A guerra das Bergamotas - o elo eterno dos Sindarin.

Edu Kawasashi24/07/2026
A guerra das Bergamotas - o elo eterno dos Sindarin.

Capítulo 05: Então é guerra!

Marcos abriu os olhos devagar no meio da noite. Primeiro sua visão estava embaçada, quando começou a enxergar melhor, viu do lado de fora da carroça a menina Minerva. Ele sorriu para ela de forma amigável, mas ela não devolveu o sorriso, seu rosto estava sério, duro.

Minerva agarrou Marcos pela cauda e o jogou para longe sobre a grama, o tiefling mal teve tempo de agarrar seu alaúde. Quando caiu sobre o solo, sentiu o orvalho contra a pele e uma forte dor no peito, mas, ainda assim, o susto o fez se colocar em pé mais rápido do que ele achava que conseguiria naquela situação.

— Mas que merda é essa, menina? Tá cheia de graça, hein! — o tiefling limpou sua roupa com as mãos conforme pôde.

— Nos entregue o grimório do bruxo que está dentro da carroça. — disse ela.

— Não vai rolar. — Rafai saiu do lado da carroça com sua espada nas mãos, ele claramente era um amontoado de duas ou três Minervas, mas ela não se intimidou.

— Pegaremos pela força, então. — ela investiu contra Marcos.

Rafai tentou fazer algo, mas sentiu um ar gelado sobre as pernas. Ele estava congelado da cintura para baixo e, atrás dele, Max estava parado com um grimório de cor de gelo flutuando ao seu lado, exatamente como o grimório de Edu ficava.

Marcos mal teve tempo de respirar quando Minerva apareceu à sua frente. Ela não era rápida como Lemos, nem fazia movimentos elegantes como os dele, era o completo oposto. Cada passo afundava a grama, cada arrancada parecia um touro investindo contra um portão. O tiefling girou o alaúde nas mãos e tocou uma sequência rápida de acordes, pequenas notas douradas surgiram ao seu redor e voaram contra a garota como pássaros luminosos, porém Minerva simplesmente ergueu o braço diante do rosto e atravessou a magia sem diminuir a velocidade. As notas explodiram sobre sua pele produzindo apenas pequenos clarões. Marcos arregalou os olhos e mergulhou para o lado no instante em que um soco esmagou o tronco da árvore atrás dele, estilhaços de madeira voaram por todos os lados e o tronco inteiro gemeu antes de tombar lentamente floresta adentro.

Rafai tentou libertar as pernas do gelo usando força bruta, seus músculos saltaram sob a pele enquanto a energia dourada corria por seu corpo. Rachaduras surgiram na camada congelada envolvendo suas pernas, mas Max sequer parecia preocupado. O jovem mago fechou calmamente o grimório e outra página virou sozinha, diversos círculos mágicos azulados apareceram ao redor do paladino e lanças de gelo nasceram do chão numa velocidade absurda. Rafai girou o escudo diante do corpo desviando duas delas, partiu outra com a espada e explodiu a quarta usando uma descarga de energia sagrada. Entretanto, uma quinta atravessou sua guarda e raspou seu ombro esquerdo, deixando um corte profundo que congelou imediatamente ao redor da ferida. O paladino sorriu de canto enquanto finalmente quebrava o gelo das pernas com um rugido e avançava feito um aríete na direção do mago.

Marcos escorregou pela grama molhada e voltou a tocar o alaúde, dessa vez o som foi diferente, mais pesado, mais agressivo. O solo abaixo dos pés de Minerva explodiu em raízes grossas que tentaram prender suas pernas enquanto dezenas de pequenas faíscas vermelhas giravam ao redor dela. A garota apenas flexionou os joelhos e saltou. O chão rachou onde ela estava um segundo antes e seu corpo atravessou as raízes como se fossem barbantes velhos, caindo bem diante do bardo. Marcos sorriu amarelo, girou sobre o próprio calcanhar e golpeou o rosto da menina com o alaúde como se fosse um porrete. O instrumento produziu um som horrível quando acertou sua bochecha. Minerva sequer piscou. Apenas virou lentamente o rosto de volta para ele.

— Ah... essa parte eu realmente não esperava.

Ela respondeu segurando o alaúde pela madeira.

— Eu esperava.

Com apenas uma mão, arrancou o instrumento das mãos de Marcos e o arremessou para longe. O alaúde girou pelo ar e desapareceu entre as árvores.

