A guerra das Bergamotas - O elo eterno dos Sindarin.
Capítulo 02: Foi sem querer, mas querendo.
Após toda aquela confusão na taverna, Edu foi convidado pela guarda de Ramo a passar um tempo em uma de suas celas. Claramente, ele não aceitaria o convite da forma como lhe foi apresentado, mas o bruxo sabia que não era um criminoso nem nada do tipo. Para facilitar sua passagem por Ramo, aceitou e foi conduzido pela guarda da cidade.
Do lado de fora, lançou um olhar mortal para Marcos, que estava escondido atrás de Rafai e de sua armadura brilhante. O bardo sabia que aquilo ainda não havia acabado, pois, da última vez em que aprontou alguma coisa com Edu, passou quase uma semana comendo e sentindo gosto de lesmas, sapos e outras criaturas rasteiras.
— Então...? — disse Marcos. — Para onde exatamente estão levando ele?
— Para a cadeia da cidade, perto da praça principal, aquela com o chafariz. Não tem como errar. — respondeu um soldado.
— E sobre a fiança dele? — perguntou Lemos.
— Primeiro ele vai ser julgado. Depois falamos da fiança. — respondeu outro.
Os três amigos se entreolharam, apalparam os bolsos e decidiram que era melhor voltar até a carroça para buscar mais alguns trocados.
🍊🍊🍊
Quando Edu entrou na cela, não demorou para se sentar em um banco encostado na parede oposta à porta. Estava tranquilo. Na verdade, imaginava que conseguiria sair dali com ou sem ajuda, mas detestaria ter a guarda de uma cidade inteira atrás dele. Não era brigão, muito menos bandido, apesar de tudo o que já fizera em seu passado.
Suspirou e escutou alguém chamando por ele. Na cela ao lado havia um homem velho, magro e com um olhar de completo maluco. Sempre um maluco.
— E aí, o que fez para estar aqui? — perguntou o velho entre risadas estranhas.
— Explodi uma taverna. — respondeu Edu, sem olhar para o homem.
— Eita, porra! — o velho gargalhou. — Eu tô aqui porque disseram que sou maluco. Dá pra acreditar nesses caras?
Edu apenas olhou para ele e sorriu de forma forçada.
— Quem diria, né?
— Gosta de música, companheiro?
— Música? Sim. Músicos? No momento, não.
— Se importa se eu…
Edu deu de ombros.
— Vai fundo. O que é um peido para quem já tá cagado?
Nos salões de prata,
Onde o tempo não dorme,
Ele contava as eras
Pelo brilho das estrelas.
Um príncipe de luz,
Que nunca adoece ou morre,
Cercado por canções
Que os homens não podem ter.
Mas o tédio da eternidade
Pesava em seu olhar,
Até que o riso dela o fez despertar.
Ela cruzou a fronteira da floresta proibida,
Com passos pesados e o perfume do chão.
Um guarda passou pelas celas e bateu com o cassetete nas grades do velho, mandando-o calar a boca ou levar outra surra. O velho interrompeu a canção e apenas riu, agora mais baixo.
Edu acompanhava a cena apenas com os olhos. Virou um pouco mais o rosto na direção da cela vizinha e viu o velho se preparar para deitar no banco. Se tivesse ouvido direito, aquela era uma canção élfica, mas diferente das que Lemos e Marcos costumavam comentar.
🍊🍊🍊
Na carroça, os rapazes reviravam tudo em busca de mais dinheiro. Cada um possuía suas economias, uma quantia que normalmente seria suficiente para viver com tranquilidade, mas não para pagar a fiança de alguém. Teriam de voltar à vida de mercenários por mais algum tempo para recuperar as finanças perdidas por causa daquele imprevisto.
— Gente, eu tenho uns trocados aqui. — disse Rafai, pegando uma pequena bolsa cheia de moedas de ouro. — Acho que, juntando tudo, dá.
— Eu também tenho algumas moedas. E mais umas coisas que podemos vender na feirinha da praça. — Lemos ergueu sua sacola cheia de bugigangas recolhidas durante as missões.
— Eu tô zerado. — disse Marcos. — Tudo o que ganhei do Rato naquele jogo de cartas não foi grande coisa, e ainda gastei quase tudo na taverna, na esperança de ganhar mais dinheiro com a apresentação.
