelo sacudir de todos os lados. Ele não estava conseguindo imaginar as batalhas que seus amigos estavam encarando, e algo lhe dizia que o seu adversário estava aguardando em algum lugar daquelas ruínas de Kaer Meigor, mas, fosse o que fosse, ele não poderia recuar, não poderia evitar, não poderia deixar de passar por cima.

Sem demora, Marcos chegou a uma grande escadaria que subia ao redor de uma torre. Metros à sua frente, elementais de gelo rugiam para o recém-chegado bardo infernal. Ele deu um passo para trás instintivamente, mas, no mesmo momento, lembrou-se do que estava em jogo ali. Sua mão direita brilhou em vermelho, e ele apontou para o primeiro elemental. Uma energia percorreu as escadas e explodiu no peito do inimigo, jogando-o para cima e fazendo com que caísse de costas nos degraus.

— Ai, meu Deus, eu sabia que deveria ter treinado mais esses feitiços de ataque! — disse Marcos, assumindo uma postura defensiva enquanto observava o outro elemental, bem maior que o primeiro, voltar-se contra ele.

O monstro pulou na direção do bardo com uma das mãos esticadas, pronta para agarrá-lo entre suas garras congeladas e afiadas, mas Marcos foi mais ágil. Em um salto desesperado, rolou pelo chão, desviando-se da criatura, que passou por cima de sua cabeça. Quando voltou a ficar de pé, conseguiu ver, alguns degraus acima, o primeiro elemental se levantando após receber seu golpe.

— Ah, tem você! — O bardo correu escada acima, retirando de seu cinto uma pequena adaga.

O monstro investiu contra Marcos, que fez o mesmo. Sua adaga afundou no gelo bem no peito do inimigo, mas, em um golpe de desespero, a criatura também acertou o bardo em cheio no estômago. Marcos sentiu o ar fugir dos pulmões e o corpo dobrar imediatamente, apenas para sentir o próximo impacto, dessa vez na cabeça. O bardo rolou escada abaixo até parar aos pés do elemental gigante, desacordado e sangrando.

🍊🍊🍊

Por um instante, Kaer Meigor havia ficado para trás. Uma luz diferente da iluminação da ruína incomodava as pálpebras de Marcos. Ele sentia o vento quente bater contra seu rosto e seus cabelos, o som de pessoas ao redor dele e a sensação da grama fofa o deixavam ainda mais tranquilo do que de costume. Sentia o estômago pesado após o almoço; sentia-se como não se sentia havia muito tempo.

— Levanta já dessa grama suja, vai deixar seu uniforme todo nojento.

O bardo abriu os olhos abruptamente. Por um instante, o sol em seu rosto o impediu de ver quem estava ali à sua frente, mas aquela voz e aquele tom eram reconhecíveis para ele em qualquer lugar do mundo, jamais erraria.

— Edu? Só mais cinco minutos! — o tiefling tentou virar para o lado, mas, ao fazê-lo, recebeu um pequeno chute no braço vindo do amigo em pé ao seu lado.

— Vamos, vamos. Temos trabalho pelo resto da tarde, Oakheaven não vai se cuidar sozinha.

O tiefling levantou-se devagar, entre um bocejo e outro, limpou os olhos e esticou os braços como quem poderia abraçar o enorme hospital à sua frente de uma só vez.

— Sabe, eu tive um sonho tão estranho que você jamais acreditaria. — disse Marcos ao amigo.

— Então poupe saliva. — respondeu Edu, sempre abraçado ao seu grimório.

Os dois andaram pelo enorme pátio do hospital. À frente deles estava um prédio enorme; havia quatro torres no primeiro complexo e, lá dentro, uma dezena de salas de tratamento, além de vários laboratórios de alquimistas e feiticeiros que pesquisavam remédios e tratamentos novos para todo tipo de mal que pudesse afligir quem precisasse de atendimento.

Edu não era alguém desse tipo de trabalho. Ele era administrador e membro do laboratório especializado em poções e tratamentos psicológicos intensivos. Isso já seria uma rotina bastante corrida para qualquer um que tivesse uma função; o amigo tinha duas, mas isso não surpreendia Marcos. Ele sabia que Edu mal saía do hospital durante os dias e, mesmo em suas folgas, podia ser facilmente encontrado empurrando um carrinho de livros da biblioteca do hospital até seu quarto, onde se trancava por dias.