Rafai finalmente alcançou Max. A espada do paladino desceu envolvida em luz dourada capaz de partir um homem ao meio, mas o mago simplesmente desapareceu numa névoa branca. A lâmina atravessou apenas cristais de gelo que explodiram em milhares de partículas brilhantes. O frio aumentava rapidamente, cada respiração produzia uma nuvem espessa de vapor e pequenas camadas de gelo começavam a cobrir o escudo do paladino. Max reapareceu vários metros atrás dele, caminhando tranquilamente enquanto novas páginas do grimório eram folheadas pelo vento.

— Você é forte... mas força nunca venceu o inverno.

As árvores ao redor começaram a estalar.

Rafai percebeu tarde demais.

Galhos inteiros congelaram e despencaram como lanças gigantescas. O paladino ergueu o escudo para suportar o impacto, depois outro, depois outro. A floresta inteira parecia atacá-lo. A cada golpe sua postura recuava alguns centímetros, até que Max ergueu apenas um dedo e enormes correntes de gelo surgiram do solo, enrolando-se no escudo, na espada e em seus braços. Rafai tentou rompê-las à força, seus músculos tremiam enquanto a energia dourada queimava sobre sua pele. Várias correntes estouraram, mas outras nasciam imediatamente em seus lugares.

Enquanto isso, Marcos corria desesperadamente entre as árvores sendo perseguido por Minerva. Ela atravessava troncos com os ombros, quebrava pedras com os pés e arrancava pequenos arbustos inteiros apenas passando por cima deles. O tiefling começou a cantar alto enquanto estendia a mão para trás. Ilusões surgiram por toda a mata. Cinco Marcos diferentes apareceram correndo em direções distintas. Minerva diminuiu o passo pela primeira vez.

Ela olhou para um.

Depois para outro.

Respirou fundo.

Fechou os olhos.

E simplesmente escutou.

Quando tornou a abri-los, correu exatamente na direção do verdadeiro.

— Tá de sacanagem…

Marcos nem terminou a frase. O primeiro golpe acertou seu estômago como uma carroça desgovernada. O tiefling saiu do chão, bateu contra uma árvore e quicou sobre outra antes de conseguir respirar novamente. Mesmo assim, ainda sorriu.

— Eu... definitivamente... prefiro apanhar do Edu…

Minerva já estava outra vez diante dele.

Rafai soltou um rugido ensurdecedor. A energia dourada explodiu ao seu redor, rompendo quase todas as correntes, e ele lançou o escudo como um disco contra Max. O mago ergueu uma muralha de gelo para bloquear o ataque, mas o escudo atravessou duas camadas antes de perder velocidade. Rafai aproveitou a abertura e investiu novamente. Pela primeira vez, Max precisou desviar. O paladino sorriu satisfeito e continuou pressionando, espada após espada, golpe após golpe, obrigando o mago a recuar entre as árvores.

Então o grimório brilhou.

Todo o chão sob Rafai tornou-se gelo liso.

O paladino perdeu o apoio por apenas um instante.

Foi o bastante.

Uma coluna de gelo surgiu bem abaixo dele e o lançou para cima. Antes mesmo de começar a cair, dezenas de correntes congeladas envolveram seu corpo por completo. Max ergueu a mão e fechou lentamente os dedos.

As correntes apertaram.

O ar fugiu dos pulmões do paladino.

O escudo caiu de sua mão.

Marcos conseguiu recuperar o alaúde caído entre os arbustos e tocou a nota mais alta que conseguia produzir. Uma onda sonora explodiu contra Minerva, empurrando-a vários metros para trás, arrancando árvores menores do chão e espalhando folhas por toda a clareira. O bardo respirou aliviado por um segundo.

Então a poeira baixou.

Minerva saiu caminhando no meio da fumaça.

Seu nariz sangrava um pouco.

Era tudo.

— Você bate forte. — ela sorriu pela primeira vez. — Agora é a minha vez.

O soco veio de baixo para cima.

Marcos nem viu.

Seu corpo girou no ar como um boneco e caiu desacordado vários metros adiante, ainda segurando parte do alaúde quebrado.

Ao mesmo tempo, Rafai rompeu uma das correntes com um esforço absurdo, mas outra serpenteou seu pescoço enquanto duas prenderam seus braços. Max aproximou-se lentamente.

