A guerra das Bergamotas - O elo eterno do Sindarin

Edu Kawasashi23/06/2026
A guerra das Bergamotas - O elo eterno do Sindarin

Capítulo 01: a cidade de Ramo.

A carroça seguia pela estrada de terra naquela tarde de outono; o vento frio agitava as folhas das árvores o suficiente para criar um som de volume um pouco mais elevado, mas ainda assim não abafava o som que vinha da carroça.
- Fui à favela do Rato como convidado da dona Neném. - cantava Marcos, deitado na parte de trás da carroça, olhando para o céu enquanto tocava em seu alaúde, e sua cauda se movia de acordo com a música. - Estranhei o movimento, mas pensei por dentro: vai dar tudo bem.
— Pelo amor dos deuses, chega dessa música, ou pelo menos inventa a próxima parte logo. — Sentado ao lado dele, ainda na parte de trás da carroça, estava Edu, com seu grimório aberto, escrevendo alguma ideia para uma magia nova ou apenas anotando um esquema esquisito de combinação de poções que jamais deveriam ser combinadas.
— Que isso, Duduzão, eu preciso de inspiração! Preciso de ideias, de movimento, de… de… — Marcos gesticulava com as mãos sem nem mesmo saber do que ele precisava, mas sabendo que precisava.
— Eu acho que o Edu tá querendo fazer uma pausa para se ver livre do Marcos um pouco — disse Rafai, sentado à frente da carroça, controlando os dois cavalos pelas rédeas. — E eu preciso tirar um pouco essa armadura, já estou nela desde… Já nem me lembro mais.
— Eu preciso de um tempo de vocês todos — disse Edu.
— Eu também acho que temos que parar um pouco; assim, quem sabe encontramos alguma coisa interessante por essas bandas. — Lemos deu uma pequena cotovelada no braço de Rafai e olhou adiante com seus sentidos élficos.
— Por acaso o tal Rato da favela da sua música é o cara que encontramos semana passada na cidade de Flavedo? — Edu ajeitou os óculos no rosto.
— Esse aí mesmo, gente boa da melhor qualidade — respondeu Marcos entre risadas.
— O cara não tentou arrancar seus chifres e sua cauda depois de ter sido passado para trás num jogo de cartas? — Lemos perguntou, já sabendo a resposta. — Esse Rato?
- Ainda seremos grandes amigos.
— Aham! — disseram os três ao mesmo tempo.

🍊🍊🍊

Quando a viagem já estava começando a ficar insuportável pela cantoria do bardo tiefling, uma cidade começou a ficar visível entre as árvores. Pequenas torres e fumaça de chaminés determinavam que era uma daquelas cidades de beira de estrada onde os viajantes usavam como pouso e para repor mantimentos. Os quatro seguiram diretamente para lá até conseguirem ler o nome na entrada da cidade: Ramo.

Rafai guiou a carroça até o estábulo, que ficava próximo à entrada. Lá, um dos cocheiros se aproximou e fez sinal para que Rafai deixasse a carroça com ele. Os quatro desceram com suas mochilas, deixando apenas alguns mantimentos na carroça. Edu olhou para trás, memorizando o que estavam deixando, e olhou para o cocheiro.
— Nem pensem em mexer em nossas coisas. — ele olhou para o cocheiro.
— Principalmente no trago — acrescentou Marcos.
— Meu Deus, vocês dois não têm jeito mesmo. — Rafai deu uma moeda para o homem, que agradeceu. — Vamos, andem logo, é o momento que temos para abastecermos os suprimentos.
— E não tentar se meter em confusão — Lemos acrescentou. Todos olharam para Marcos, que afinava seu alaúde.
— O quê? — perguntou ele, coçando a cabeça com a cauda.
— Esquece — Rafai suspirou, pegando o escudo e a espada de dentro da carroça. — É mais fácil deixar rolar, eu acho.

🍊🍊🍊

Os quatro andaram juntos até certo momento do percurso; Edu entrou em uma rua e ninguém percebeu, Marcos viu a primeira taverna e, como um raio, despediu-se do grupo, Lemos foi até o centro de uma feira procurar mantimentos e Rafai se separou dele para procurar um ferreiro. 

