A guerra das Bergamotas - O elo eterno dos Sindarin.
Capítulo 03:Eu sou seu senhor, demônio.
Lemos entrou na sala sem fazer barulho algum. Ele esperou alguns segundos e não escutou mais nada no corredor. Devagar, abriu a porta e se esgueirou pelo corredor até chegar próximo ao final. O caminho seguia para a esquerda e para a direita. Por um instante, fechou os olhos, concentrando seus sentidos aguçados, e escutou que, à esquerda, havia celas de prisioneiros, mas nenhum som característico vinha da direção oposta. Então, decidiu seguir por ali.
O elfo não precisou andar muito para encontrar um corredor cheio de celas, mas, em apenas três, havia prisioneiros. Com atenção, verificou tudo e não encontrou quem procurava. Quando estava prestes a dar as costas para o corredor, um dos prisioneiros chamou sua atenção. Era um elfo como ele, estava machucado e vestia trapos que pareciam ter esquecido o que era água.
— Ei, você. — chamou Lemos. — Estou procurando um bruxo almofadinha, com cara de sabe-tudo, que veste uma túnica preta e violeta. Viu alguém assim?
O elfo quase não teve forças para levantar a cabeça.
— Um elfo? — disse ele, fraco.
— Espera aí, há quanto tempo você está aqui? — Lemos olhou para os lados. Nenhum guarda estava à vista.
— Muito tempo, irmão.
— Ah, e por qual motivo? Esse bruxo de quem falei explodiu uma taverna, mas não sei exatamente se a culpa foi dele. É meio complicado.
O elfo sorriu fraco. Suspirou e olhou nos olhos de Lemos.
— Cantei a música errada. — disse ele.
— Ah, eu conheço um cara que deveria estar preso aqui... — Lemos revirou os olhos. — Doidera. Bom, fica bem aí, camarada.
Quando o elfo estava pronto para sair andando, o outro tomou fôlego.
— Tome cuidado, amigo... Aqui eles não gostam da nossa cultura.
🍊🍊🍊
O elfo desceu um lance de escadas somente para encontrar mais prisioneiros comuns, que não ajudaram muito em sua busca. Foi quando ele notou que, do corredor à sua frente, vinham dois guardas. Os passos, as vozes, tudo indicava que ele estaria em sérios apuros em poucos segundos se não conseguisse fazer alguma coisa.
Lemos olhou para os lados, para baixo e para cima, até enxergar um tipo de lustre feito de madeira, de onde pendiam velas para a iluminação do ambiente. Sem pensar muito, ele pegou impulso em uma das grades das celas, agarrou-se ao lustre acima de sua cabeça, balançou-se duas vezes e projetou as pernas para cima, levando o corpo junto no impulso e parando em pé sobre o lustre sem problema algum, deixando a dupla de guardas passar debaixo de si sem que fosse surpreendido.
Quando ele pousou no chão, foi suave como uma pena. Não teve problemas em sair do corredor sem que fosse notado. No corredor seguinte, deparou-se com celas totalmente vazias, nenhum único prisioneiro. Porém, uma das celas estava aberta. Ele parou em frente à porta e vasculhou tudo até achar um desenho no banco, uma runa de Edu.
— Ele esteve aqui. — Lemos entrou na cela e foi até a runa, tocando o desenho. — É recente, uns dez minutos, talvez?
Lemos escutou muitos passos ao mesmo tempo, juntamente com uma gritaria. Algo estava acontecendo na praça, e eles estavam indo para lá. Marcos deveria ter passado dos limites de novo, para variar. Ele saiu apressado, só para dar de cara com seis guardas vindo pelo corredor à sua frente. Todos pararam ao ver Lemos.
Dois espadachins na frente. Dois lanceiros atrás. Um arqueiro e o capitão da guarda usando um machado de guerra.
Lemos sorriu de lado.
— Melhor do que eu esperava...
— Intruso! — gritou um deles.