Marcos era um dos acólitos do tratamento através da música. Eles aliviavam dores e tratavam traumas de forma leve com melodias e acordes que iam fundo no âmago da dor dos pacientes e os revestiam de esperança e felicidade, pelo menos era o que tentavam fazer na maioria das vezes. O tiefling passava os seus dias em salas de tratamento com cerca de oito a dez pacientes, usando sua melodia para tentar amenizar o sofrimento dos outros. Seu humor e suas piadas ajudavam tanto quanto suas músicas, o que lhe rendeu o apelido de "o bardo bobo" entre os pacientes.

Quando Marcos entrou pela enorme porta de Oakheaven, pôde sentir a magia fluindo pelas paredes por todo o espaço. O hospital era alimentado por um núcleo mágico repleto de pedras de energia retiradas de todos os cantos do reino, o que fazia com que jamais ficasse sem energia e potencializasse momentaneamente os poderes daqueles que tratavam os pacientes. Porém, poucos metros além da porta, esse efeito era interrompido. Os pergaminhos voavam de um lado para o outro, e a própria sala de entrada movia-se pela vontade do castelo conforme o dia avançava, aproveitando cem por cento da iluminação natural, o que deixava o ambiente mais claro e acolhedor.

Durante a noite, o piso e as paredes emitiam a luz absorvida durante o dia. Não havia espaço para sombras em Oakheaven, e isso deixava tudo ainda mais seguro, dando a Auravéria mais um motivo para se orgulhar, além do título de capital do mundo.

— Ué, ficou me apressando tanto e agora não está querendo entrar? — disse Marcos, olhando para trás e vendo Edu parado ainda do lado de fora do hospital.

— Eu não posso entrar, você tem que me levar para a Roberta. — disse Edu, assumindo aquele tom sério e sombrio de sempre. — Eu quero que você acorde agora e me leve imediatamente.

Os olhos do tiefling encontraram os do bruxo. Marcos sentiu o coração disparar, pois havia se lembrado de que Oakheaven não poderia mais estar ali. Aquele capítulo da vida deles havia acabado muitos anos antes; eles sofreram e foram além dos próprios limites naquele inferno de hospital.

— Não importa quem você tenha que matar de novo, eu quero que me leve já para a Roberta! — disse Edu, enquanto tudo ao redor do tiefling ficava preto.

🍊🍊🍊

Marcos acordou com Rafai sacudindo seu corpo. O tiefling ainda sentia a dor dos golpes e da queda pela escada, mas, só de ver o amigo, já estava mais confiante. Apesar disso, Rafai parecia ter sido colocado dentro de um moedor de carne. Ele estava destruído, sua armadura caía aos pedaços e seu corpo estava muito ferido. Marcos sentiu, ao olhar para o amigo, que o seu limite havia chegado.

— Finalmente acordou. Esteve a poucos momentos de ser levado por aqueles elementais. — Rafai sentou-se em uma pedra ao lado do amigo, que já se preparava para levantar.

— Eu juro que tentei passar por eles, mas sem meu alaúde eu fico rendido. — Marcos ficou de pé, respirou fundo sentindo o ar encher os pulmões e logo uma dor forte veio das costas. Tentou mover-se um pouco e descobriu que ela estava limitando bastante os seus movimentos na parte superior do corpo.

— Eu acredito em você. — disse Rafai com sinceridade. — Mas agora temos que seguir em frente. Estou começando a sentir que estamos perto, e meu corpo não vai aguentar muito mais tempo. Precisamos pôr um fim nisso.

— Tudo bem, mas e o Lemos? Viu ele por aí? — Marcos pegou a sua adaga, que estava no chão, e então fitou a escadaria à sua frente.

— Não consegui encontrá-lo. Devo dizer que nem tentei procurá-lo. Temos uma missão aqui e devemos confiar que estaremos todos bem no final.

Marcos não tinha o que dizer. O amigo estava certo. Eles deveriam confiar na capacidade de Lemos, pois o elfo era ágil e tinha uma mente brilhante e estratégica, ainda mais agora que eles sabiam que ele era um príncipe elfo, membro da maior casa dos sindarin... De alguma coisa isso deveria valer.

🍊🍊🍊

Lemos estava caído de bruços no chão, rodeado pelos escombros da sua batalha. Seu corpo estava completamente imóvel, sua mente estava longe, tentando recuperar-se dos inúmeros ferimentos causados por Otto, mas alguma coisa veio até ela: uma melodia antiga em um idioma antigo, o sindarin.

