A guerra das Bergamotas - o elo eterno dos Sindarin.

Edu Kawasashi21/07/2026
A guerra das Bergamotas - o elo eterno dos Sindarin.

Capítulo 04: A estrada para Luarado.

Na manhã seguinte, Rafai entrou no celeiro carregando seu escudo, que havia deixado com o ferreiro no dia anterior. Ele o colocou na carroça e olhou mais adiante. Marcos começava a recolher suas coisas e colocá-las em sua mochila, e Lemos estava sentado na parte superior do celeiro, afiando uma pequena faca. O elfo tinha uma visão privilegiada daquele ponto, inclusive do amigo desacordado no monte de feno do outro lado.

Rafai parou próximo a Edu, respirou fundo. Os ferimentos estavam fechados, e as bandagens em seu corpo deixavam ainda mais visíveis as marcas da batalha, mas ele sentia que o amigo estava esgotado, sem falar na energia sinistra que percebia rodeando o bruxo. Não havia mais o que pudessem fazer; teriam que esperar que ele acordasse, uma hora ou outra.

— Gente, eu acho que sei o que pode funcionar para acordar o Edu. — disse Marcos, trazendo sua mochila.

— Nem vem. Suas ideias deixaram o Edu assim. Não deveria ter cantado aquela música na taverna. — Lemos saltou e caiu como uma pluma logo atrás do bardo infernal. — Suas ideias estão suspensas até ele acordar.

— É sério. — Marcos guardou a mochila na carroça. — Tem uma amiga minha. Ela é clériga, conhece o Edu também… Acho que ele aceitaria a ajuda dela.

— Você é o único que definitivamente não sabe o que o Edu faria em qualquer situação. — Rafai riu, subindo na parte traseira da carroça para organizar as bagagens.

— Vocês esquecem que eu conheço o Edu há bem mais tempo? Duvido que vocês saibam disso por ele, mas estivemos em Oakheaven juntos.

Lemos e Rafai pararam.

— O Edu esteve em Oakheaven? — perguntou o elfo. — Ele nunca disse nada.

Lemos virou-se para trás e encarou o bruxo desacordado com uma expressão de surpresa.

— Essa é nova. Mas o que o Edu fala a respeito da vida dele, afinal de contas? Eu não me surpreenderia se ele fosse casado ou algo do tipo.

Marcos riu.

— O Edu não parece o tipo que se casa, tem filhos, casa com cerca branca e tal. — Lemos coçou o queixo, tentando imaginar.

— Se liguem, essa minha amiga está na cidade de Luarado. É um pouco longe, mas, se sairmos logo, podemos pegar uma boa estrada até lá e chegar rapidinho para ela curar o Edu. — O bardo já estava colocando seu alaúde nas costas e se preparando para começar a jornada. — Bora, gente! Ou vocês têm uma ideia melhor? — ele sorriu daquela forma apocalíptica.

— Foi assim que concordamos em tentar tirar ele da cadeia e fomos parar diretamente nos braços da juíza? — Rafai falou de dentro da carroça.

— Rafai, você está tentando me magoar? — Marcos já estava sentado à frente da carroça. — O que eu sei é que ninguém aqui tem uma ideia melhor. Coloquem o Edu na carroça.

— Pobre Edu, dessa vez ele vai pro saco. — Lemos suspirou.

— Me ajuda aqui, Lemos. — disse Rafai, indo até o bruxo desacordado. — Vamos embarcar nessa insanidade mais uma vez e ver no que dá.

Antes que os três pudessem partir, um anão entrou no celeiro. Ele carregava algumas sacolas consigo. À primeira vista, parecia mais deslocado do que qualquer um dos presentes, mas bastou um olhar mais adiante para que entendesse tudo. O bruxo desacordado nos braços do paladino foi suficiente para ele dar um leve sorrisinho de canto de boca.

— Então ele deu uma lição daquelas na juíza… Confesso que achei que era fofoca desse povo. — ele riu em alto volume. — Bruxo filho da mãe, cara. Quem poderia imaginar que um filézinho de borboleta desses aí ganharia daquele brucutu?