— Você tem noção de que o Edu só foi preso porque estava te defendendo, né? — Rafai arqueou uma sobrancelha.
— Qual é o seu plano, gênio da música? — perguntou Lemos, sentando-se na carroça.
— Fuga da prisão. — Marcos deu de ombros. — Sempre é uma opção.
Lemos e Rafai trocaram um olhar.
— Mas o Edu não vem de uma família de alfaiates mágicos do Reino de Alvorada? — Marcos coçou o queixo. — Ele não é, tipo... sei lá... rico?
— Pelo pouco que ele contou, rico não. "Confortável" foi a palavra que ele usou. — respondeu Lemos, olhando para o tiefling.
— Então dá uma olhada nas coisas dele. Deve ter uma nota preta escondida. Ele é um baita mão de vaca. — Marcos fez menção de pegar a mochila de Edu, mas Rafai segurou seu ombro.
— Você colocou o Edu na cadeia. — Os olhos do paladino encontraram os do tiefling. — Não é justo mexer nas coisas dele. Já estamos fazendo muito para te ajudar.
Marcos suspirou.
— Muito bem... então o plano de fuga é o seguinte!
🍊🍊🍊
As horas passaram arrastando-se sobre a cidade de Ramo, enquanto o bruxo, em sua cela, aguentava o companheiro do outro lado das grades, incapaz de manter-se em silêncio.
Estando ali, teve tempo para pensar em muitas coisas. A primeira era sobre a fragilidade da cidade de Ramo. Eles haviam prendido um bruxo e não haviam tomado nenhuma precaução além de confiscar seu grimório. Edu não era apenas o seu grimório.
A segunda era a eficiência da guarda. Mal havia explodido a taverna e já estava nas mãos dos soldados. Eles o capturaram rapidamente e o trancaram naquele lugar sem precisar pensar muito.
A terceira dizia respeito ao que ouvira havia poucos minutos. Ele poderia escolher entre um julgamento comum ou um julgamento por combate. Edu possuía poderes de controle mental de baixo nível, mas eles lhe concediam a habilidade de ler emoções. E o que sentia naqueles guardas era uma única coisa: dissimulação.
Já não importava quem havia começado ou terminado a briga na taverna. Ele estava decidido. Sairia de Ramo lutando com as próprias forças. Passaria por cima da guarda real, se fosse necessário. Como não sabia quem seria seu oponente, manteve-se preparado e em paz.
🍊🍊🍊
Os três desceram a rua prontos para tudo. A praça já podia ser vista à distância, e um estranho prédio cinzento se destacava entre os demais. Pelas informações que haviam reunido, era ali que mantinham o bruxo.
Marcos tomou a dianteira com seu alaúde e começou a tocar uma balada hipnotizante.
— Senhores, começa a Operação "Pegue o Edu e Corra".
— Acho que o nome poderia ser "Aguenta firme, Edu. Estamos indo virar seus colegas de cadeia". — Rafai riu.
— Já ajustei minhas flechas especiais, mas devo dizer que qualquer flecha lançada pelo meu Heilig Bogen tem grandes chances de ser letal, mesmo que a munição não seja. Estamos entrando em uma confusão muito maior do que podemos imaginar. — Lemos coçou a cabeça.
— Já chegamos até aqui. E, sinceramente, depois de ouvir o plano maluco dele, não faz sentido voltar. — Rafai suspirou.
Marcos seguia à frente tocando seu alaúde e cantando para as pessoas uma história sobre um bravo bardo e seus fiéis companheiros. Os transeuntes eram envolvidos por sua magia e começavam a segui-lo, deixando Lemos e Rafai camuflados na multidão.
Quando entraram na praça, a música parecia reverberar por todos os lados. Em poucos minutos, o bardo havia reunido uma verdadeira multidão ao seu redor, dando tempo para que seus amigos se afastassem discretamente e desaparecessem por um beco ao lado do prédio da prisão.
Lemos parou e observou a construção. Não havia nenhuma janela na parte de trás. Nenhuma porta. Apenas uma parede lisa de cima a baixo.
Então ergueu os olhos e viu, alguns metros acima, uma janela no prédio vizinho. Apontou para ela, e Rafai entendeu imediatamente.
O elfo tomou distância enquanto o paladino se preparava. Lemos disparou em uma corrida, e Rafai o impulsionou para cima com muito mais força do que normalmente conseguiria, permitindo que o elfo alcançasse a janela do prédio adjacente sem dificuldade.