Nos salões de prata onde o tempo não corre,
Ele contava as eras pelo brilho das estrelas.
Um príncipe de luz que nunca adoece ou morre,
Cercado por canções que os homens não podem tê-las.
Mas o tédio da eternidade pesava em seu olhar,
Até que o riso dela o fez despertar.

Ela cruzou a fronteira da floresta proibida,
Com passos pesados e o perfume do chão.
Uma centelha breve, uma chama de vida,
Carregando o inverno no bater do coração.
Ele viu o destino escrito em suas mãos mortais,
E soube que o silêncio não bastava mais.

A voz era familiar, doce, calma e tranquila. Era a voz da rainha Sibelanea, sua mãe. A canção que ela cantava ao jovem Lemos quando criança. Após terminá-la, ela sempre dizia que era a história de um príncipe elfo há muito esquecido pela história. Ele escolheu o amor de uma humana e abdicou de sua dinastia para viver no mundo mortal, onde viveu e morreu como eles.

Lemos, naquela época, não conseguia entender o motivo de um elfo querer abdicar de Sylvaris e de todas as bênçãos que o reino élfico derramava sobre seus filhos. O amor era, sim, uma coisa importante, mas deixar sua família e seus amigos daquela forma era uma loucura na cabeça do jovem elfo.

Ele lhe deu versos em línguas esquecidas,
Ela lhe deu o calor de um toque febril.
Duas almas opostas, em pontes erguidas,
No meio do caminho, num campo de abril.
“Meus anos são ventos”, ela disse com dor,
“E os teus são montanhas, meu doce senhor.”

Que caia o brilho das joias eternas!
Eu quebro o feitiço, eu rasgo o véu!
Prefiro um outono em tuas mãos ternas,
Do que mil eras olhando para o céu!

Lemos despertou como se tivesse recebido um choque. Seu rosto estava sobre a terra do pátio, e seu corpo reclamava em vários pontos. O sangue escorria dos ferimentos abertos. Ele arfou uma vez e depois outra, olhou para a frente com os cabelos negros grudados ao rosto e viu toda a destruição causada por eles. O Heilig Bogen em seu pulso vibrava como um alerta.

— Mãe? — disse ele ainda desorientado. — Essa música... Eu não me lembrava mais dela...

Devagar, conseguiu se pôr de pé. Um breve desequilíbrio abateu-se sobre o elfo, que se apoiou em uma pedra próxima. Em seguida, apoiou-se em outra e seguiu pelo pátio enquanto respirava fundo, na esperança de recuperar suas forças aos poucos.

I Gwedh Uireb...? Edhel i vant i ardh Adanath an meleth d'achad? Naneth, man i anírog pedo nin?

(O elo eterno...? Um elfo que foi para o mundo dos homens por amor a outra pessoa? Mãe, o que você quer me dizer?)

🍊🍊🍊

Marcos e Rafai venceram as escadas e chegaram a uma porta congelada. Não haveria como errarem: Max estava do outro lado tentando roubar o grimório de Edu. Os amigos se olharam e Rafai não perdeu tempo, atacando imediatamente. Pedaços de gelo voaram por todos os lados enquanto o paladino já encaminhava o segundo golpe, fazendo a torre tremer. Ele estava perto e usaria toda a sua força para atravessar aquela porta, se fosse preciso.

Do outro lado da porta, bem no meio da torre, Max estava quase conseguindo tocar no grimório quando o abalo do primeiro golpe de Rafai o desconcentrou. Ele olhou para a porta, e o gelo aumentou ainda mais.

— Não vai conseguir ganhar de mim nesse cabo de guerra, paladino. — disse o mago do gelo, voltando-se para a porta.

O segundo impacto foi mais feroz. O gelo trincou dos dois lados, Max foi lançado para trás, batendo contra o corpo de Edu, e os dois foram arremessados para lados opostos da sala. Ele olhou para o bruxo e seu grimório; não poderia se descuidar de nenhum dos dois, pois sabia que agora estava sozinho.

— Maldito gelo! — disse Rafai, ofegante.

— Eu posso te dar uma mão? — a voz de Lemos veio das escadas. O elfo parecia estar esgotado, mas ainda ostentava um sorriso desafiador nos lábios.

— Puta que pariu, você tá um caco também. — Marcos ajudou o amigo a se aproximar.

— É o que acontece com quem aposta a vida. — Lemos riu e reclamou de dor.

— Acha que consegue me ajudar aqui? — perguntou Rafai, averiguando o estado do amigo.