A cidade era pequena, mas, por estar localizada na beira de uma estrada, as suas ruas eram bem movimentadas: pessoas indo e vindo, gente carregando coisas, outras enchendo carroças com mantimentos, serviços sendo aceitos e sabe-se lá quantas outras coisas aconteciam ao redor dos quatro sem que eles percebessem. Ramo era uma daquelas cidades que as pessoas vinham pela necessidade e ficavam pelo conteúdo. Estava situada a leste da grande capital, separada por longos campos e uma floresta de árvores gigantes. Ali, a agricultura e a criação de animais eram suas fontes de negócios, uma cidade pequena que sobrevivia sozinha no meio do nada.
Rafai foi guiado pelo som de batidas e de metal. Ele desceu uma rua apertada até chegar a uma loja de esquina, uma fornalha enorme, e três homens trabalhavam lá: um mais velho e dois mais jovens, claramente aprendizes. O paladino aproximou-se devagar até o homem mais velho notar sua presença. Ele estava batendo no metal de uma espada com um martelo enorme; quando notou a presença do paladino, ele endireitou a postura. Era um homem enorme, beirava quase os dois metros de altura; os braços dele eram da largura de um homem que manuseou muito metal até aquela idade. Sua barba e cabeleira branca estavam sujas de fuligem, mas o sorriso era alvo e confiante.
— E aí, guri? — disse ele com a voz carregada.
- Olá. Preciso de seus serviços. — Rafai retirou o escudo de trás da capa em suas costas e o mostrou para o homem.
- Um paladino. - o ferreiro coçou a barba. - Deixa eu advinhar, quer que eu faça a revisão da liga do seu escudo, não é?
— Exato, ele é feito de um material chamado magiquita, o que permite que o mana flua por ele… Preciso mantê-lo em boa forma. — Rafai entregou o escudo para o ferreiro.
— Bom, eu consigo deixar esse escudo novinho para você, rapaz. — O ferreiro jogou o escudo para trás e os dois jovens o pegaram sem problemas. — Talvez fique um pouco salgado…

Rafai suspirou.

🍊🍊🍊 

Lemos já estava com um saco cheio de legumes e verduras quando algo chamou sua atenção na feira. Uma barraca mais à frente estava cheia de pães élficos recém-assados. Já fazia algum tempo desde que ele havia comido aqueles pães, e mais ainda de quando ele havia tentado fazê-los. Naquela ocasião, ele usou ingredientes de poções do Edu e, como castigo, o bruxo fez os pães atacarem Lemos com uma violência engraçada.
— Isso são basgorns? — perguntou ele, aproximando-se da barraca.
— Ah, então temos um apreciador aqui — disse uma jovem moça, colocando mais pães junto dos outros. — Mas veja só, o senhor é um elfo.
— Eu gostaria de levar alguns pães. — Lemos tocou em um pão, que estava macio e tinha um cheiro divino, parecendo os que costumava comer em Aeoloria antes de sair em sua jornada.
— Mas é claro, se pedir em sindarin, eu faço até um desconto. — A moça já estava separando uma sacola.
Manen, rimbë massar polin quetë ranta atta telpina Mirianen (Quantos pães eu consigo comprar com duas moedas de prata?) — perguntou Lemos, já pegando duas moedas de prata.
— Posso lhe dar seis por duas moedas, somente, pois gostei do senhor — a moça começou a separar os pães rapidamente com alegria.
Etelello tuluvalyë, heru Elda? (De onde você vem, senhor elfo?) — perguntou a moça em perfeito sindarin. Embora não fosse incomum que humanos e outras raças falassem sindarin, a fluência dela denotava claramente que ela havia estudado muito.
— Eu sou de Alegoria, no baixo vale de Caelthal. Não é uma das grandes cidades élficas, mas é bem bonita. — Lemos entregou as moedas e pegou a sacola com os basgorns; ele conseguiu sentir o calor deles atravessar a sacola.
- Eu já ouvi falar, fica na beira do rio Lety. Lugarzinho agradável mesmo. — ela sorriu simpática.
— Me diga, seu sindarin parece de um nativo, deve ter estudado bastante. — A curiosidade estava consumindo o jovem elfo por dentro, embora por fora ele estivesse mais calmo do que de costume.
— Meu marido é um sindarin, tenho escutado essa língua há dois anos, impossível não aprender… — ela apontou para um homem mais adiante, um elfo mais alto, cabelos tão loiros que pendiam quase para o branco, sorridente e parecia ser muito querido pelos outros feirantes.
- Perfeito, isso explica muito. Nossa língua não é tão simples, mas um pouco mais de atenção é só o que um aluno precisa para aprender. — Lemos sorriu. — Eu voltarei para pegar mais. — disse ele, afastando-se da barraca.