— Mas ele ganhou, companheiro. — Marcos lançou um olhar irritado para o anão. Ele sabia que o amigo jamais admitiria que alguém que não conhecesse falasse naquele tom com eles. Edu era muitas coisas ruins, mas jamais admitia falta de educação. — Fala aí, tá procurando o quê, meu amigo pequetucho?

O anão bufou, andando até a carroça. Levantou a mão, deixando um saco de coisas com Marcos. Pelo som, havia objetos de vidro lá dentro, no meio de tantas outras coisas. Marcos olhou para aquele saco de bugigangas de bruxo e imaginou que ali deveriam haver ingredientes para suas poções e experimentos malucos que vivia fazendo por aí.

— O bruxinho havia me pedido umas paradas. Tá tudo aí. Tenham cuidado, pelo amor de Deus. Não quero que a reputação da minha loja caia por descuido de um troglodita chifrudo igual você, amigo.

— Ah, mas o troglodita tá ali. — Marcos apontou para Rafai, que, com a ajuda de Lemos, colocava Edu deitado dentro da carroça, com as roupas esfarrapadas e ataduras pelo corpo.

— Imbecil, eu sou poliglota, não troglodita. — gritou Rafai lá de trás da carroça.

— E não é tudo a mesma coisa? — Marcos olhou para trás. — Poderia jurar que sim.

O anão pegou um charuto de dentro da roupa e o acendeu, olhando aquela cena patética entre os companheiros. Deu uma baforada e soltou a fumaça devagar, como se esperasse algo acontecer ali. Um breve olhar foi suficiente para que visse o estado do bruxo. Ele imaginava o terror daquela luta que destruiu o chão da praça, afundando tudo direto na Câmara da Justiça, como era chamado aquele local.

— Olha, eu não deveria dizer isso, ainda mais por causa de esse seu amigo ser um babaca de primeira, mas, apesar de tudo, acho que ele vai dar uma baixada na bola daquela juíza arrogante e cri-cri. — o anão deu uma risada breve. — Foi do caralho. Em Ramo não acontece nada, jamais. Mas o que tenho a dizer para vocês, meus amigos, é que retornem logo. Essa porcaria de cidade vai ficar bem parada.

Marcos deu um largo sorriso para o anão e lhe estendeu a mão do alto da carroça. O anão o cumprimentou e seguiu seu rumo, baforando o charuto de barba de basalto, com seu cheiro de pedra quente, café torrado e madeira queimada.

🍊🍊🍊

Na manhã seguinte, a estrada para Luarado era longa, e fazia apenas uma hora de viagem quando Marcos começou a cantar seus maiores sucessos, segundo ele: A Feijoada de Dragão da Dona Nenê, Sönya, Haja Amor e Folia no Matagal. Rafai estava contando as folhas nas copas das árvores, e Lemos, dentro da carroça, lia um dos livros de poções de Edu enquanto mantinha vigília constante sobre o amigo desacordado.

Se Edu estivesse acordado naquele momento, já teria feito o que constantemente fazia: enfeitiçaria uma vassoura qualquer e voaria ao lado da carroça para evitar a cantoria do amigo por pelo menos algum tempo, ou ofereceria alguma bebida ao bardo com propriedades que o deixassem com sono. Certa vez, Marcos cantou de Porto Rubro até Pedregor, que fica bem depois de Auravéria, a capital do reino, e foi nesse momento que Edu achou interessante oferecer a ele um gole de uma bebida que cheirava muito bem, mas que, ao final de tudo, fez Marcos dormir por três dias a fio. O bruxo nega até hoje ter pesado a mão na poção e insiste que os efeitos já eram esperados.

Quando o grupo ganhou mais terreno, notou que à frente havia alguns homens parados dos dois lados da estrada. À primeira vista, pareciam apenas alguns viajantes, mas, ao chegarem mais perto, um deles ergueu a mão em sinal de parada. Marcos puxou as rédeas da carroça e a parou com cuidado.