— Durma.

Um único golpe com o cabo do grimório atingiu a testa do paladino.

Rafai caiu de joelhos.

Tentou levantar mais uma vez.

Sorriu, mesmo derrotado.

E tombou sobre a grama congelada.

O silêncio tomou conta da floresta. Minerva caminhou até a carroça enquanto Max desfazia lentamente toda a magia de gelo ao redor. Os dois olharam para Edu deitado entre os cobertores. O grimório flutuava sobre seu peito, preso por correntes de energia violeta que saíam do próprio corpo do bruxo.

Minerva segurou o livro pelas capas e puxou.

Nada.

Max tentou envolvê-lo com magia.

As correntes violetas apenas brilharam mais forte.

— Eu imaginei. — disse ele.

— Então levamos os dois.

Os dois ergueram Edu ainda abraçado ao grimório. As correntes de energia acompanharam naturalmente o movimento, como se o livro fosse parte do próprio corpo do bruxo. Nenhuma magia, nenhuma força e nenhum esforço conseguiam separar um do outro.

Sem olhar para trás, Minerva e Max desapareceram pela mata carregando o bruxo, deixando apenas o silêncio da floresta e os corpos desacordados de Rafai e Marcos iluminados pelas brasas da fogueira que lentamente se apagava.

🍊🍊🍊

Os sentidos de Lemos começaram a retornar depois de um certo tempo, ele ainda estava tonto e sua cabeça girava. Primeiro ele sentou-se devagar e respirou fundo, sentindo o ar gelado da noite encher seus pulmões e a sensação gostosa que vinha a seguir quando ele se lembrava da sua infância e das caçadas noturnas nas Florestas Eternas, nos pampas élficos e nas Montanhas de Cabeça para Baixo.

Quando se levantou, sentiu as pernas pesadas, mas elas não tinham escolha a não ser se mover. Ele precisava deter Otto a todo custo. Os ferimentos da batalha ainda doíam bastante e isso iria incomodar por alguns dias, pelo que ele podia diagnosticar naquele momento, mas tudo aquilo deveria ficar em segundo plano a partir de agora, pois seus amigos poderiam estar em sérios problemas.

O elfo atravessou aqueles arbustos com a velocidade que um corpo ferido dispunha naquele momento, só para ver seus amigos caídos na grama, feridos. Ele foi até Marcos primeiro, o amigo estava machucado, o rosto estava ferido e o alaúde estava quebrado, mas ele ainda estava vivo. Depois foi até Rafai, ele estava menos ferido e seu corpo estava mais frio do que o normal. Rapidamente, foi até a fogueira, que estava quase apagada, jogou mais alguns pedaços de madeira lá dentro e, com dificuldade, arrastou Rafai para perto. O amigo iria se esquentar e, a julgar pelos ferimentos, estaria de pé rapidamente.

Quando Lemos olhou dentro da carroça, seu estômago pesou com o susto. Edu não estava mais lá, mas o que havia acontecido? Ele foi levado? Acordou e resistiu ao ataque? Não havia nenhum sinal de luta com magia ali, apenas um frio um pouco mais denso no ar, que ele sentia se dissipar devagar, provavelmente magia, a mesma que feriu Rafai.

O ranger pegou sua mochila e foi até Marcos. Com água e um pedaço de pano, limpou os ferimentos do tiefling e fez alguns curativos improvisados no amigo enquanto insistia em chamá-lo de tempos em tempos, na tentativa de acordá-lo, até o momento sem sucesso algum.

Passaram-se algumas horas e o sol estava nascendo, seus raios já passavam pelas árvores e atingiam o acampamento, deixando ainda mais evidentes as marcas de combate para olhos não treinados ou como os de Lemos, que ignoravam a escuridão. Rafai começou a se mover devagar enquanto estava deitado no chão, abriu os olhos e viu aquela manhã nascendo bem à sua frente. Nuvens brancas e gordas deslizavam vagarosamente pelo céu da manhã, ele sentia dores pelo corpo e dificuldade de se lembrar com exatidão dos acontecimentos.

— Onde eles estão? — perguntou Rafai, sem perceber Lemos um pouco mais afastado.

— Eles já se foram, e o Edu sumiu também. — o ranger começou a andar na direção do amigo. — Eles são poderosos, fiz o possível, mas não consegui vencer também.

