A Virada que Nunca Aconteceu (ou aconteceu demais).

Edu Kawasashi15/02/2026
A Virada que Nunca Aconteceu (ou aconteceu demais).

O ano novo sempre começa do mesmo jeito: promessas frágeis, fogos excessivos e alguém jurando que “esse ano vai ser diferente”. No apartamento de Edu, isso não era diferente — só mais barulhento, mais nerd e perigosamente abastecido de álcool barato.

    Edu estava encostado na sacada, observando a cidade como quem analisa um tabuleiro de xadrez invisível. Não falava muito. Nunca precisava. A camiseta preta discreta contrastava com o caos ao redor, e seus olhos percorriam tudo com aquele ar de quem já entendeu a piada antes mesmo dela ser contada. Um leve sorriso torto surgia quando algo idiota acontecia — e acontecia com frequência.

    Marcos, por outro lado, era o próprio acontecimento.

    — EU JURO QUE O HOMEM DE FERRO TÁ ME JULGANDO, gritava ele, apontando para uma estátua em tamanho real do Tony Stark no canto da sala.

    A estátua não piscou. Edu percebeu isso imediatamente. Anotou mentalmente: ponto para a realidade… por enquanto.

    Rafai estava no sofá, pernas cruzadas, copo erguido, rindo como se o universo inteiro estivesse colaborando para sua felicidade.

    — Cara, se o Homem de Ferro tá te julgando, imagina o Batman ali — disse ele, apontando para o outro lado da sala, onde um Batman sombrio parecia observar tudo da sombra.

    — O Batman sempre julga — respondeu Lemos, abrindo uma cerveja com a calma de quem aceitou seu papel no mundo. Ele era o eixo. O ponto fixo. O NPC jogável da vida real.

    A campainha tocou.

    Edu arqueou a sobrancelha. Ninguém mais estava convidado.

    Quando a porta abriu, o impossível entrou com educação.

    Homem-Aranha foi o primeiro, tropeçando no próprio cadarço inexistente.

    — Foi mal, GPS dimensional bugou.

    Atrás dele vieram a Mulher-Maravilha, Geralt de Rívia, Doutor Estranho, Deadpool (que ninguém lembrava de ter autorizado), Mestre Yoda — versão jovem e velha ao mesmo tempo — e, inexplicavelmente, Darth Vader segurando um espumante.

    Marcos caiu de joelhos.

    — EU SABIA. EU SEMPRE SOUBE.

    Edu não se moveu. Apenas observou. Notou algo curioso: todos os personagens olhavam para ele por um segundo a mais do que o normal. Como se… reconhecessem alguma coisa.

    — Então — disse Edu, com voz baixa e afiada — alguém vai me explicar por que o multiverso resolveu passar o réveillon aqui?

    Doutor Estranho sorriu de canto.

    — Pontos de convergência. Lugares onde o caos é estatisticamente inevitável.

    Deadpool levantou a mão.

    — E porque tinha open bar.

    A festa escalou rápido.

    Geralt disputava bebida com Marcos (Geralt claramente preocupado). Rafai ensinava o Yoda a dançar ao som de synthwave. Lemos discutia lógica básica com o Batman, que concordava em silêncio — um sinal perturbador.

    Edu circulava. Pouco falava. Quando falava, era ouvido.

    Ele percebeu primeiro.

    Os fogos do lado de fora começaram a explodir… para dentro. O céu dobrava sobre si mesmo. O chão respirava. As vozes ecoavam como se estivessem dentro de um copo vazio.

    — Marcos — disse Edu, calmamente — quantas coisas você misturou hoje?

    — Sim — respondeu Marcos, abraçando o Darth Vader.

    Edu suspirou. Um suspiro pequeno, quase imperceptível, mas carregado de compreensão cósmica.

    O mundo começou a derreter.

    Os personagens glitchavam. O Batman virou um boneco inflável. O Homem-Aranha virou decoração de aniversário. O Doutor Estranho virou um imã de geladeira.

    Marcos piscou. Uma vez. Duas.

    Silêncio.

    Ele acordou no chão da sala, abraçado a uma almofada do Homem de Ferro, com um copo vazio na mão e um gosto de arrependimento na boca.

    — …caralho — murmurou.

    Rafai dormia roncando no sofá. Lemos estava sentado à mesa, tomando água e olhando para ele com julgamento neutro.

    Edu estava de pé na sacada, olhando o nascer do sol do primeiro dia do ano.

    — Sonhou alto — disse Edu, sem virar o rosto.

    — Foi tudo… — Marcos engoliu seco — coisa da bebida?

    Edu deu um meio sorriso. Pequeno. Sutil. Quase inexistente.

    — Provavelmente.

    Ele olhou para a cidade mais uma vez.

    — Mas confesso que o Batman fazia sentido demais.

    Marcos fechou os olhos.

    Do lado de fora, um último fogo atrasado explodiu no céu. Por um segundo, muito breve, a silhueta parecia a de um capacete… metálico.

    Edu não comentou.

    Algumas verdades não precisam de confirmação.

    E assim começou mais um ano do Bergamota Prime.

    Sem heróis.

    Sem vilões.

    Só amigos, ressaca e a estranha sensação de que, talvez, o multiverso tenha passado ali — só para dar uma espiada.

    Porque caos reconhece caos.

    E às vezes… respeita.


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