— Ei, amigos, podem nos ajudar? — perguntou o homem jovem, de no máximo uns vinte anos. O cansaço em seu rosto era visível; ele deveria estar viajando havia semanas, em uma jornada bem difícil.

— O que aconteceu aqui? — perguntou Rafai.

— Nós tivemos um problema na estrada. Uma das rodas da nossa carroça quebrou, e não temos força o suficiente para trocá-la.

Rafai e Marcos trocaram olhares. Por fim, Marcos deu de ombros.

Devagar, eles desceram da carroça e foram até o jovem rapaz. Ele os cumprimentou e os guiou até os seus companheiros de viagem: um outro rapaz um pouco mais velho e uma moça de no máximo uns catorze anos. Bastou meia olhada de Marcos para que ele entendesse tudo. Eles eram de alguma guilda de mercadores do reino de Valdorex, um lugar lotado de mercadores e produtos interessantes. Naquele reino, quem sabe negociar é o rei, apesar de eles não possuírem um propriamente dito, e sim um conselho dos grandes senhores das guildas de mercadores. Pelo que lhe vinha à memória, eram pelo menos cinco ou seis grandes casas, mas, como o comércio é algo delicado, de vez em quando eram quatro; às vezes chegavam a ser oito e, dependendo do momento, principalmente em tempos de guerra ou conflitos entre as casas ou reinos, o grupo de casas podia chegar a apenas uma ou duas no conselho geral.

— Então vocês vêm de Valdorex, hein? — disse o bardo infernal. — Como estão aquelas bandas?

O rapaz sorriu sem graça, denunciando a exaustão em seu corpo. As olheiras chamavam atenção e faziam parecer que ele cairia duro no chão a qualquer momento.

— Estamos naquela boa e velha competição de sempre. Alguns pequenos comerciantes, como nós, têm que fazer negócios a longas distâncias, onde os poderes de nossos mestres ainda não chegaram. É uma vida dura, mas é uma forma de ganhar a vida.

Rafai olhou a carroça. Era pequena, trazia sobre ela algumas poucas caixas, alguns sacos pequenos que deveriam guardar especiarias e sementes e um jarro de barro que provavelmente estava cheio de algum tipo de óleo ou azeite. As roupas deles estavam puídas e sujas de areia; não era uma sujeira comum naquele local, mesmo que tivessem rolado no chão, o que não parecia ser o caso, com toda a certeza.

— De onde vocês estão vindo? — perguntou o paladino.

O rapaz suspirou e olhou para os amigos.

— Nós saímos de Vinhas do Oeste e entregamos mercadorias por todo o reino de Escarlantis, evitando os dragões, é claro. — ele riu. — Depois viemos para cá, até Flavedo, e agora estamos retornando para fazer a última entrega em Ventomil. Depois voltaremos para casa.

— Caramba, vocês ainda vão viajar bastante antes de retornarem para casa. — disse o bardo, coçando o queixo.

— Exatamente. É o preço que pagamos para sobreviver. — ele sorriu cansado. — Poderia levantar nossa carroça? Precisamos de apenas um instante para colocar a roda quebrada no lugar.

Rafai levantou uma sobrancelha. Era apenas isso? Eles eram magos, alquimistas ou algo entre os dois? Não estava exatamente interessado em descobrir, mas sim em ajudar.

O paladino segurou a carroça pela parte de trás com as duas mãos e a levantou. Imediatamente, os outros dois viajantes estenderam as mãos para a roda quebrada, e, magicamente, os pedaços foram se juntando e a roda voltou ao seu lugar na carroça. Por fim, Rafai baixou a carroça devagar e observou a estrutura da roda. Constatou que ela quebraria novamente em poucos quilômetros.

— Não me entendam mal, mas eu acho que essa roda não vai muito longe antes de precisar de uma nova manutenção. — disse o paladino, abaixando-se próximo à roda, olhando-a de perto e tocando sua madeira velha.