— Deixa disso, amigo. — Rafai tentou se colocar sentado, Lemos o auxiliou. — Estamos vivos para lutar um novo dia, é o que importa. — ele suspirou. — E levaram o Edu… Quanto será que eles querem para ficar com ele lá?

Os dois riram brevemente, sentindo as dores da batalha, bom humor era um sinal bastante positivo naquele momento.

De repente um grito, um grito que agitou o acampamento.

— MEU ALAÚDE!

— Calma aí. — Lemos foi até o amigo.

— Aquela menininha, cara! — Marcos andava de um lado para o outro. — Eu apanhei para uma menininha.

— Não fica assim, nós sabemos que não foi a primeira vez. — Lemos tentava acalmar o amigo, mas aparentemente sem sucesso algum.

— Temos que nos acalmar, bolar um plano e ir atrás deles o mais rápido possível. — disse Rafai.

Lemos pegou Marcos pelo braço, levou-o para perto da fogueira e o colocou sentado ao lado de Rafai.

— Fomos esmagados? Sim, fomos! — disse o paladino. — Mas também fomos pegos de surpresa por eles, não estávamos preparados e não conseguimos nos adaptar aos poderes dos nossos inimigos, então, antes de irmos atrás deles e recuperarmos o Edu, temos que bolar algum tipo de plano com base no que nós sabemos.

— Levaram o Edu? — Marcos perguntou espantado. — Bem que ela disse que eles queriam o grimório dele.

— Beleza, já sabemos o que eles queriam. — Lemos coçou a cabeça. — Mas aquele livro jamais saiu do lado do Edu por um segundo, eles não teriam como pegá-lo, muito menos abri-lo.

— Eles sabem disso, por isso precisam de um local próximo e seguro para testarem todo tipo de coisas. — Rafai pensou bem. — Deve haver uma caverna, ruína ou coisas parecidas por essa região.

— Acho que tem algo assim mesmo, preciso do meu mapa e posso dizer com mais certeza para vocês. — Marcos se levantou devagar, sentindo o peso dos ferimentos, respirou fundo e foi até a carroça procurar seu mapa.

🍊🍊🍊

Antes das oito da manhã, eles estavam todos prontos para seguir caminho atrás dos desgraçados que os haviam atacado e levado seu amigo. Marcos ia guiando a carroça, Lemos ao seu lado e Rafai do lado de dentro preparando suas armas. Marcos havia contado aos amigos que, antes de saírem da floresta seguindo em direção à Torre de Vinha, eles encontrariam uma velha ruína da época em que essa parte do reino ainda era território de Valdoren. Lá havia muros e torres esquecidas e destruídas pela Guerra da Fronteira, travada há uns cinquenta anos, mais ou menos. Era o local mais próximo que alguém poderia usar como base sem ser percebido pelos passantes da estrada, já que tudo ao redor havia virado floresta.

— Vamos ter que deixar a carroça mais afastada e seguir a pé por uma boa parte do terreno, mas logo chegaremos e acredito que eles não nos esperam tão cedo assim. — disse Marcos.

— Você tem um ponto quando pensa que eles não estão nos esperando tão cedo assim, mas, por outro lado, nós ainda não tivemos tempo para recuperar nossas forças depois da última luta. — Lemos suspirou olhando o Heilig Bogen em seu pulso esquerdo.

— Nós só temos uma chance. — disse Rafai. — Vamos botar para foder.

— Então é guerra! — disse Marcos.

🍊🍊🍊

As ruínas de Kaer Meigor estavam completamente imersas em vegetação havia muitos anos, tantos que os homens já nem se lembravam exatamente do motivo de a Guerra da Fronteira ter começado. Só sabiam que aquela fortificação pertencia ao reino dos comerciantes e foi tomada pelo rei daquela época, Berian II, o Conquistador. As lendas diziam que ele era um gênio militar e que já se interessava por estudos de guerra e estratégia desde muito pequeno, já que era neto do rei Boros, o que Tudo Sabia.

Mas, naquele momento, as ruínas estavam sendo habitadas por elementais de gelo de diversos tamanhos que patrulhavam os arredores e algumas áreas internas que Max julgou estarem menos protegidas. Afinal de contas, eles precisavam de segurança para tentar remover o grimório das mãos de Edu.