O primeiro guarda nem chegou a terminar de gritar quando uma flecha voou e acertou a parede ao lado de sua cabeça. O suficiente para cortar a corda que prendia um pesado candelabro de ferro no teto, que então despencou.
Faíscas explodiram. Pedras voaram.
Os dois primeiros soldados mergulharam para o lado, e Lemos desapareceu. Ele não correu, deslizou.
Seu corpo era leve como uma pluma, parecia nem sequer tocar o chão. O primeiro espadachim ainda procurava o inimigo quando sentiu algo pisar sobre seu ombro. Lemos já havia saltado e estava usando o homem como apoio. Girou no ar, seu pé acertou o rosto do segundo guarda e, antes mesmo de pousar, disparou uma flecha quase à queima-roupa.
A haste élfica atravessou o bracelete do lanceiro e o prendeu à parede pela manga da armadura.
Sem perder a chance, o arqueiro inimigo agiu. Sacou três flechas e disparou em uma velocidade assustadora para um humano sem os sentidos élficos.
Lemos inclinou o pescoço, a primeira passou entre seus cabelos, a segunda raspou sua capa e a terceira ele segurou no ar.
Os olhos do arqueiro pareciam que iam explodir das órbitas.
— Imposs...
A flecha voltou, mas não como um disparo. Foi apenas um arremesso que colidiu contra o arco do inimigo e o partiu ao meio. A flecha carregava resquícios de energia que brilhavam nas mãos de Lemos.
O capitão da guarda rugiu e avançou com o machado de guerra em mãos. Ele era enorme, e cada golpe fazia o corredor estremecer. Lemos, em nenhum momento, tentou bloquear, pois seria suicídio. Então fez o que sabia fazer: apenas fluiu entre os golpes. Passava por baixo do machado, girava ao redor do cabo, escalava a parede com apenas dois passos, usando as grades como apoio, e depois saltava de um lado para o outro.
O homem estava enfurecido com tudo aquilo. Girou, e o machado veio na horizontal, mas Lemos saltou na mesma hora, pisou sobre a lâmina do homem e usou o machado como trampolim, girando sobre a cabeça do inimigo e aterrissando atrás dele. Ágil, Lemos retirou uma faca da cintura com um único movimento.
— Noer. — recitou ele novamente.
A lâmina rubra do elfo cortou as correias que prendiam a pesada armadura do capitão da guarda. As placas de aço despencaram, fazendo o homem cair de joelhos no chão sob o peso da própria armadura.
— Mas como? — disse o capitão, tentando se mover com mais agilidade e falhando no processo.
— Daora sua armadura, mas ela é pesada demais para você.
Os outros quatro voltaram a cercá-lo e agora não havia espaço. Espadas, lanças e escudos.
Ele entendia que as coisas agora ficariam sérias de verdade. Do seu pulso surgiu o Heilig Bogen, seu arco de pura energia. Uma flecha surgiu em sua mão e, sem perder tempo, disparou pelo corredor, apagando toda a luz que conseguia encontrar. De um segundo para o outro, Lemos desapareceu completamente no meio da escuridão.
Quase dois corredores dali, o elfo ganhava terreno em velocidade surpreendente até dar de cara com uma porta enorme, entreaberta, que levava a uma escadaria descendo para um corredor de pedra que lembrava muito uma caverna.
— Espero que você esteja aguentando as pontas, Edu.
🍊🍊🍊
O choque da espada da juíza no chão trincou a rocha lisa. Edu se moveu no último instante para desviar do golpe, deixando sua adversária frustrada. Aproveitando-se da esquiva, ele disparou contra ela uma esfera de energia violeta, atingindo em cheio a lateral da mulher, que apenas sorriu.
— É com isso que pretende ganhar a sua liberdade e a de seu amigo? — perguntou ela, retirando a lâmina da espada do chão.
— Relaxa, eu nem comecei. — A túnica de Edu se agitou, e mais um ataque foi desferido diretamente de seu grimório.