— Nós sabemos. — disse a menina. — Porém, não temos outra opção senão continuar. Dessa forma, iremos apenas atrasar ainda mais as nossas entregas.

— Pessoal? — disse Lemos, colocando o rosto para fora da carroça. — Eu estava aqui com o Edu e ouvi tudo o que vocês estavam dizendo. Acho que posso ajudar vocês com essa roda.

— Você? — disse Marcos. — Essa eu quero ver.

Lemos caminhou da sua carroça até a carroça dos viajantes, cumprimentou-os um por um com um sorriso simpático e, em seguida, começou a olhar em volta como se tivesse perdido algumas moedas. Olhava para baixo e para cima procurando algo, andava de uma árvore para outra com um semblante pensativo, até que parou em frente a uma árvore aleatória e soltou um "hum".

— Essa árvore produz uma seiva muito parecida com uma cola. Ela gruda e é muito chata de soltar; quanto mais seca, pior fica de tirar. Mas vocês podem lixar o excesso depois, e a roda vai andar normalmente. Podem confiar. Quando eu era criança e meus arcos quebravam, nem sempre eu podia usar madeira de qualidade para fazer outro, então eu mesmo arrumava tudo.

— Eu estou surpreso. — disse Marcos entre pigarros.

— Somos dois, e seríamos três se o Edu estivesse acordado. — Rafai concluiu.

Lemos rapidamente sacou sua pequena adaga e começou a riscar o tronco da árvore até chegar próximo da última camada, de onde a seiva iria irromper. Sem demora, pediu que trouxessem a carroça até lá, pois seria difícil manusear a seiva até chegar onde era necessário e, uma vez que ela grudasse neles, seriam dias de luta até sair completamente.

O outro rapaz pegou um jarro e um pincel e os deixou próximos do local onde Lemos golpeava. Estando tudo pronto, o elfo acertou o tronco uma última vez, fazendo a seiva começar a fluir: primeiro um pouco tímida e depois mais rapidamente. O rapaz encheu o jarro e foi até a roda. Passava rapidamente a seiva pegajosa por toda a roda, retornando mais três vezes para buscar mais na árvore.

— O que é isso? — comentou a mocinha mais jovem.

— Os elfos chamam de Galadh-glui. — explicou o elfo.

— Árvore pega-pega? — Marcos tentou traduzir.

— Árvore pegadora? — Rafai tentou.

— Árvore pegajosa. — Lemos revirou os olhos.

A roda estava quase completamente coberta pela seiva verde-oliva da árvore. Os três viajantes viram a cola secar ao redor das rachaduras e das imperfeições que outrora haviam sido motivo de preocupação. Eles estavam felizes e aliviados, pois agora poderiam continuar viagem com a roda reformada.

— Acho que vocês deveriam vir conosco para Luarado. Além de ser caminho para vocês, se precisarem de mais ajuda com essa carroça, nós vamos estar por perto. Também é mais gente para nos ajudar, caso precisemos. — Lemos estendeu a mão para o primeiro rapaz. — Pode me chamar de Lemos.

— Eu sou Maximilian, mas podem me chamar de Max. Esses são Minerva e Otto.

— Esse com rabo e chifres é o Marcos, e o parrudo é o Rafai.

Minerva olhou para os três e depois para a carroça deles, mais afastada.

— E aquele que está lá dentro é o Edu?

Marcos sorriu de forma cuidadosa e andou até ficar entre a visão da carroça e a menina.

— Sim, ele está tirando uma sonequinha. Bebeu muito em Ramo, fez farra até o dia amanhecer.

Os três viajantes se olharam e deram de ombros.

Os grupos combinaram que os viajantes iriam na frente, e o grupo dos aventureiros seguiria logo atrás, vigiando a carroça deles e pronto para executar novas manutenções em conjunto.

