Coluna semanal do Edu #04 - tudo novo, daqui para frente.

Edu Kawasashi14/02/2026
Coluna semanal do Edu #04 - tudo novo, daqui para frente.

Ainda me pego estranhando o anel na mão esquerda. Durante meses acostumei o polegar a procurar a aliança no lado oposto, como quem checa se algo ainda está no lugar. O gesto persiste, quase automático, e quando não encontro o anel onde sempre esteve, sinto um frio na barriga. Um instante de susto, até a lembrança me corrigir: mão errada, irmão. Mão errada.

    Na última sexta-feira me casei. Dito assim, parece simples. Mas o pensamento que mais me acompanhava era: isso deveria estar sendo transmitido para o mundo inteiro. Não por vaidade, mas por incredulidade. Quem me conhece sabe: eu era o tipo de sujeito que jurava nunca se casar. Repetia isso com tanta convicção que acabou virando piada do dia — e da noite.

    E, no entanto, lá estavam eles: amigos e família, testemunhas de um acontecimento que, para muitos, parecia improvável. Eu, sempre tão independente, sempre tão sozinho, de repente chamando todos para o meu casamento. Se fosse o contrário, eu também teria ficado surpreso.

    Entre tantos rostos queridos, um em especial se destaca: Rafai, meu estagiário extraordinário. Sim, ele se perdeu no caminho, mas chegou. E foi recebido como parte da tropa. Sentou-se à mesa, ganhou recomendações confusas de filmes — porque tanto minha esposa quanto meu padrasto têm uma memória sofrível para títulos — e, para completar, foi convocado a jogar RPG com o grupo. Rafai, não adianta fugir: você agora tem ficha para montar e atributos para escolher.

    Olhar para aquela mesa foi como assistir à cena final de Vingadores: Ultimato. Velhos amigos, colegas de infância, parceiros de jornada e, no meio de todos, o novato que caiu de paraquedas. Cada conversa paralela parecia música de fundo, enquanto eu e minha esposa íamos de um lado para o outro, apresentando mundos. Ela, que sempre perguntava quando conheceria meus amigos, finalmente os encontrou. E riu ao perceber que nossas reuniões não aconteciam em bares ou churrascos, mas em mensagens rápidas, trocadas à distância. É assim que vivemos: não precisamos estar sempre juntos para saber que estamos sempre perto.

    Agora, porém, o grupo cresceu. Convites foram feitos, uma nova mesa de RPG foi combinada, e o mestre já tem nome: Nelson Bittencourt. (Não se deixem enganar pelo nome solene: Nelson é jovem. Aparentemente.) Entre dados e vampiros, já sabemos quem não escapou do destino: Rafai.

    No fim, a festa foi isso: o improvável se tornando real, o independente abrindo espaço para o coletivo, o coração solitário dividindo-se em muitos. Um arco de quadrinhos em que todos os heróis se reúnem para a batalha final — só que a batalha, dessa vez, era a celebração.

    E eu, no meio disso tudo, continuo tocando a mão errada de tempos em tempos. Só para lembrar que o que parecia impossível, agora é definitivo.


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