A juíza fez dois movimentos de corte, frustrando completamente o ataque do bruxo, obrigando-o a reavaliar seu próximo feitiço. Ela se afastou com um salto rápido, retomando sua guarda assim que pisou no chão. A experiência de uma mulher que defendia Ramo havia décadas estava agora sendo posta à prova por um bruxo jovem que ela acreditava nem ter saído das fraldas ainda.
— Venha, bruxo. — Ela ajeitou a espada, que começou a brilhar. — E eu lhe mostrarei a diferença entre nós dois.
Edu correu na direção dela. De suas mãos irromperam chamas violetas, que ele atirou contra a inimiga. A juíza, por sua vez, defendeu o primeiro ataque, e o segundo deteve com apenas uma das mãos. O bruxo respirou fundo. Sabia que não seria fácil, mas aquela mulher era uma barreira. E toda barreira podia ser atravessada; ele sabia muito bem disso.
— Não tenha uma ideia errada sobre mim, excelência. — Edu respirou fundo. — Pois eu não faço reféns.
— Palavras fortes para um rapaz tão jovem. — Ela riu e avançou com a espada.
O bruxo rolou para o lado, desviando do ataque e correndo na direção oposta, mas a juíza foi mais rápida e, com um chute, jogou o rapaz para o outro lado da arena. Edu não podia acreditar na força física daquela velhota.
Quando ele se levantou novamente, a juíza já estava sobre ele, mas a energia violeta explodiu do bruxo, abrindo distância entre os dois. O grimório tornou a se abrir ao seu lado, parando em uma página específica. Bastou um breve olhar de Edu para que uma poderosa onda de energia irrompesse dele e acertasse em cheio sua adversária, pressionando-a contra a parede do outro lado e levantando uma nuvem de poeira.
A juíza tossiu um pouco e saiu da nuvem de poeira rindo. Sua espada brilhava em dourado, enquanto um sorriso começava a aparecer em seus lábios. Do outro lado, Edu e seu grimório se prepararam novamente. Devagar, a energia violeta do tomo que pairava ao lado de seu mestre o envolveu, e os olhares dos lutadores se encontraram.
— Corte do Carrasco! — Ela balançou a espada, e um raio de energia maciça voou na direção dele com uma velocidade impossível de ser defendida.
O corpo de Edu voou pela arena e, junto com o raio de energia, explodiu contra as arquibancadas próximas ao local onde a juíza estava sentada inicialmente. O grimório voou para o outro lado, deslizando sobre a pedra lisa até os pés da inimiga, que pisou sobre o livro para impedir que ele voltasse ao bruxo, caso ainda estivesse vivo, coisa de que ela duvidava naquele momento.
— Sinta em sua pele, bruxo. Sinta o poder da justiça, da espada que já derrotou milhares da sua laia antes de você ter a idade que tem hoje. — Ela gargalhou e virou-se para o velho. — Sinta o doce arrepio da morte certa, meu velho.
Lemos estava parado na porta à esquerda de onde os guardas estavam com o velho. Ele não podia acreditar na força com que seu amigo havia sido golpeado em cheio. Por um instante, seu pulso brilhou e ele quase invocou seu arco. Sabia que, se o fizesse, terminaria aquilo com uma flecha e seria procurado pelo resto da vida. Aquele duelo não era dele, mas o Heilig Bogen em seu pulso não ligava para isso.
— Nem deu para anotar a placa, amigo. — cochichou Lemos.
Ele quase não notou quando um raio de energia voou em sua direção. Lemos pulou para a frente e rolou sobre o chão. Quando levantou o olhar, a juíza estava olhando diretamente para ele. Sentiu uma grande pressão no peito, quase não conseguiu respirar no primeiro instante, mas, quando estava pronto para se mover, dois guardas apontaram lanças para ele, rendendo o elfo.
— Eita. — disse Lemos, levantando as mãos. — Eu nem estava tentando me esconder... para o governo de vocês.
A juíza revirou os olhos.
Em seguida, mais guardas apareceram. No meio deles estava Rafai, algemado e sem sua espada, e, ao lado dele, Marcos caminhava algemado, nu, tampando as vergonhas.