🍊🍊🍊

Rafai levava a carroça com Marcos ao seu lado. Os dois conversavam sobre os viajantes à sua frente. Eram jovens e estavam em uma jornada mais longa do que deveriam suportar. Todos sabiam da ganância dos mercadores do reino vizinho, mas estavam vendo jovens se arriscando na estrada por uma quantidade ínfima de moedas, que não os sustentaria por mais de um mês, e ainda sofrendo com os problemas de manutenção de sua carroça. Marcos comentou que havia crescido em Valdoren e que sua infância não foi nada fácil. Ser um tiefling em uma cidade de maioria humana era sofrer com preconceito desde cedo e ter olhares indesejáveis sobre si apenas por ter nascido diferente, mas ressaltou que o sangue era o trono da igualdade entre as raças, pois, tão vermelho quanto o sangue dos humanos, o dele também era.
 - Ser um paladino de origem simples também não ajuda muito a entrar na Ordem e, ainda por cima, eu desertei depois que as coisas ficaram estranhas. - Rafai sorriu. - Somos um bando de fodidos, na real. E aí, Lemos? Qual é a sua história triste?
 - Eu só saí de Alegoria. A família Sylvaris estava cheia de corrupção, disputas internas e uns papos tortos estranhos… Eu fugi de lá e deixei um bilhete para trás dizendo que estava cheio de tudo isso e estava levando o Heilig Bogen comigo como parte do tesouro.
Marcos virou-se para trás, olhando para o amigo dentro da carroça.
 - Tu nunca disse que era um Sylvaris! - Ele pulou para dentro, segurando o amigo elfo pelos ombros. - RAFAI, ESSE PORRA É UM PRÍNCIPE.
 - Ele é um ladrão. Acabou de dizer que pegou o Heilig Bogen e vazou sem nem pedir para ninguém. Daqui a pouco começa a chover elfo aqui querendo esse bracelete de arco de volta.
Marcos riu, contagiando Rafai.
 - Nós estamos completamente perdidos com esse grupo. - O tiefling sacou seu alaúde e dedilhou algumas notas.

🍊🍊🍊

Quando a primeira noite chegou, os dois grupos adentraram um pouco na floresta e pararam suas carroças entre as árvores, onde estavam protegidos de olhares curiosos. Lemos procurou madeira para fazer a fogueira, Minerva e Otto prepararam as panelas para fazer um ensopado com os ingredientes que Rafai havia entregado a eles. Max estava sentado no alto da sua carroça, observando o local ao redor e vigiando para saber se aquele lugar era verdadeiramente seguro.
Marcos estava dentro da sua carroça, trocando as ataduras de Edu e limpando seus ferimentos enquanto cantarolava alguma de suas músicas. Ele estava aproveitando que o amigo estava desacordado; do contrário, já haveria pedido que ele se calasse. Rafai retornava com água para os companheiros.
 - Cara, tu dormiu muito, não está na hora de acordar? - perguntava Marcos para o amigo desacordado. - Escuta, Edu… Nós estamos viajando com estranhos, não gostaria de acordar para dizer que não confia neles?
Nenhum sinal partia do bruxo, apenas um silêncio acompanhado de sua respiração pesada.
 - Nada ainda? - perguntou Rafai, chegando próximo à carroça e se preparando para ajudar com algo.
 - Nenhum sinalzinho, o sono dele está mais pesado do que de costume. - Marcos tocou na testa do amigo e constatou que sua temperatura estava normal. - Acho que esse aqui não levanta tão cedo.
O tempo passou enquanto eles preparavam tudo para o descanso. Lemos pegaria a primeira vigia, depois Max, e, em seguida, os outros iriam revezar com eles. Assim, todos descansariam pelo menos um pouco.
Ao final do jantar simples e bem elaborado, cada um tomou o seu lugar junto às suas coisas e se preparou para dormir. Rafai dormiu ao lado da carroça e Marcos em um dos bancos internos, para observar Edu caso o amigo acordasse durante a noite ou precisasse de algo.

🍊🍊🍊

Lemos estava sentado sobre um galho de uma árvore próxima, observando o acampamento e as redondezas. Seus olhos eram formidáveis e ele enxergava durante a noite como se fosse meio-dia, quando o sol revela tudo sem esforço algum a quem se propõe a observar. Lá embaixo, Minerva caminhava pelo acampamento. Ela estava tentando não fazer barulho, o que chamou muito a atenção de Lemos.