— Sim, mas isso é um trabalho para nós três. — O elfo olhou para os amigos, e Marcos entendeu imediatamente.

— Nem vem, eu sei o que tu quer, mas eu não vou usar o canto difônico para destruir essa barreira de gelo. — Marcos se afastou alguns passos. — Vai deixar vocês surdos a essa distância, ou pior.

— O Edu apostou a vida contra a juíza de Ramo. Que chances nós temos se não apostarmos também? — disse Lemos.

Marcos baixou o olhar mais uma vez.

— Bora. — disse Rafai, animado.

A energia do paladino explodiu e, em seguida, foi a vez da energia de Lemos encher o local. Suas armas brilhavam mais do que nunca com a energia que emanavam. Marcos respirou fundo e acompanhou os amigos; a energia partia de sua garganta e cobria-lhe o corpo todo.

— Explosão dos Gomos Estelares!

A espada de Rafai liberou uma energia dourada contra a muralha de gelo que tentava se recuperar.

— Pil Thorn! (Flecha Perfurante!)

O Heilig Bogen disparou uma energia que se movia como uma broca. Ao acertar o gelo, começou uma poderosa batalha de forças para empurrá-lo.

Marcos tomou a frente, temendo pelos colegas. Sabia que não poderia defendê-los do som, fosse como fosse, mas poderia tentar amenizar os danos, e então abriu a boca, liberando uma poderosa onda sonora em ondas vermelhas.

Tudo o que havia à sua frente foi lançado com violência para longe. As paredes foram obliteradas pela junção do poder dos três amigos. A torre balançou perigosamente, fazendo uma chuva de poeira cair sobre eles e aumentando ainda mais a nuvem que cobria tudo após a explosão da porta.

Os três amigos estavam abaixados junto ao chão, Rafai e Lemos com as mãos tapando as orelhas. Eles sentiam o estômago embrulhado e uma forte sensação de tontura. Seus olhos não captavam as imagens direito; começavam a ver tudo embaçado e tremido, mas não era hora para isso.

Eles venceram a nuvem de poeira e adentraram a torre o mais rápido que conseguiram. Lá viram a cena: a torre desmoronava lentamente, Max estava jogado em um canto, perto de um pilar caído, e Edu estava do outro lado, amparado por uma figura estranha, um homem de roupas pretas, cabelos compridos que lhe caíam sobre o rosto e assustadores olhos felinos vermelhos.

— Tem mais um! — disse Marcos, voltando-se para o homem que estava agachado com o amigo nos braços.

— Eu não sou seu inimigo, tiefling burro! — disse o homem, mostrando suas presas enquanto falava. — A não ser que me mandem ser.

— O cara já veio de arrogância de cara ou foi impressão minha? — Lemos coçou a cabeça, ainda meio tonto.

— Não percam tempo, destruam ele. — O homem apontou para Max, que se levantava com dificuldade.

— O cara tá só o bagaço. — Rafai tentava focar a visão em Max.

— Não muito diferente da gente. — Marcos olhou para os amigos.

— Malditos... Eu deveria ter feito isso de forma mais rápida. — Max começou a andar devagar de costas em direção a uma abertura na parede da torre.

— Nem mais um movimento!

Uma flecha de Lemos acertou Max no joelho, destruindo sua patela e fazendo-o cair sangrando no chão.

Max lançou sobre eles uma poderosa rajada de gelo, mas, naquele instante, Rafai contra-atacou com sua espada, causando uma enorme explosão na torre, abalando ainda mais sua estrutura e jogando todos para algum canto daquele salão em pedaços. Marcos caiu para trás de uma coluna destruída, Lemos foi arremessado para o outro lado, agarrando-se a um pedaço do telhado que havia caído, enquanto apenas Rafai permaneceu de pé com sua espada em mãos.

O mago do gelo, aproveitando-se da situação, jogou-se pela abertura da parede em queda livre para as ruínas de Kaer Meigor, mas não sem antes atacar a torre com um poderoso feitiço de gelo que criou várias estacas gigantescas, atravessando a construção de fora a fora e comprometendo de vez sua estrutura, que já estava bastante danificada.

Antes de tocar o chão, asas de gelo surgiram em suas costas, fazendo-o planar para longe em velocidade surpreendente, deixando aquele castelo velho e amaldiçoado para trás, junto com seu fracasso e a perda de sua equipe de mercenários. Max acreditava que derrota era não viver para lutar outro dia; o que havia acontecido ali era apenas um empate estratégico.

