A Virada que Nunca Aconteceu (ou aconteceu demais).
O ano novo sempre começa do mesmo jeito: promessas frágeis, fogos excessivos e alguém jurando que “esse ano vai ser diferente”. No apartamento de Edu, isso não era diferente — só mais barulhento, mais nerd e perigosamente abastecido de álcool barato.
Edu estava encostado na sacada, observando a cidade como quem analisa um tabuleiro de xadrez invisível. Não falava muito. Nunca precisava. A camiseta preta discreta contrastava com o caos ao redor, e seus olhos percorriam tudo com aquele ar de quem já entendeu a piada antes mesmo dela ser contada. Um leve sorriso torto surgia quando algo idiota acontecia — e acontecia com frequência.
Marcos, por outro lado, era o próprio acontecimento.
— EU JURO QUE O HOMEM DE FERRO TÁ ME JULGANDO, gritava ele, apontando para uma estátua em tamanho real do Tony Stark no canto da sala.
A estátua não piscou. Edu percebeu isso imediatamente. Anotou mentalmente: ponto para a realidade… por enquanto.
Rafai estava no sofá, pernas cruzadas, copo erguido, rindo como se o universo inteiro estivesse colaborando para sua felicidade.
— Cara, se o Homem de Ferro tá te julgando, imagina o Batman ali — disse ele, apontando para o outro lado da sala, onde um Batman sombrio parecia observar tudo da sombra.
— O Batman sempre julga — respondeu Lemos, abrindo uma cerveja com a calma de quem aceitou seu papel no mundo. Ele era o eixo. O ponto fixo. O NPC jogável da vida real.
A campainha tocou.
Edu arqueou a sobrancelha. Ninguém mais estava convidado.
Quando a porta abriu, o impossível entrou com educação.
Homem-Aranha foi o primeiro, tropeçando no próprio cadarço inexistente.
— Foi mal, GPS dimensional bugou.
Atrás dele vieram a Mulher-Maravilha, Geralt de Rívia, Doutor Estranho, Deadpool (que ninguém lembrava de ter autorizado), Mestre Yoda — versão jovem e velha ao mesmo tempo — e, inexplicavelmente, Darth Vader segurando um espumante.
Marcos caiu de joelhos.
— EU SABIA. EU SEMPRE SOUBE.
Edu não se moveu. Apenas observou. Notou algo curioso: todos os personagens olhavam para ele por um segundo a mais do que o normal. Como se… reconhecessem alguma coisa.
— Então — disse Edu, com voz baixa e afiada — alguém vai me explicar por que o multiverso resolveu passar o réveillon aqui?
Doutor Estranho sorriu de canto.
— Pontos de convergência. Lugares onde o caos é estatisticamente inevitável.
Deadpool levantou a mão.
— E porque tinha open bar.
A festa escalou rápido.
Geralt disputava bebida com Marcos (Geralt claramente preocupado). Rafai ensinava o Yoda a dançar ao som de synthwave. Lemos discutia lógica básica com o Batman, que concordava em silêncio — um sinal perturbador.
Edu circulava. Pouco falava. Quando falava, era ouvido.
Ele percebeu primeiro.
Os fogos do lado de fora começaram a explodir… para dentro. O céu dobrava sobre si mesmo. O chão respirava. As vozes ecoavam como se estivessem dentro de um copo vazio.
— Marcos — disse Edu, calmamente — quantas coisas você misturou hoje?
— Sim — respondeu Marcos, abraçando o Darth Vader.
Edu suspirou. Um suspiro pequeno, quase imperceptível, mas carregado de compreensão cósmica.
O mundo começou a derreter.
Os personagens glitchavam. O Batman virou um boneco inflável. O Homem-Aranha virou decoração de aniversário. O Doutor Estranho virou um imã de geladeira.
Marcos piscou. Uma vez. Duas.
Silêncio.
Ele acordou no chão da sala, abraçado a uma almofada do Homem de Ferro, com um copo vazio na mão e um gosto de arrependimento na boca.
— …caralho — murmurou.
Rafai dormia roncando no sofá. Lemos estava sentado à mesa, tomando água e olhando para ele com julgamento neutro.
Edu estava de pé na sacada, olhando o nascer do sol do primeiro dia do ano.
— Sonhou alto — disse Edu, sem virar o rosto.
— Foi tudo… — Marcos engoliu seco — coisa da bebida?
Edu deu um meio sorriso. Pequeno. Sutil. Quase inexistente.
— Provavelmente.
Ele olhou para a cidade mais uma vez.
— Mas confesso que o Batman fazia sentido demais.
Marcos fechou os olhos.
Do lado de fora, um último fogo atrasado explodiu no céu. Por um segundo, muito breve, a silhueta parecia a de um capacete… metálico.
Edu não comentou.
Algumas verdades não precisam de confirmação.
E assim começou mais um ano do Bergamota Prime.
Sem heróis.
Sem vilões.
Só amigos, ressaca e a estranha sensação de que, talvez, o multiverso tenha passado ali — só para dar uma espiada.
Porque caos reconhece caos.
E às vezes… respeita.
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