O elfo estreitou os olhos e acompanhou cada passo da mulher. Ela não caminhava como alguém que estivesse apenas dando uma volta antes de dormir. Seus movimentos eram cuidadosos demais, quase ensaiados. Ela olhava por cima dos ombros de tempos em tempos, evitava passar perto das fogueiras e seguia sempre pelas sombras das árvores. Lemos apoiou uma das mãos no tronco e desceu do galho sem produzir ruído algum, aterrissando sobre a terra como uma folha carregada pelo vento. Passou a segui-la mantendo uma boa distância, usando os arbustos e os troncos grossos da floresta como cobertura.

Minerva caminhou por alguns minutos até desaparecer atrás de uma formação de pedras. Lemos acelerou um pouco os passos para não perdê-la de vista, mas, quando contornou a rocha, ela já não estava mais ali. O elfo franziu a testa. Seus sentidos percorreram a floresta inteira, procurando qualquer respiração diferente, qualquer galho pressionado ou folha recém-movida. Foi então que sentiu algo atrás de si.

- Se continuar seguindo pessoas desse jeito, vai acabar encontrando alguém que não queria encontrar. - disse uma voz calma.

Lemos girou no mesmo instante. Uma flecha já havia surgido em sua mão antes mesmo de seu arco de energia aparecer completamente. À sua frente estava um rapaz de cabelos escuros presos em um rabo de cavalo curto, vestindo roupas simples de viajante. Não carregava espada, machado ou lança. Apenas um bastão de madeira escura reforçado por peças metálicas nas extremidades. O sorriso tranquilo do desconhecido irritou Lemos mais do que deveria.

- Otto?  E a Minerva?

- Não é da sua conta.

Lemos suspirou.

- Engraçado... eu ia responder exatamente isso quando você perguntasse por que estou seguindo vocês.

Otto sorriu.

- Então vamos economizar tempo.

O bastão desapareceu.

Lemos mal conseguiu enxergar o primeiro golpe. O pedaço de madeira passou rente ao seu rosto e partiu um galho grosso atrás dele como se fosse feito de barro. O elfo já estava em movimento antes mesmo do impacto terminar. Girou sobre um dos pés, disparou uma flecha quase à queima-roupa e saltou para trás usando o tronco de uma árvore como impulso.

Otto desviou inclinando apenas o pescoço.

A flecha passou assobiando e explodiu contra uma pedra ao longe.

- Bom reflexo. — comentou o rapaz.

- Você ainda não viu nada.

O Heilig Bogen surgiu completamente no braço de Lemos. A energia azulada percorreu o arco enquanto três flechas apareceram entre seus dedos. O elfo disparou as três quase ao mesmo tempo, cada uma buscando um ponto diferente do corpo do adversário. Otto girou o bastão em um círculo perfeito. As flechas ricochetearam na madeira reforçada e desapareceram floresta adentro.

Lemos não esperou o resultado. Correu.

Seu corpo parecia leve demais para tocar o chão. Passava por cima de raízes, apoiava um pé nos troncos e mudava de direção sem perder velocidade. Otto acompanhava tudo apenas com o movimento dos olhos.

Quando Lemos surgiu acima dele, uma pequena faca já brilhava em sua mão.

- Noer.

A lâmina tomou um tom avermelhado.

O golpe desceu mirando o ombro.

Otto ergueu o bastão.

Faíscas voaram quando a faca encantada encontrou o metal.

O elfo usou o próprio bloqueio como impulso. Girou sobre o bastão, chutou o peito do adversário e, antes mesmo de tocar o chão, disparou outra flecha.

Otto recebeu o chute, deslizou alguns metros para trás e bateu o bastão na flecha, desviando-a para o alto.

- Você luta bonito. -  disse Otto.

- Você fala demais. - respondeu Lemos.

Lemos desapareceu novamente.