— Pegaram vocês também.
— Pegaram... — disse Rafai, suspirando.
— Eu mal entrei aqui. — disse Lemos, olhando para os amigos.
— Sim, eu sei. — A expressão de pesar no rosto do paladino chegava a ser cômica. — Acontece que, quando eu estava saindo do beco, alguns guardas me abordaram. Eu não podia simplesmente começar uma briga. Quando eu estava conseguindo convencê-los de que nunca havia visto nenhum de vocês... um tiefling nu apareceu no meio de uma fumaça vermelha, caindo diretamente sobre nós e me chamando pelo nome.
— E você tá pelado...? Me explica isso. — Lemos arqueou uma sobrancelha.
— Longa e triste história. — Marcos sorriu amarelo. — Vamos ter tempo para conversar na cadeia depois, pois...
Marcos parou de falar e olhou para a arena. Depois, Lemos olhou e, por fim, Rafai. Os três sentiram a pressão vinda de onde o amigo havia caído. Era a mesma pressão que sentiam quando Edu usava seus poderes para puni-los por alguma coisa que haviam feito ou quando ele estava muito puto da cara com alguma coisa. Era a segunda vez naquele dia que sentiam aquilo.
— Agora fudeu. — Marcos se abaixou com as mãos na cabeça. — Pensa em coisas felizes, pensa em coisas felizes.
A juíza virou-se para onde o bruxo havia sido lançado. A energia violeta dele oscilava sobre a nuvem de poeira até que ela foi dissipada completamente de forma violenta e, lá no meio, todos viram Eduardo. Estava com a túnica e as roupas por baixo dela em farrapos. Sangrava e arfava, enquanto nuvens de vapor quente saíam de sua boca devido ao frio que fazia naquele local.
— Eu adoraria dizer que doeu. — Ele sorriu com desdém. — Mas me avise quando parar de me acariciar e começar a lutar de verdade.
Os amigos gritaram das arquibancadas, só para serem advertidos de forma violenta pelos guardas. Eles sabiam que Edu não era um brigão. O negócio dele era ler livros, fazer poções e sarcasmo. Mas, naquele momento, ele estava tirando onda com a cara da juíza, e ela sabia disso. E estava odiando isso.
— Limpa o chão com essa bruxa, Edu! — gritou Marcos.
— É sério mesmo? — Rafai olhou para o amigo. — Tá usando "bruxa" como palavra pejorativa quando o Edu é um bruxo?
— Ah... Ele vai me matar.
Edu avançou alguns passos e estendeu uma das mãos na direção da juíza. Não para atacar a mulher; ele queria reaver seu livro, que estava debaixo de um dos pés dela.
— Meu livro, por gentileza! — disse ele entre os dentes.
A mulher fez força, mas, quando o livro voou do chão para perto do bruxo, ela se desequilibrou e quase caiu. Usou a espada no último momento como apoio para se manter em pé. Ela poderia jurar que ouviu o bruxo dizer a palavra "patética", mas não queria encará-lo logo depois de recuperar o equilíbrio.
Uma bola de fogo violeta irrompeu e acertou a mulher em cheio, levantando-a do chão. Por um instante, ela nem acreditou que aquilo estava acontecendo. Quando pousou novamente sobre a pedra lisa, seu corpo se curvou involuntariamente. Apesar de sua armadura negra poderosíssima, aquele ataque havia atravessado a placa que protegia seu peito.
Ela grunhiu e avançou. O bruxo fez o mesmo.
Os dois se encontraram no meio da arena. Edu desviava e disparava feitiços que a juíza desviava e cortava enquanto tentava atacar o adversário. Edu viu a lâmina se aproximando e a paralisou no lugar usando sua energia violeta. Aquele momento de triunfo acabou quando o punho da juíza acertou seu rosto, fazendo o bruxo girar e recuar alguns passos.