— Nada ainda? — perguntou Otto, subindo os poucos degraus para uma câmara enorme que ficava no alto de uma das poucas torres ainda de pé que resistiram à passagem do tempo em Kaer Meigor.

— Nada! — Max estava começando a ficar irritado. — Não deveria ser tão difícil assim, mas há algo nele que simplesmente não quer soltar.

— Sabe que dizem que ele fez um pacto com uma criatura das sombras, né? — Otto limpou a garganta para continuar, parecia muito empolgado com esse rumor. — E se for isso?

— Se for isso, meu amigo, estamos ferrados. — Max respirou fundo para continuar. — Acontece que, para que algo assim seja subjugado e possamos acessar o grimório dele, temos que ter permissão ou ser mais poderosos do que essa criatura das sombras. Caso ele tenha feito mesmo esse pacto, podemos morrer ao tentar tirar esse livro dele.

Otto circulou o corpo do bruxo observando-o.

— Ele parece tão enfraquecido, como ainda pode ter tanta força? — o homem parou e analisou os ferimentos do bruxo. — Acho que podemos entender que há alguma coisa estranha dentro dele. Olhe essas correntes de energia, o seu grimório nunca esteve tão ligado a alguém quanto este parece estar ao bruxo.

— É por isso que estou tentando te explicar que esse cara é problema. — Max olhou para cima, vendo parte do telhado ainda de pé e, na outra parte, os raios de sol iluminando o lugar de forma quase etérea.

Minerva chegou em seguida com sua capa cobrindo seu pequeno corpo por inteiro. Ela parou assim que subiu os degraus da câmara e olhou para os companheiros, depois para o bruxo adormecido. Seus passos ecoaram até ela se aproximar dos dois homens que estavam ali em pé.

— Perímetro seguro, os elementais estão bem espalhados e não há sinais dos companheiros dele. — ela tentou tocar no grimório, mas Max impediu a amiga. — Não acho que eles conseguiriam viajar tão rápido quanto nós sem um selo de transporte... Mas pense em uma coisa, Max: eles chegarão, mais cedo ou mais tarde.

— E quando eles vierem, nós os derrotaremos, dessa vez de forma definitiva. Essas são as minhas ordens. — ele sorriu para os companheiros.

🍊🍊🍊

As ruínas de Kaer Meigor repousavam silenciosas no coração da fronteira, quase completamente devoradas pela floresta. Árvores gigantescas rompiam muralhas centenárias, raízes serpenteavam entre pedras outrora perfeitamente talhadas e heras cobriam torres que um dia desafiaram o próprio horizonte. Cascatas desciam pelos antigos salões da fortaleza, enquanto o vento atravessava janelas sem vidros, carregando um lamento que parecia ecoar as vozes de uma guerra esquecida.

Muito antes de se tornar um monumento ao abandono, Kaer Meigor foi uma das maiores fortalezas do reino dos comerciantes. Erguida para proteger as rotas mercantis que ligavam o continente, suas muralhas eram consideradas praticamente inexpugnáveis. Ali cruzavam caravanas carregadas de ouro, especiarias, sedas, armas e conhecimentos vindos dos quatro cantos do mundo.

Tudo mudou quando Berian II, conhecido pela história como o Conquistador, voltou seus exércitos para aquelas terras. Neto do lendário rei Boros, chamado de O que Tudo Sabia, Berian estudava estratégia militar desde a infância e transformou esse conhecimento em campanhas brilhantes que redefiniram o mapa do continente. A tomada de Kaer Meigor foi considerada uma de suas maiores obras-primas militares, encerrando décadas de domínio comercial sobre a região e incorporando definitivamente a fortaleza ao seu reino.

Os séculos, porém, foram impiedosos. O tempo venceu onde nenhum exército conseguiu. Sem manutenção, as muralhas ruíram, as torres desabaram e a natureza reclamou cada pedra daquele lugar. Ainda assim, caminhando entre suas ruínas, era impossível não sentir que Kaer Meigor continuava viva. Cada corredor coberto de musgo, cada arco quebrado e cada escadaria tomada por raízes pareciam guardar lembranças de soldados, reis e batalhas que o mundo insistia em esquecer.

Dizia-se que nenhuma fortaleza conquistada por Berian II carregava tanto de sua genialidade quanto Kaer Meigor. Talvez por isso, mesmo reduzida a ruínas, ela ainda inspirasse respeito. Não como um castelo morto, mas como um velho guerreiro que, mesmo vencido pelo tempo, jamais perdeu sua majestade.