🍊🍊🍊 

Quem passasse por aquele beco não entenderia o que estava acontecendo; havia pelo menos uma dezena de gatos de rua ao redor de Edu. Ele estava em pé, bem no meio deles, olhando atentamente para cada um deles. De vez em quando, ele jogava um pedaço de comida para um deles, depois para outro, e assim acontecia até que todos estivessem alimentados.
— É só isso? — perguntou ele para os gatos aos seus pés. — Se eu descobrir que vocês estão me passando a perna, vou atrás de cada um e prometo que se arrependerão.
— Mas o que é isso? — disse um dos gatos. — Você não pode nos ferir nem nos ameaçar. Já esqueceu que você fez um pacto com a grande entidade Sombragarra, o protetor dos gatos?
— Sombragarra também não admitiria que vocês mentiram para mim. — ele sorriu. — Retornarei para receber mais informações de vocês; é bom que tenham novas notícias para mim.

Edu retornou para a rua, olhou para os lados e andou por dois quarteirões até encontrar uma loja de artigos para poções e feitiços. Sem pensar muito, ele entrou, sentiu o cheiro das ervas, ouviu o som de ferramentas mágicas trabalhando e, ao seu redor, sentiu pequenos espíritos o rodeando e se dissipando. Esse tipo de sondagem era quase uma tradição em lojas como aquelas, assim o dono do estabelecimento saberia com quem ele estava lidando poucos segundos antes do cliente entrar na loja.
— Por favor, entre! — gritou o vendedor do meio das prateleiras. — Temos os melhores ingredientes para poções deste lado da estrada real.
— É? Difícil de acreditar. — Edu avançou loja adentro, já pegando alguns itens. — Mas ainda assim preciso de uma lista maior de itens que preciso.
— Então você é daqueles que tem respostinha para tudo? — um anão saiu do fundo da loja, entre as prateleiras. Os dois se olharam e uma faísca de rivalidade apareceu ali. — Manda para cá essa porcaria de lista.

Edu estalou os dedos e um pequeno rolo de pergaminho surgiu entre fiscais púrpuras e caiu sobre suas mãos. O anão, vendo aquilo, revirou os olhos. Ele pensou em falar algo, mas sabia como o ego de alguns bruxos é sensível; não gostaria de começar uma confusão dentro de sua loja. O bruxo jogou o rolo de pergaminho para o lojista e virou-se para olhar melhor a loja.
— Deixa eu ver essa bosta… — o anão começou a ler. — Tá de sacanagem? Tem coisas bem idiotas aqui.

Edu apenas olhou para ele de canto de olho.
— Está falando de quê?

O anão bufou.
- Erva da Lua, raiz de mandrágora, cristal de éter, mel de abelha gigante… Isso aqui eu consigo para você, mas… — ele suspirou. — Pena de corvo branco? Lágrima de fada? Veneno de aranha carmesim? Dente de tubarão celestial? Cara, você está querendo começar uma guerra?
— Se for necessário — Edu deu de ombros. — Você é um vendedor, um membro da guarda real ou um lojista?
— Tá engraçadinho! — disse o anão.
- Sabe, eu criei uma poção chamada "Verdade Inconveniente". Para isso, eu preciso das lágrimas de fada, bigode de gato preto e suco de picles antigo. — Edu colocou alguns itens sobre a bancada e se afastou para buscar mais.
— Existem centenas de gatos pretos por aí, não consegue pegar por conta própria? — o anão começava a separar os itens da lista e colocá-los em uma bolsa especial.
- Não posso fazer mal a nenhum gato, felinos no geral. - Edu colocou sobre a bancada um jogo de frascos para poções de diversos tamanhos. - Se o felino sentir dor, eu falho.

O anão revirou os olhos, pensando em como iria preparar tudo.

🍊🍊🍊 

Mais tarde, os quatro se encontraram em uma taverna próxima ao centro da cidade. Estava lotada, com pessoas rindo, brincando, apostando e jogando. Marcos estava em casa. 

Eles ocupavam uma mesa no canto, próxima a uma das duas lareiras, o que os deixava aquecidos e confortáveis, apesar da confusão toda. Rafai ria de algo que ele viu mais à frente, Lemos bebia um gole da sua cerveja e levantava a caneca quando a música chegava ao seu clímax, Edu estava sentado com seu grimório aberto na mesa, escrevendo alguma receita de poção que estava martelando em sua cabeça ou algum esboço de feitiço que poderia não dar certo, mas Marcos… Marcos estava em pé sobre uma mesa com seu alaúde em mãos, tocando, dançando e cantando sua última música (todas eram sua última música).
— Senhoras e senhores, a próxima música eu escrevi assim que experimentei uma bergamota da cidade vizinha… — ele sorriu e os dedos brilharam em contato com as cordas do alaúde, que parecia vivo.