🍊🍊🍊

Os amigos ainda estavam dentro da torre quando ela começou a tombar. Eles não possuíam mais grandes habilidades para se proteger de algo assim. Os olhares de desespero se cruzaram enquanto o mundo caía sobre suas cabeças. Rafai olhou para onde Edu estava e viu aquele homem misterioso encarando-o sem fazer nada, calmo, frio e assustador.

Quando a torre finalmente tombou para a frente, jogando todos na direção de uma parede que antes permanecia de pé, eles sentiram o peso da gravidade por alguns segundos, até que tudo parou de repente e a torre alcançou o chão com uma suavidade quase sobrenatural. Eles não estavam mortos; haviam sido salvos por alguém ou por alguma coisa. Imediatamente, Rafai olhou para o homem, que ainda mantinha os olhos fixos nele. Antes que o paladino pudesse perguntar qualquer coisa, o estranho apenas fez um discreto sinal negativo com a cabeça.

Antes que eles pudessem sair da torre, ouviram um barulho muito alto do lado de fora. Pareciam asas enormes batendo, mas não escutaram mais nada além do som se afastando cada vez mais rápido de onde estavam.

Ao mesmo tempo, Rafai sentiu o peso de tudo o que havia vivido naquela noite cair sobre seus ombros. Os ferimentos, as costelas, tudo. Ele tentou procurar os colegas enquanto seu campo de visão escurecia rapidamente. Lemos, com seus sentidos élficos, percebeu o fim do perigo com rapidez sobrenatural, mas isso teve um preço. Quando seus sentidos finalmente relaxaram, seu corpo entendeu que não precisava mais manter um nível tão elevado de adrenalina e também desligou lentamente, tombando sobre uma pedra lisa.

Marcos andou pelos escombros, escoriado e desorientado, procurando os amigos. Quando avistou aquele homem ainda amparando Edu, respirou fundo e limpou os olhos para ter certeza de que não se tratava de alguma ilusão.

— Ele tá bem? — perguntou o tiefling.

— Sim. — respondeu o homem, seco.

— Maravilha. — Marcos se aproximou, mas o homem o impediu, fazendo seus olhos brilharem de forma ameaçadora. — Eita, calma.

— Não precisa chegar tão perto assim, tiefling. — rosnou ele.

— Acalme-se, é uma ordem. — disse Edu. — Ele é um amigo.

Marcos arregalou os olhos.

— PUTA MERDA! Tu acordou!

— Eu estou acordado há um tempo já. — Edu sentou-se com a ajuda do homem.

— Como assim, Edu... Há quanto tempo? — Marcos sorria sem graça.

— Ah, eu acho que acordei quando vocês "abriram" a porta. — Ele levou a mão até a cabeça, que ainda latejava.

— Seu filho da...

Marcos respirou fundo.

— Viu o perrengue todo e não fez NADA!

Edu pegou seus óculos no bolso e os colocou devagar.

— Considere o início do pagamento da sua dívida comigo. — disse com aquele tom calmo e irritante.

— Início...?

— É!

— Por ter ido para a cadeia? — Marcos ria nervoso.

— Exatamente!

— E quem é esse aí?

— Esse é Azrael, o demônio em forma de gato que me deu meus poderes.

— Então tem um demônio mesmo. — O bardo sentou-se.

— Volte à forma de gato, vai chamar muita atenção assim, seu idiota! — Edu não media palavras nem tentava ser carinhoso, mesmo diante de uma criatura daquelas.

Sem pensar duas vezes, o homem assumiu a forma de um gato preto, que se sentou ao lado de seu mestre em silêncio, apenas encarando o tiefling. Marcos engoliu em seco.

— Agora você vai me explicar tudo sobre como deixou que uns bandidinhos zé-ruela me capturassem, porque isso eu também vou colocar na sua conta, meu amigo. — Edu sorriu de forma maligna.

— Mas só depois que eu tratar de vocês, seus inúteis!

A voz vinha de longe, ecoando pela torre tombada.

A silhueta de uma mulher entrou, acompanhada por vários brutamontes. Não eram mais bandidos, pois quem os liderava era um rosto conhecido daqueles dois: a clériga que havia visitado o inferno com eles em Oakheaven. Ela trazia na mão direita um cajado brilhante, iluminando aquela ruína, e, na mão esquerda, um gato branco peludo de expressão blasé.

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