E era à frente desse enorme castelo em ruínas que se encontravam três aventureiros cansados, feridos, mas obstinados a retomar o amigo capturado, motivados a botar abaixo todo aquele velho esqueleto que um dia foi um dos castelos mais importantes de um reino que se viu obrigado a recuar.

— Muito bem, eu tenho um plano. — Marcos estalou o pescoço.

— Nem vem. — Rafai e Lemos disseram ao mesmo tempo.

— Nossos inimigos devem estar esperando nossa chegada, temos que fazer tudo, menos o óbvio. — Rafai olhava aquelas muralhas recebendo os raios de sol do final da tarde.

— O que quer dizer com isso? — perguntou o tiefling.

— Não devemos agir com estratégias levianas. Eu vou entrar quebrando tudo, vocês venham logo atrás de mim e depois se separem para termos mais chances de encontrar o Edu.

— Eu sinto um arrepio estranho, uma sensação de magia das trevas vindo lá de dentro. — Lemos usou seus olhos élficos e mirou na torre no meio do castelo. — Eu acredito que estejam mantendo ele lá.

— Perfeito, precisamos de um ponto de partida. — Rafai pegou o escudo das costas e desembainhou a espada. Ambos brilharam como o sol do meio-dia, emanando uma aura poderosa e dourada.

O paladino desatou em uma correria e atravessou os portões do castelo, jogando-os a metros de distância no pátio principal da grande construção. Ao perceber os inimigos vigiando aquela área, ele sorriu. Eram elementais de gelo. Gelo, a magia de Max. Ele deveria estar por perto, afinal de contas, os elementais não poderiam manter grandes distâncias de seu conjurador.

— Toc, toc. — disse ele com um sorriso no rosto. — VAMOS À FORRA!

O grito do paladino transmitiu sua aura aos amigos, deixando-os mais confiantes, e foi quando os dois pularam para dentro do castelo que os elementais voaram para cima deles todos de uma vez. Eram cerca de vinte elementais de todos os tamanhos e formas, desde os mais encorpados até aqueles que pareciam homens de gelo desengonçados correndo.

Lemos não perdeu tempo quando a luz verde do Heilig Bogen explodiu em seu pulso enquanto uma saraivada de flechas voava contra os inimigos em altíssima velocidade.

— Ross Calad! (Chuva de Luz!) — gritou o arqueiro enquanto disparava um número ainda maior de flechas contra os inimigos, atingindo também as estruturas do castelo, como se fossem centenas de pontos verdes rasgando o pátio.

Quando a poeira daquele ataque massivo baixou, apenas Rafai estava no pátio do castelo, correndo adiante e atravessando os portões internos da enorme construção de pedra, entrando rapidamente no castelo.

🍊🍊🍊

Max sentiu quando perdeu a conexão mágica com seus elementais do pátio principal. Ele rapidamente olhou para os amigos, e eles entenderam o que estava acontecendo ali: a invasão havia começado, e eles não haviam obtido sucesso algum em tirar o grimório das mãos do bruxo. Era frustrante, mas, ainda assim, Max estava confiante na força dos companheiros. Porém, ele sabia que, assim que eles passassem pela porta da torre, estariam em menor número, já que ele não poderia deixar a câmara enquanto o grimório ainda estivesse com Edu.

— Vão! Não façam prisioneiros e tomem cuidado, pois é perto do fim que o jogo se torna mais perigoso. — disse Max, voltando sua atenção para o bruxo.

Os companheiros correram porta afora, trancando-a. Max, por sua vez, congelou a porta e a própria pedra ao redor por dentro. Ninguém entraria ali facilmente agora.

🍊🍊🍊

Otto caminhou devagar pelo pátio destruído de Kaer Meigor enquanto girava a espada entre os dedos, como se o peso daquela lâmina simplesmente não existisse. Seus olhos encontraram Lemos do outro lado das ruínas, e um sorriso discreto surgiu em seu rosto ao reconhecer o elfo. Era impossível esquecer alguém que havia conseguido sobreviver por tanto tempo lutando contra ele naquela mesma madrugada. O vento atravessava as muralhas quebradas, levantando poeira e folhas secas, enquanto os dois permaneciam imóveis durante alguns segundos, estudando um ao outro como predadores que já conheciam exatamente as presas que tinham diante de si. Otto respirou fundo antes de apoiar a espada sobre o ombro. — Então você voltou... Achei que ainda estivesse juntando os ossos. Lemos sorriu de canto enquanto ajustava lentamente o bracelete do Heilig Bogen sobre o pulso. — Você bate forte... mas não o suficiente para me convencer a ficar deitado.