Na estrada eu viajei, por montes e por grotas,

Conheci muitos lugares e provei muitas compotas,

Mas uma coisa eu descobri, e vou contar sem demora:

A pior bergamota do reino nasce logo ali fora! 

As pessoas ao redor riam e tiravam sarro, mas, no fim do verso, alguns olhares mais sérios e ébrios se voltaram ao bardo.

Ô bergamota, bergamota,
Redonda igual a uma bota!
Tem casca dura feita pedra,
E gosto de água de charrota!

Ô bergamota, bergamota,
Escutem bem minha derrota:
Mordi uma dessas frutas,
E quase pedi escolta!

— Não estou gostando do rumo disso. — Rafai coçou o queixo.
— Acha que pode dar ruim? — Lemos limpou o bigode de cerveja.
— Eu acho que é melhor sairmos de fininho… — Edu fechou o grimório e olhou para o lado, vendo um pequeno gato rajado.
— E deixamos o Marco aqui? — Rafai virou-se para Edu e o viu pegando um gato do chão. — De onde você arrumou esse gato?
— Ele estava aqui no chão — Edu respondeu, passando as mãos pelas costas do animal.

Ô bergamota, bergamota,
Rainha da humilhação!
Se essa fruta é tão perfeita,

Por que machuca mais que um tijolão?

Ô bergamota, bergamota,
Escutem meu coração!

Prefiro comer ração de cavalo.

Do que outra da plantação!

Um homem se levantou no meio da taverna e, com raiva, jogou a caneca de madeira no chão. O impacto e o barulho fizeram o local silenciar por completo; até mesmo Marcos, que estava no meio da sua cantoria, parou e olhou o homem lá no meio das mesas.
— Escuta aqui, seu imbecil, minha família tem plantações nas redondezas por mais de quatro gerações.
— Tá falando merda! — disse um segundo, levantando-se. — Eu tenho uma fazenda com plantações na cidade vizinha.

Em seguida, outros foram levantando e começaram a voar canecas e cadeiras para todos os lados, quando um pedaço de pau traçou rota em direção ao rosto de Marcos; ele parou no ar com energia púrpura ao redor. O tiefling olhou para trás e viu Lemos dando uma rasteira em um fazendeiro que estava com uma garrafa quebrada em uma das mãos. Rafai afastava dois homens menores que ele com seus braços, e Edu estava com uma das mãos estendidas para Marcos, parando no ar o pedaço de pau, e com a outra ele apontava para alguns outros homens que se contorciam no chão.
— Eita. — disse Marcos, pulando da mesa. — Mas o que eu fiz?

A confusão era generalizada, amigos trocando socos. Assuntos mal resolvidos vindo à tona. Até mesmo o dono da taverna estava cobrando algumas dívidas com os punhos. Rafai jogou dois homens por cima de sua cabeça e puxou Marcos pela camisa.
— Tá ficando maluco? — Rafai sacudiu o amigo. — Sair ofendendo os caras assim!
— Não se faça de desentendido. — Lemos pulou sobre a mesa, quando pousou, girou e chutou o rosto de um aldeão que corria na direção deles.
— Eu avisei! — disse Edu antes de tomar um míssil mágico no peito e varar o salão.

Os três amigos pararam e trocaram olhares. Eles sabiam que o amigo não era de brigas; ele falava bastante e constantemente agia com ar de sabe-tudo, mas definitivamente Edu não era um brigão, a menos que atacassem ele primeiro.

O bruxo saiu debaixo de uma mesa quebrada, limpando a poeira de suas roupas como se aquilo fosse apenas uma insignificância. Ao seu lado, o grimório flutuava aberto, enquanto a energia violeta se acumulava em suas mãos. Pela expressão dele, alguém estava prestes a descobrir que derrubar um bruxo era uma péssima ideia.
- Saída estratégica pela esquerda! - Marcos correu e pulou pela janela.
— Eu não vou ficar aqui para ver isso! — Rafai começou a procurar uma saída.
— Uhuul, quebra tudo, Edu! — Lemos gritava.

Rafai pegou Lemos pelo braço e, correndo pelo salão, abriu passagem pela madeira da parede, abrindo seu próprio caminho junto com o amigo elfo. Os dois encontraram Marcos na rua; ele estava se levantando, tirando a madeira e o vidro de suas roupas. Ele limpou a poeira de suas roupas quando um brilho violeta explodiu dentro da taverna, jogando-o novamente no chão junto com seus amigos. Edu havia passado dos limites, de novo.


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