Edu limpou o sangue do lábio cortado e uniu as mãos, disparando fogo violeta contra ela, enquanto a mulher mergulhava no chão e deslizava para fora do alcance dele com a agilidade de um gato selvagem. O bruxo apenas desviou uma das mãos e mudou a direção do feitiço; agora ele vinha por cima dela. A mulher levantou a espada e conteve o choque da magia com a magia de sua própria espada. Edu estava pressionando, e os amigos sabiam que ele estava perdendo o controle aos poucos.
— Está levando isso mais a sério! — A juíza se levantou e disparou energia contra o bruxo novamente, mas, dessa vez, apesar de acertar em cheio, tudo o que conseguiu atingir foi uma coluna de fumaça. Tal qual um comensal da morte, ele voava pelo teto daquela caverna entre as estalactites.
Antes de pousar, ele agarrou a juíza pelos ombros e a arremessou contra o local onde ela estava sentada segundos antes. Apesar de a mulher ter caído em pé, com dificuldade, ela arrebentou a mesa onde estava. Antes que pudesse brandir sua espada novamente, a coluna de fumaça passou por ela outra vez, deixando arranhões feitos por garras de um animal enorme que iam do lado esquerdo do pescoço até parte da cabeça da mulher, espalhando sangue e cabelo pelos ares.
Edu pousou no meio da arena com seu livro ao lado.
— Vamos lá, eu quero o seu poder. — disse ele, olhando para o grimório.
— Nem pensar. Você não terá mais do que já tem agora. — respondeu uma voz de dentro do livro.
A juíza viu o sangue, sentiu a ardência que vinha daquela ferida e então reuniu seu poder na espada. O brilho dela irrompeu por toda a caverna. Os pequenos escombros da batalha, espalhados por todos os lados, começaram a tremer e levitar devagar. Ela estava dando tudo de si. Estava farta daquele bruxo e de sua audácia.
Edu tocou em seu grimório e o envolveu em chamas.
— Eu não estou pedindo, eu estou ordenando! — A voz do bruxo podia ser ouvida de qualquer lugar daquela caverna.
— Não, garoto!
— Você só chegou até aqui graças a mim. Eu te encontrei e te dei minha energia. Você serve a mim. Eu sou o seu senhor, demônio.
A juíza disparou um raio de energia que veio voando na direção do bruxo. Aquele golpe não pararia somente nele; todos os que estavam ali seriam engolidos pela explosão assim que a energia atingisse a parede e destruísse tudo ao redor. A juíza havia perdido totalmente a sanidade.
Uma enorme sombra surgiu ao redor de Edu. Era um animal, mas os presentes não conseguiam distingui-lo, pois a sombra oscilava de forma que apenas a juíza via o que estava diante dela. Seja lá o que fosse, rugiu tão poderosamente que a energia disparada contra o ataque da juíza explodiu para todos os lados, e o teto da caverna foi lançado pelos ares diretamente sobre a cidade de Ramo. Tudo foi tomado por um clarão.
Marcos foi o primeiro a abrir os olhos. Estava deitado de barriga no chão frio. De onde estava, via os pés de Rafai. O paladino permanecia em pé, segurando uma pedra enorme com as mãos envoltas em energia dourada. Parecia estar dando tudo de si, mesmo sem o escudo para canalizar seu mana. Lemos estava caído ao lado, ainda desacordado, mas parecia estar bem. Os guardas haviam sido lançados para algum lugar que ele não conseguia ver.
O paladino respirou fundo e jogou aquela pedra para o lado. Então os dois amigos contemplaram a cena. Era algo etéreo e assustador ao mesmo tempo, pois as pedras do teto da caverna que haviam atravessado o solo da praça de Ramo estavam todas paradas no ar. Abaixo daquele enorme buraco, por onde a luz da lua entrava, estava Edu, em pé no meio do nada. Uma silhueta estranha cobria seu corpo com energia violeta, a mesma energia que sustentava as pedras e impedia que caíssem sobre a cidade e sobre o corpo desfalecido da juíza de Ramo, que permanecia caída sobre a pedra lisa.