Otto riu alto. A gargalhada ecoou pelas construções destruídas e, antes que qualquer outra palavra pudesse ser dita, o chão explodiu sob seus pés. Lemos desapareceu exatamente como havia feito na primeira luta, mas, dessa vez, Otto sequer moveu os olhos tentando acompanhá-lo; apenas girou o corpo inteiro e desferiu um golpe horizontal tão violento que o deslocamento de ar arrancou pedras do chão e despedaçou uma coluna inteira atrás dele. A flecha que vinha em direção ao seu rosto foi destruída pelo vento do próprio golpe, e Lemos reapareceu já saltando sobre uma parede parcialmente destruída, disparando outras três flechas quase ao mesmo tempo, enquanto utilizava o impulso da muralha para trocar completamente de direção antes mesmo que os projéteis chegassem ao alvo. Otto girou a espada uma única vez, desviando duas delas, mas a terceira raspou sua bochecha, deixando um filete de sangue escorrer lentamente por seu rosto. Ele levou os dedos até o corte, observou o próprio sangue e voltou a sorrir.

— Agora sim... você resolveu lutar. — disse Otto, satisfeito.

Lemos não respondeu. Seu corpo parecia incapaz de permanecer parado. Cada pedra caída, cada tronco partido e cada pedaço das muralhas serviam como apoio para novos impulsos. Ele corria pelas paredes, atravessava janelas sem sequer diminuir a velocidade, utilizava colunas inclinadas como trampolins e desaparecia antes mesmo que Otto terminasse um movimento, enquanto dezenas de flechas de energia surgiam continuamente em suas mãos, obrigando o espadachim a defender ataques vindos de todas as direções. Durante a primeira luta, Otto havia tentado perseguir o elfo e falhado miseravelmente; agora, ele simplesmente permanecia parado no centro do campo, observando atentamente a movimentação, esperando que algum padrão surgisse. Era exatamente isso que Lemos queria evitar. Nenhum salto era igual ao anterior, nenhuma flecha partia da mesma posição, nenhum ataque vinha no mesmo ritmo, como se o próprio vento tivesse decidido lutar ao lado do arqueiro.

Otto fechou os olhos por um breve instante, respirou fundo e, ao abri-los novamente, mudou completamente sua estratégia. Em vez de tentar atingir Lemos, passou a destruir tudo ao seu redor. Sua espada atingiu uma das torres já danificadas, e a construção inteira desabou sobre o campo de batalha. Outra muralha caiu logo em seguida, depois uma escadaria, depois uma varanda de pedra que ainda permanecia de pé desde os tempos antigos de Kaer Meigor. Em poucos segundos, o terreno inteiro havia se transformado em um labirinto de destroços, eliminando quase todos os pontos de apoio que Lemos utilizava para manter sua velocidade absurda. O elfo percebeu imediatamente a intenção do adversário e sorriu consigo mesmo. — Então você aprendeu...

As flechas continuaram voando, mas agora os movimentos exigiam muito mais precisão. Um salto errado significaria pousar sobre pedras instáveis ou acabar cercado pelos próprios escombros. Otto finalmente enxergou aquilo que esperava desde o início. Não olhou para Lemos. Olhou para a única pedra firme onde ele inevitavelmente pisaria após desviar de uma coluna em queda. O golpe veio antes mesmo que o elfo aterrissasse. A espada acertou o chão com violência, levantando uma explosão de rochas que engoliu completamente o arqueiro. Lemos ainda tentou mudar o corpo no ar, mas um fragmento enorme de pedra atingiu seu ombro, enquanto a onda de impacto o lançou dezenas de metros adiante. Seu corpo atravessou uma casa abandonada, rompeu duas paredes e só parou ao colidir contra um velho campanário, que desabou sobre ele.

O silêncio durou apenas alguns segundos. Das pedras surgiu uma gargalhada baixa, acompanhada de sangue escorrendo pelos lábios. Lemos empurrou parte dos escombros com dificuldade. Seu braço esquerdo tremia, e o ombro praticamente não respondia mais, mas seus olhos continuavam fixos em Otto.