Rafai fechou os olhos e fez uma breve prece. Suas mãos brilharam e, em seguida, ele tocou a parede da prisão, desativando a magia defensiva daquela parte da construção e revelando uma única janela, bem próxima de Lemos.
Os dois trocaram um breve olhar e um simples aceno de cabeça.
🍊🍊🍊
Os guardas foram até a cela de Edu. O bruxo olhou para os três soldados e se levantou. Havia chegado a hora do julgamento.
— Bruxo, pelas acusações de explodir uma taverna, você será julgado por Sua Excelência, a juíza Alister. — anunciou um dos guardas.
— Eu exijo um julgamento por combate, senhores. — disse Edu, permanecendo de pé no centro da cela. — E quero um desafio duplo, pois escolho a mim mesmo como meu campeão... e também como campeão dele. — apontou para o velho da cela ao lado.
Ele não sabia exatamente por que queria livrar aquele homem da prisão. Sentia, porém, em seu íntimo, que precisava fazer alguma coisa por ele. Talvez fosse apenas seu gato-demônio sussurrando para criar o caos ao libertar aquele velho. Ou talvez estivesse sendo contaminado pela moral inabalável de seu amigo paladino.
Os guardas trocaram olhares ao ouvir o pedido do bruxo. Até mesmo o velho, que conversava com uma barata na cela ao lado, interrompeu a conversa quando escutou aquelas palavras.
Estavam presos juntos havia poucas horas e, de repente, o bruxo se tornara seu campeão. Os deuses deviam estar sorrindo para ele... ou tirando sarro de sua cara, o que normalmente significava a mesma coisa. Afinal, deuses não sorriem.
— Cara... os espertos são sempre os mais complicados. — resmungou um dos soldados.
— Que se foda. Levem os dois para fora e deixem a juíza decidir quem será o campeão de Ramo.
E assim foi.
Os dois foram escoltados para fora da cadeia e, ao deixarem o corredor principal, tiveram uma surpresa nada agradável.
A prisão inteira ficava debaixo da terra.
🍊🍊🍊
Lemos pulou em direção à janela, agarrando-se às grades. Bateu o peito contra a pedra, mas ignorou a dor que veio instantes após o impacto. Forçou os braços para cima e ergueu a cabeça.
Lá dentro não havia nada além de uma sala fechada, um tipo de depósito.
— Eu vou entrar! — disse em tom baixo para Rafai, recebendo do amigo um sinal positivo com a mão.
— Cuide-se! — respondeu o paladino, mantendo a vigilância.
Astuto e rápido, o ranger sacou uma pequena faca presa ao cinto e a encostou no aço frio da grade.
— Noer! — murmurou, evocando a magia ancestral que corria em seu sangue.
A lâmina adquiriu um brilho avermelhado e começou a derreter o metal rapidamente. Lemos não tinha muito tempo; precisava entrar o quanto antes.
Enquanto a faca cortava o aço, seus olhos élficos vasculhavam a sala. Havia apenas uma porta e, por baixo dela, uma faixa de luz escapava para o depósito. De tempos em tempos, sombras cruzavam aquele feixe, denunciando um corredor movimentado do outro lado.
— Anda logo... — resmungou o elfo, acelerando o trabalho.
🍊🍊🍊
Na praça, Marcos emendava uma música na outra. As pessoas ao redor dançavam, cantavam e se divertiam ao som de seu alaúde. Homens, mulheres e crianças, de todas as raças e classes sociais de Ramo, estavam completamente rendidos ao carisma do bardo tiefling.
Ele dançava e pulava junto com a multidão até esbarrar em alguém.
Quando já abria a boca para pedir desculpas, seus olhos encontraram os de três homens parados bem à sua frente.
Todos se reconheceram imediatamente.
Eram os mesmos homens que ele havia ofendido na taverna.
— Meus amigos! Que bom vê-los novamente! Vieram para mais uma palhinha, acertei? — sorriu amarelo.
— Peguem ele! — gritou um deles, agarrando Marcos pela camisa de seda vermelha com detalhes dourados.
Marcos olhou para o homem e dedilhou as cordas do alaúde.
Olha bem pra tua cara,
Nem espelho te prepara.
Corre logo, sem demora...
Até tua mãe te ignora.