Após alguns segundos, ele pousou, e a energia violeta o deixou. Vários guardas estavam passando pela porta quando enxergaram a cena: a juíza caída, o bruxo em pé e o velho escondido atrás de uma pedra. Ele havia vencido. O julgamento por combate havia acabado. Edu olhou para trás e caiu no meio da arena, mas fez questão, antes de tudo, de ser visto em pé.
— Se foderam! — disse ele no chão, antes de apagar.
As pedras que a magia sustentava caíram lentamente no chão, e, do buraco no teto da caverna, as pessoas olhavam para baixo, curiosas.
🍊🍊🍊
Rafai saiu pela porta da frente do prédio cinza e, em seus braços, carregava um bruxo ferido, desacordado e esgotado. Ele parecia menor do que era, mais frágil e mais fraco do que realmente era. O preço da magia, do qual ele tanto falava, estava ali, presente diante deles. Logo atrás vinha Marcos, enrolado na capa de Rafai, e Lemos, ainda meio tonto por causa do estrondo.
As pessoas abriram espaço para eles passarem, e ninguém disse nada. Não poderiam dizer depois do que tinham acabado de testemunhar. Alguns se afastaram com medo, outros se aproximaram com curiosidade e outros apenas olhavam sem acreditar.
O velho foi o último a sair.
— O rapaz lutou pela minha liberdade. — disse ele para Rafai.
— Assim, do nada? — Lemos tentava colocar a cabeça no lugar.
— Diga que Dryadalis de Rivervale agradece e está em dívida com ele.
Quando Lemos virou-se para falar algo, o velho não estava mais lá. Ele não sabia o que poderia ter acontecido. Sua cabeça estava latejando e o mundo ainda não havia parado de girar. Aquele dia havia sido um emaranhado de emoções fortes e confusões além do que eles estavam experimentando nos últimos dias.
Eles desceram a rua e foram até o estábulo onde a carroça estava. Foram recepcionados pelo cocheiro, agasalhado com um manto velho e um capuz sobre o rosto. Ninguém deu atenção a ele a princípio, mas, quando se levantou, os rapazes pararam.
— Parece que vocês tiveram um dia daqueles. — disse ele, olhando para Edu e depois para Marcos.
— Nem queira saber. — Lemos suspirou, cansado.
— Venham comigo. Se dormirem aqui nessa carroça, vão morrer de frio.
O velho sumiu pelo meio das baias, com os três rapazes seguindo-o. Passaram por cavalos, aves gigantes e até mesmo por um rinoceronte com chifres reluzentes de tão afiados. Por um momento, perguntaram-se de quem poderia ser aquela montaria tão diferente, mas lembraram que, naquele momento, sobreviver era a ordem da noite.
O velho entrou em um celeiro e segurou a porta para que os recém-chegados entrassem. Lemos foi o primeiro a passar pela porta e observar o local. Era quente em um nível agradável, possuía uma mesa enorme bem no meio e uma escada ao lado que levava ao andar superior. O feno estava espalhado pelos cantos, formando montes confortáveis. Eles sabiam que teriam uma boa noite de sono ali. O velho jogou uma bolsa em cima da mesa e começou a sair.
— Podem usar esses itens no seu amigo. Vou trazer a carroça de vocês para mais perto. — Ele fechou a porta.
A verdade era que todos estavam cansados e estressados depois daquele dia longo e anormal.
Rafai deitou Edu sobre o feno e estendeu as mãos sobre ele, liberando uma luz dourada e quente que banhava o corpo do amigo com raios de cura e boas energias. Logo mais, o bruxo estaria de volta. Nada que uma boa noite de sono não pudesse consertar.
Lemos deitou-se em outro monte de feno e se esticou, pronto para dormir. Marcos ainda aguardava o retorno do cocheiro para pegar mais roupas na carroça.
Rafai olhou bem para o amigo à sua frente. Entendeu que ele havia suportado mais do que seu corpo poderia aguentar, mas faria de tudo ao seu alcance para ajudá-lo.
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