Agora a floresta parecia lutar ao seu lado. Flechas surgiam de direções diferentes. Ora do alto, ora do meio dos arbustos, ora por trás das árvores. Otto caminhava devagar, bloqueando uma após a outra, até que uma delas raspou seu braço esquerdo.

O rapaz olhou o pequeno corte e sorriu.

- Finalmente.

Lemos aproveitou a distração.

Saltou de um galho.

Outro.

Mais um.

Na última árvore, impulsionou-se para frente usando todo o peso do corpo. A faca rubra veio em um corte horizontal enquanto seu cotovelo buscava o rosto do adversário.

Otto abaixou o corpo.

O cotovelo passou por cima de sua cabeça.

O bastão acertou as costelas de Lemos.

O impacto fez o elfo perder o ar, mas ele transformou o próprio desequilíbrio em um giro. Seu pé acertou o queixo do rapaz e ambos recuaram ao mesmo tempo.

Os dois permaneceram alguns segundos apenas respirando.

- Você é forte. — admitiu Lemos.

- Você é rápido.

O elfo sorriu.

- Ainda nem comecei.

Ele voltou a correr.

Dessa vez não atacou diretamente.

Subiu em uma árvore.

Saltou para outra.

Depois para uma terceira.

Otto girava procurando onde ele apareceria.

Foi tarde demais.

Lemos caiu atrás dele.

A faca desceu.

Otto girou o bastão para trás sem sequer olhar.

Bloqueou.

Com o mesmo movimento acertou o antebraço do elfo.

A faca escapou de seus dedos.

Lemos tentou recuperar distância, mas Otto não permitiu. Pela primeira vez desde o início da luta foi ele quem avançou. O bastão descrevia movimentos rápidos e precisos, obrigando o elfo a recuar continuamente.

Lemos desviava por centímetros.

Passava por baixo dos golpes.

Girava sobre as raízes.

Usava árvores como apoio para mudar de direção.

Mas Otto parecia antecipar cada movimento.

O elfo disparou outra flecha.

Depois mais duas.

Otto desviou da primeira e rebateu as outras duas.

Lemos sentiu um arrepio.

Pela primeira vez naquela noite alguém estava conseguindo acompanhar sua velocidade.

- Como...? - Lemos não conseguia entender, aquele homem era somente um humano, mas suas habilidades de luta eram estranhas para uma pessoa comum.

Otto não respondeu.

O bastão acertou sua coxa.

Depois o ombro.

Depois o estômago.

Lemos recuou alguns passos tentando reorganizar a respiração.

Invocou novamente o Heilig Bogen.

Cinco flechas surgiram ao mesmo tempo.

-  Vamos ver você bloquear todas!

As cinco partiram em direções diferentes.

Otto fechou os olhos por um único instante.

Girou o bastão.

Quatro flechas foram desviadas.

A quinta atingiria seu peito.

No último segundo, ele deu um passo para dentro da trajetória do disparo.

A flecha passou raspando suas costas.

Antes que Lemos pudesse compreender o que havia acontecido, Otto já estava à sua frente.

Perto demais.

O elfo ainda tentou sacar outra faca.

O bastão subiu rapidamente.

A extremidade metálica acertou em cheio sua têmpora.

O mundo girou.

Lemos deu um passo para trás.

Depois outro.

Tentou manter-se em pé, mas suas pernas deixaram de responder.

O Heilig Bogen desapareceu.

Seus olhos perderam o foco.

Otto o segurou pelo ombro apenas para impedir que batesse o rosto contra uma pedra.

Em seguida, soltou-o lentamente.

Lemos caiu desacordado sobre a grama úmida da floresta.

Otto respirou fundo, apoiou o bastão no ombro e olhou por alguns instantes para o elfo.

- Agora entendo por que disseram que você era o mais perigoso do grupo... Ainda bem que chegamos antes de você descobrir o que realmente está acontecendo.

Sem dizer mais nada, virou as costas e desapareceu entre as árvores, enquanto a floresta voltava a mergulhar no silêncio da madrugada.

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