O homem soltou sua camisa e pareceu prestes a chorar, mas o segundo aproveitou a distração. Avançou pelo flanco direito e acertou um soco em cheio no rosto do bardo, quebrando sua concentração.
Pouco a pouco, as pessoas pararam de cantar e de dançar. Estavam exaustas, ofegantes... e cada vez mais irritadas.
Marcos acreditava que apenas as inspirava a se divertir, mas um acorde errado o fizera lançar uma Sugestão em Massa sem perceber.
Agora havia uma praça inteira de pessoas querendo arrancar sua pele.
— Calma aí, gente boa. Uma festinha nunca matou ninguém. — Marcos tentava encontrar alguma explicação enquanto apalpava a bochecha e verificava, com a língua, se ainda possuía todos os dentes.
Suspirou aliviado ao perceber que estavam todos no lugar.
O problema era descobrir como sair dali.
Deu um salto para trás e subiu sobre uma carroça. Olhou para os lados e, percebendo que estava completamente cercado, recorreu ao último recurso de um tiefling.
Invocou seu poder ancestral.
Uma fumaça vermelha começou a escapar de dentro de suas roupas.
No instante seguinte, uma explosão de fumaça tomou conta da praça.
Quando a névoa se dissipou, restavam apenas as roupas do tiefling sobre a carroça.
🍊🍊🍊
Era uma área imensa.
Arquibancadas se estendiam por todos os lados e, bem à frente, a juíza estava sentada acima de um enorme palco, onde outras cadeiras eram ocupadas pelos representantes da justiça de Ramo.
Edu não demonstrou medo, apesar de aquele lugar ser tão grandioso que chegava a ser opressor.
Acima dele, o teto era formado pela própria caverna. A maior parte permanecia mergulhada na escuridão. Nos poucos pontos iluminados, tochas flutuavam lentamente, cruzando o ambiente como vaga-lumes de fogo.
Enquanto caminhava em direção à juíza, sentiu sob os pés o chão de pedra perfeitamente lisa. Observou também as inúmeras cadeiras ao redor da arena.
Será que aquele lugar costumava receber plateia?
O velho caminhava logo atrás, narrando tudo o que via como se acompanhasse um cego. De vez em quando, um guarda lhe dava um tapa no braço ou um empurrão para fazê-lo andar.
— Senhora. — Um dos soldados tomou a frente. — O prisioneiro solicitou julgamento por combate. Escolheu a si mesmo como seu próprio campeão e também se apresentou como campeão do outro prisioneiro que o acompanha.
A juíza arqueou uma sobrancelha e inclinou o rosto para fora das sombras.
Era uma mulher na casa dos cinquenta anos. Os cabelos completamente brancos contrastavam com a expressão dura de alguém que carregava o peso da lei... e de sua execução.
Ela cruzou o olhar com o do bruxo.
Foi como se invadisse sua alma.
Pela primeira vez desde que chegara à cidade, Edu sentiu ansiedade. Uma pressão sinistra caiu sobre seus ombros.
— Então... é isso o que você quer, bruxo?
— Sim.
Ela riu enquanto se levantava.
Sua armadura negra refletiu o brilho das tochas. Calmamente, desceu os poucos degraus do palco e parou diante do bruxo.
Era uma mulher alta, forte e musculosa. A armadura parecia absurdamente pesada, mas seu corpo a sustentava como se não pesasse absolutamente nada.
Edu engoliu em seco.
— Está pronto para começarmos? — perguntou ela, retirando das costas uma espada gigantesca e apontando sua ponta para o rosto do bruxo. — Se vencer, vocês estarão livres. Mas, se perder... além de você morrer…
Ela desviou a espada para o velho.
— ...seu amigo morrerá também.
Edu deu de ombros e estalou os dedos.
Seu grimório escapou violentamente das mãos do guarda que o segurava e voou até seu lado. O livro abriu-se sozinho, suas páginas começaram a folhear freneticamente e, por fim, pararam em um feitiço específico.
A energia violeta do bruxo passou a envolvê-lo.
— O que você fez... foi acidental? — perguntou a juíza, sorrindo.
Edu sorriu de volta.
— Foi sem querer... mas querendo.
As íris de seus olhos mudaram de redondas para verticais, enquanto seus caninos cresceram alguns centímetros, tornando seu sorriso muito mais ameaçador.
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