— Agora ficou divertido... — Otto apoiou novamente a espada sobre o ombro. — Você continua sorrindo... isso é irritante.

O elfo limpou o sangue da boca com o antebraço e tornou a desaparecer, mas, dessa vez, Otto já não tentava acompanhá-lo visualmente. Ele escutava o vento. Escutava a respiração. Escutava passos quase imperceptíveis sobre pedras quebradas. Quando uma flecha veio pela direita, ele sequer virou o rosto; apenas moveu a espada para trás e a partiu ao meio. Outra veio por cima. Outra por baixo. Outra atingiu sua perna. Outra atravessou sua capa. Outra acertou exatamente o mesmo corte aberto anteriormente na bochecha, arrancando mais sangue. Otto ignorou completamente a dor e avançou numa velocidade muito maior do que havia demonstrado antes. Pela primeira vez, Lemos viu aquele homem desaparecer.

O impacto aconteceu antes mesmo que pudesse reagir. Um punho atingiu seu abdômen como se uma muralha inteira tivesse sido arremessada contra ele. O ar desapareceu de seus pulmões, e seu corpo dobrou antes de voar por dezenas de metros, quicando sobre o chão de pedra como uma boneca de pano. Mesmo assim, antes de parar completamente, ele fincou uma flecha no solo, usando-a como apoio para recuperar o equilíbrio e voltar imediatamente ao combate. Otto não lhe deu tempo. Os dois colidiram no centro das ruínas, trocando golpes em uma velocidade absurda. O espadachim atacava como um terremoto vivo; cada golpe destruía parte do cenário, enquanto Lemos serpenteava entre a lâmina, passando por baixo dela, apoiando um pé no próprio braço do inimigo, girando sobre seus ombros e respondendo com cotoveladas, joelhadas, chutes e disparos de flechas praticamente à queima-roupa. Nenhum dos dois conseguia abrir vantagem. O sangue começava a marcar o chão por onde passavam.

Depois de vários minutos lutando naquele ritmo desumano, Lemos percebeu algo que havia escapado durante o primeiro confronto. Otto sempre reposicionava discretamente o pé esquerdo antes dos ataques mais fortes. Era um movimento mínimo, quase imperceptível, necessário para descarregar toda a força do quadril na espada. O elfo passou a provocar exatamente aquele golpe, fingindo abrir brechas e obrigando Otto a repetir o mesmo preparo diversas vezes. O espadachim percebeu tarde demais que estava sendo estudado da mesma maneira que estudara Lemos.

Quando Otto finalmente ergueu a espada para o golpe que encerraria a batalha, Lemos não recuou. Pelo contrário. Avançou diretamente contra a lâmina. Otto sorriu, acreditando que finalmente havia encurralado o arqueiro, mas, naquele instante, o Heilig Bogen brilhou intensamente. Em vez de disparar uma flecha contra o inimigo, Lemos cravou uma flecha de energia no chão ao lado de Otto e utilizou o arco como apoio para girar completamente sobre o próprio corpo, passando por cima da espada numa manobra impossível. Antes que Otto pudesse se virar, três flechas atingiram exatamente os cortes abertos minutos antes em seu ombro, na perna e na bochecha, ampliando todas as feridas acumuladas durante a luta. Otto ainda tentou responder com um soco, acertando o rosto do elfo em cheio, mas sua perna falhou pela primeira vez. O joelho dobrou.

Os dois permaneceram alguns segundos respirando pesadamente, cobertos de sangue, incapazes até mesmo de levantar a guarda. Otto sorriu enquanto tentava firmar o corpo novamente.

— Você... aprendeu rápido demais...

Lemos respirou com dificuldade, quase sem conseguir manter os olhos abertos.

— Não... eu só precisava sobreviver tempo suficiente para entender você.

Otto deu mais um passo, tentou erguer a espada outra vez, mas as pernas finalmente cederam. Caiu de joelhos, ainda sorrindo, antes de tombar completamente sobre as pedras destruídas de Kaer Meigor. Lemos permaneceu em pé apenas por alguns instantes, observando o rival caído, até sentir as pernas falharem também. Antes de perder a consciência, olhou para o céu e murmurou entre um sorriso cansado:

— Dessa vez... foi por muito pouco, Edu... aguenta aí só mais um minutinho.

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